Descubra os talentos artísticos escondidos na Uesb
Estudantes e demais trabalhadores que habitam o espaço acadêmico também desenvolvem atividades artísticas paralelamente 23 de julho de 2024 Rodrigo Rocha MascarenhasA Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), além de formar profissionais e futuros acadêmicos, também é um celeiro de artistas. Alguns deles ainda são anônimos, outros, já alcançaram algum reconhecimento. O Site Avoador foi conhecê-los e traz a história desses artistas e suas obras.

Dener Silveira: “A criatividade é o motor da produção artística.” Foto: Arquivo Pessoal.
Para o professor do curso de Ciências Sociais da Uesb, o sociólogo Dener Silveira, a arte e a criatividade andam juntas, assim como deveria estar a valorização dos artistas. “A criatividade é o motor da produção artística, e as políticas culturais devem incentivar essa expressão criativa.”
O sociólogo chama atenção também para o fato de que, durante eventos científicos, as atividades culturais são entendidas apenas como momentos de relaxamento, sem a mesma importância atribuída às discussões acadêmicas na universidade. “A arte é frequentemente tratada apenas como entretenimento, embora tenha um papel fundamental que vai além disso”, disse. “O reconhecimento e valorização, muitas vezes, estão frequentemente associados ao nome do artista ou à sua obra, em vez de suas experiências subjetivas.”
Diversidade musical
O músico, produtor, diretor e estudante de Cinema e Audiovisual da Uesb, Guilherme Barreto da Silva, de 22 anos, é natural de Irecê, Bahia, mas reside em Vitória da Conquista há dois anos, após passar uma temporada em em Jequié. O artista descobriu sua paixão pela música ainda criança, influenciado pelo ambiente da igreja frequentada por sua mãe. Ele começou a explorar diferentes instrumentos e se encantou com a música gospel. Apesar de sua mãe sempre o incentivar, dizendo que ele tinha talento para cantar, Guilherme, inicialmente, não levava esses elogios muito a sério, considerando-os como parte do apoio materno.

Guilherme Barreto da Silva: “Além de músico e produtor, estou no audiovisual como diretor”. Foto: Agência 44/ Dan Miranda.
Em sua adolescência, inspirado por suas paixões juvenis, começou a compor músicas que faziam sucesso entre os colegas. Assim, decidido a seguir sua paixão, ele lançou as músicas “Dois Fugitivos” e “Só Se Você Voltar”, disponíveis no YouTube, Spotify, Deezer, Apple Music e outras plataformas digitais. Em 2023, seu trabalho acumulou mais de três mil ouvintes em cerca de 50 países no Spotify.
No ano passado, lançou o clipe “Intensidade”, com a participação de Alice Mistay, que é uma artista Drag Queen de Jequié. “Foi a primeira obra audiovisual que eu dirigi e produzi, sendo que é a minha área de atuação hoje no audiovisual. Sou diretor, produtor e músico” disse Guilherme. O clipe foi uma obra feita do zero, sem nenhum recurso, apenas com o apoio da Uesb, que permitiu o empréstimo dos equipamentos utilizados no vídeo. Para o futuro, Guilherme planeja seguir carreira na música pop, conciliando com sua formação em Cinema e Audiovisual.
Na Uesb também é possível encontrar instrumentistas, como Mário Pereira Rocha Neto, de 32 anos, tecladista, que trabalha como tapeceiro na instituição. Conquistense, ele começou na música de maneira simples, ao frequentar festas locais, onde via pessoas tocando teclado. Isso despertou seu interesse e levou a sua mãe a presenteá-lo com o instrumento. “Não era muito bom, mas foi com ele que comecei a aprender a tocar”, disse.
Com 17 anos, ele aprendeu a tocar teclado e, logo depois, começou a tocar em casamentos. A partir daí, Mário começou a utilizar alguns teclados maiores e deu continuidade ao seu trabalho, já que sempre gostou de fazer música com o equipamento musical. “O teclado é um instrumento bem interessante, pois é completo e reproduz o som de todo tipo de instrumento”, enfatizou.

Mário Pereira Rocha Neto: “Sempre gostei de fazer música com o teclado. Eu gosto dos timbres do instrumento.” Foto: Arquivo pessoal
Mário já tocou em eventos em Conquista e região Suodeste como também em Minas Gerais. No dia 14 de janeiro deste ano, também se apresentou na Limeira, fazendo a abertura do show do cantor Devinho Novaes, que contou com a participação de 10.000 pessoas vindas da capital do Sudoeste e de outras regiões do estado.
Atualmente, toca em bares, restaurantes, produz, grava e cria arranjos musicais, inspirado em artistas e bandas que utilizam teclado, como Washington Brasileiro e Pepe Moreno. Um momento inesquecível para o artista foi quando tocou na gravação do CD da Banda Climática, com o vocalista Anderson Alves, em 2010.
Um dos maiores desafios enfrentados pelo músico, além da desvalorização do trabalho, segundo Mário, é a falta transporte para tocar em lugares distantes, já que precisa fretar um carro para conduzir a equipe e os equipamentos. Como tecladista, ele também enfrenta a dificuldade de não encontrar espaço para desenvolver um projeto forte com o teclado, o que às vezes “desanima o artista”. Apesar dos percalços, o músico pretende continuar com seu trabalho e tem planos de montar seu próprio estúdio para produzir trabalhos para artistas de todos os gêneros musicais.
Atravessamentos entre teatro e poesia
O ator e estudante de Cinema e Audiovisual da Uesb, Guilherme Dutra Freitas, 22 anos, de Barra da Estiva, e há dois anos vive em Conquista. De acordo com o artista, a escolha da graduação tem a ver com essa afinidade com o teatro. “Por mais que as interpretações para teatro e cinema sejam diferentes, muitas pessoas que saem do teatro para o cinema conseguem se adaptar bem e passar verdade nas cenas.”
Ele começou a fazer teatro amador para vencer a timidez na escola ainda durante o Ensino Fundamental, e no Ensino Médio chegou a participar de curtas metragens. “Eu sou uma pessoa muito tímida e, depois que eu comecei a fazer teatro, melhorei bastante em várias questões, como olhar nos olhos e falar em público. O teatro me ajudou bastante, porque traz para a gente uma interação maior com as pessoas”, relembrou.

Guilherme Dutra Freitas: “O teatro traz a gente para uma interação maior com as pessoas.” Foto: Rodrigo Rocha Mascarenhas.
Na capital do Sudoeste, o contato, com diretores e outras pessoas com experiência no teatro, levaram Guilherme a primeira experiência como ator no projeto Cine e Cena da Uesb. Atualmente, o jovem participa do Coletivo de Teatro Simbó, que teve início com a peça “Os 13 Signos do Zodíaco: Quem Matou Libra?”. Essa montagem foi apresentada no Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima em 2023, sendo ele o protagonista, com o personagem Libra. “No início, fiquei travado e tímido, em alguns momentos, para estar como Libra, mas, aos poucos, o personagem me ajudou a evoluir e passei a gostar de fazer o papel”, contou.
O Coletivo Teatro Simbó tem reuniões frequentes, quando acontecem trocas experiências e realizações de dinâmicas em grupo. Ele pretende continuar participando para continuar aprendendo a ser cada vez mais um artista melhor.
Outra artista da Uesb é a poetisa e estudante de Jornalismo na Uesb, Ana Paula Pereira Santana, de 26 anos. Ela cresceu ouvindo rap e queria escrever canções de protesto, com um estilo de escrita mais agressivo e sentimental. “Muitas vezes a gente não consegue dizer para alguém algo, mas eu consigo expressar através da poesia”, destacou.

Ana Paula Pereira Santana: “Tenho poesias guardadas em casa e tenho que fazer algo com elas.” Foto: Rodrigo Rocha Mascarenhas
Ela nasceu em Itapetinga, mas já mora em Conquista há 20 anos. Começou a fazer poesia no início da adolescência no Ensino Fundamental, entre os 13 e 14 anos, e foi, a partir de um trabalho escolar, que descobriu seu talento com as palavras. No Ensino Médio, ela foi premiada dois anos seguidos por suas poesias, o que a fez crescer acreditar na existência de um talento. “Foi um passeio que conquistei literalmente através das minhas poesias. Para mim, aquilo foi muito legal, saber que eu estava ali graças a um talento que eu nem sabia que eu tinha.” Outra experiência enquanto poetisa foi vivenciada nos saraus no Teatro Carlos Jeová, nos eventos promovidos pela Prefeitura de Vitória da Conquista para jovens talentosos.
Como artista e estudante de Jornalismo, acredita que existe uma conexão entre a graduação que escolheu e a poesia. “O jornalismo é uma oportunidade de contar as histórias das pessoas e a poesia, além de expressar os meus sentimentos, expressa também os sentimentos dos outros através das palavras, e o jornalismo se encaixa muito bem nesse quesito”, ressaltou.
A poetisa já tentou lançar um livro com poemas autorais em parceria com o seu tio Orlando Santos, que era escritor e publicou “Magias Para o Amor”. Esses últimos planos foram deixados de lado depois da morte dele. No momento, ela tem divulgado seu trabalho em seu perfil do Instagram @jornalis_tando. “Tenho poesias guardadas aqui em casa e tenho que fazer alguma coisa com elas. Não posso deixá-las guardadas”, revelou Ana.
Mãos que transformam
Faxineiro terceirizado de segunda a sexta-feira na Uesb, em Conquista, Lucas Jardim Gomes, de 23 anos, cuja residência é na cidade de Barra do Choça, também é desenhista. Desde os cinco anos, ele desenvolveu interesse por essa arte, inspirado pelos desenhos animados que assistia. Ele conta que, após assistir aos programas, tentava reproduzir os personagens em seu caderno.
Com oito anos, um professor de arte mostrou a Lucas alguns desenhos realistas, os quais acreditou que fossem impossíveis de serem reproduzidos na época. Ao chegar à adolescência, aos 16 anos, ele fez a primeira tentativa de desenho realista, na capa de um caderno, que não ficaram tão bons, mas lhe permitiu perceber que que conseguia fazê-los.

Lucas Jardim Gomes: “Conseguir observar algo e reproduzir no papel é impressionante. Eu não imaginava que iria conseguir fazer, é um dom.” Fotos: Arquivo pessoal
Mais tarde, fez outro desenho para presentear uma amiga, que ficou bem feito e acabou sendo postado em suas redes sociais. Ao compartilhar, ele foi procurado por pessoas interessadas em encomendar seus desenhos. Assim, Lucas começou a ganhar dinheiro com suas habilidades artísticas, vendendo o primeiro desenho por R$30,00. A partir daí, ele passou a levar o desenho cada vez mais a sério, buscando constantemente aperfeiçoar a técnica de trabalho. “Eu vejo isso como benção de Deus, porque consegui observar algo e reproduzir no papel é impressionante. Eu não imaginava que iria conseguir fazer, é um dom”, destacou Lucas.
O jovem desenhista relembrou que durante a pandemia da covid-19 enfrentou momentos difíceis e começou a criar desenhos de rostos com diversas expressões para expressar seus sentimentos. Ele representava emoções como tristeza, solidão, raiva e alegria, e considera essa atividade como uma lembrança marcante em sua vida.
Inspirado no desenhista realista Levi Sousa, ele pretende utilizar seu talento não apenas para benefício próprio, mas também de forma voluntária na organização a qual pertence, Testemunhas de Jeová. “Posso fazer um desenho que vai ajudar no projeto de construção. Não quero usar esse dom de uma forma egoísta só para me beneficiar, mas usar como forma voluntária. Eu sou testemunha de Jeová, temos o trabalho de ajudar os irmãos, colaborar sem receber por isso, e essa vai ser a minha forma de contribuir.”
Entre as artistas da Uesb também está a coordenadora de Planejamento Institucional, a servidora Patrícia Santos Cardoso Gondim, de 43 anos. Ela trabalha com a produção de mandalas, que podem ser consideradas artísticas pelas expressões criativas, decorativas e pelo designer, tendo um simbolismo espiritual relacionado à meditação e à cromoterapia. “Elas ajudam na redução do estresse, ansiedade, melhoram o foco, me ajudou muito na época da pandemia”, explicou

Patrícia Santos Cardoso Gondim: “As mandalas trazem benefícios para a saúde física, mental e emocional” Foto: Rodrigo Rocha Mascarenhas.
Patrícia nasceu em Ubaíra, localizada no Vale do Jiquiriçá, mas já mora há 22 anos em Conquista. Segundo ela, desde os oito anos tem interesse pela arte do desenho e pinturas. Foi na adolescência, após um período sem desenhar, que Patrícia descobriu a arte das mandalas, que lhe foi apresentada por uma amiga. Durante a pandemia da covid-19, ela conseguiu se aprofundar nessa prática artística, fazendo dois cursos, um de desenho e o outro, sobre mandalas vibracionais.
Para realizar o trabalho, a artista revelou que existe todo um ritual antes de começar a criar mandalas e que cada trabalho é único e exige uma conexão com cada cliente. “Para me acalmar e me conectar com energias superiores, faço uma meditação com incenso, coloco uma música calma ou faço orações”, disse. “Isso garante que quem recebe a mandala, pegue com as energias necessárias para a finalidade desejada. Isso porque a mandala vibracional vai além da arte, é feita acessando a energia da pessoa. Ela é feita com uma energia específica para ajudar a pessoa que a adquire para alcançar o que ela pediu.”
Apesar de já ter trabalhado com as mandalas direcionadas a fins comerciais, atualmente, a artista leva essa arte como hobby e a usa para se desestressar. “As mandalas são uma forma de arte que serve como instrumento de busca interior, para quem busca se conhecer e está buscando serenidade, respostas para vida e o autoconhecimento.
A arte também é capaz de unir duas áreas completamente diferentes como por exemplo a informática e a marcenaria. José Cássio Ferraz Matos, 51 anos, técnico em Edificações na Uesb, faz esse atravessamento entre as duas áreas. Ele mantém um trabalho artístico com madeira, alumínio e plástico. Conquistense, ele começou a trabalhar nesse ramo artístico para fazer uma renda extra e também porque gostava da marcenaria.

Obras artísticas de José Cássio Ferraz Matos. Fotos: arquivo pessoal
O primeiro passo, segundo o marceneiro, é criar o desenho no computador, que é a máquina responsável por dar a vida a esta arte. Em seguida, há uma impressão, que, ao invés de imprimir no papel, corta o material escolhido. Essa máquina, chamada de CNC (Controle Numérico Computadorizado), opera em três eixos: x, y e z, cada um cortando em uma direção diferente.
Cássio prefere trabalhar com peças criadas por ele, gosta de ter peças prontas e deixar o cliente escolher qual quer levar. Quando recebe encomendas, tenta fazer ao máximo algo de acordo com a necessidade do cliente. “É algo que no final me traz uma satisfação por as pessoas saberem que fui eu que fiz. Essa é uma forma de deixar a minha marca nos lugares onde tem algum trabalho meu”, destacou. “As pessoas consideram o meu trabalho como um tipo de artesanato, por isso eu não vou parar porque é uma coisa que eu gosto de fazer e é um serviço diferenciado.”
O Site Avoador buscou o setor de cultura da Uesb para saber se há apoio aos estudantes e funcionários artistas da instituição, o que não foi confirmado. Segundo a Coordenação de Cultura, apenas existem as seguintes atividades disponíveis: Coral Uesb, Performances Culturais e o Vida Ativa, este último direcionado ao público idoso. “Todos estes projetos são abertos não apenas ao público universitário, mas a toda comunidade Conquistense”, disse a coordenadora do Setor, Claudia Cavalcante Fonseca. Foi informado ainda que estão à disposição da comunidade os seguintes instrumentos musicais na Uesb:, piano e flauta doce. Para mais informações, entre em contato com a Coordenação de Cultura da Uesb no email ccultura@uesb.edu.br ou pelo (77) 3425-9363.