Do campo à etiqueta: rastreabilidade revela o caminho do algodão baiano

Identificação dos fardos e acompanhamento da produção permitem conhecer a origem da fibra e levar informações do campo até o consumidor 28 de agosto de 2026 < Elival Santos 

Uma etiqueta presa a um fardo de algodão pode parecer um detalhe diante de uma produção que ocupa mais de 400 mil hectares na Bahia. Nela, porém, há uma sequência de 20 números que ajuda a identificar de onde saiu aquele algodão e a acompanhá-lo depois que deixa o campo. Entre a propriedade rural e uma peça encontrada no comércio existe um caminho que passa pelo beneficiamento, classificação, comercialização e indústria. Preservar as informações durante esse percurso é o que permite reconstruir a trajetória da fibra e conhecer a origem do produto.

Dados apresentados pela Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa) mostram o tamanho dessa produção. A área cultivada no estado passou de 266,2 mil hectares na safra 2014/2015 para 412,7 mil hectares em 2025/2026. Com o avanço da área plantada, cresce também a quantidade de informações que precisa acompanhar a produção. Saber qual produtor cultivou o algodão, em qual propriedade ele foi produzido, onde passou pelo beneficiamento e quais características foram identificadas faz parte do processo de rastreabilidade dentro da cadeia produtiva.

O fardo ganha uma identidade

Depois da colheita, o algodão segue para a Unidade de Beneficiamento de Algodão, a UBA. É nessa fase que a pluma é separada de outros componentes e prensada em fardos. A partir daí, olhar apenas para a fibra não é suficiente para reconhecer sua origem. O Sistema Abrapa de Identificação (SAI), criado pela Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), identifica individualmente esses fardos. Cada um recebe uma etiqueta com um código de barras de 20 dígitos, que reúne informações como a unidade onde ocorreu o beneficiamento, a prensa utilizada e o número do fardo.

É como se o algodão ganhasse um documento antes de seguir viagem. Na safra 2025/2026, o sistema passou a incorporar informações de origem antes de as amostras seguirem para os laboratórios. Dados do produtor e da fazenda são vinculados ao processo na unidade de beneficiamento. A identificação passa, assim, a relacionar o fardo a quem produziu e à propriedade rural onde o algodão foi cultivado. O processo exige acompanhamento da produção, gestão, monitoramento e controle para que as informações permaneçam ligadas à fibra.

Amostras de algodão expostas durante visita à Unidade de Beneficiamento de Algodão (UBA), em atividade promovida pela ABAPA. Foto: ABAPA

Fardo e lote, apesar de aparecerem dentro desse percurso, não significam a mesma coisa. O SAI identifica individualmente cada fardo, enquanto um lote pode reunir diferentes volumes de algodão conforme critérios comerciais e operacionais. Manter essas informações organizadas permite que o algodão avance pela cadeia sem perder dados importantes sobre sua procedência. A rastreabilidade, portanto, começa muito antes de um QR Code chegar às mãos do consumidor.

Saber de onde veio não é tudo

Para o mercado, identificar a origem resolve apenas uma parte da questão. O algodão também precisa mostrar suas características. “Não só saber a origem, mas a origem com características”, afirma Natália Braga, gerente de Comunicação e Marketing da Abapa. Ela usa exemplos do cotidiano para explicar essa diferença. “Você tem algodão para fazer pano de chão e você tem algodão para fazer jeans, camisetas e jogos de cama de mil fios. Não é o mesmo preço. “Depois do beneficiamento, amostras dos fardos são analisadas para determinar características da fibra. Uma das tecnologias usadas nesse trabalho é o HVI, equipamento que realiza medições padronizadas de qualidade. Na Bahia, o laboratório da Abapa integra essa etapa de classificação. Origem e qualidade passam, então, a fornecer informações importantes para a comercialização. Para Braga, reunir esses dados aumenta a segurança na negociação. “Ele é importante porque garante que aquilo que o produtor está comprando é aquilo que realmente, de fato, está sendo entregue.”

Uma cadeia que precisa conversar

O trabalho não termina quando o fardo deixa a região produtora. O algodão ainda pode passar pela comercialização, fiação, tecelagem, confecção e varejo. São diferentes elos trabalhando sobre uma matéria-prima que começou sua história meses antes em uma propriedade rural. A certificação também aparece nesse processo, mas não é sinônimo de rastreabilidade. Rastrear permite acompanhar o caminho e a identificação do produto, enquanto a certificação está relacionada à verificação de critérios estabelecidos por programas específicos.

Para Natália Braga, explicar somente a tecnologia usada nesse acompanhamento não é suficiente. “O maior desafio não é comunicar a rastreabilidade. O maior desafio, enquanto jornalista, é aproximar o algodão como um todo do dia a dia das pessoas”, afirma. Segundo ela, é preciso primeiro apresentar ao público o algodão, sua produção e suas características. “A gente fala do que é o algodão, de como ele é fabricado, de como ele é sustentável, de todas as características dele. E a rastreabilidade é um argumento de comprovação.”

Natália Braga é Gerente de comunicação e marketing da ABAPA. Foto : Elival santos

A distância entre o campo e o consumidor ajuda a explicar esse desafio. Uma camiseta de algodão está presente no cotidiano, mas dificilmente quem entra em uma loja pensa na fazenda onde aquela matéria-prima foi cultivada, no beneficiamento ou no laboratório pelo qual passou. A peça pronta está diante dos olhos, enquanto o início da história permanece distante. A rastreabilidade busca diminuir essa distância ao preservar informações que acompanham o algodão durante as transformações.

Da fazenda para a tela do celular

Uma iniciativa que tenta levar parte desse percurso ao consumidor é o SouABR, ligado à Abrapa e ao movimento Sou de Algodão. A proposta amplia a rastreabilidade para etapas da indústria têxtil e para peças participantes do programa. O projeto apresenta a ideia de acompanhar a fibra “da semente ao guarda-roupa”. Nos produtos participantes, um QR Code permite consultar informações sobre o caminho percorrido pela matéria-prima até chegar ao produto final.

Dados nacionais apresentados pela Abrapa e atualizados em janeiro de 2026 registravam 209 fazendas, 140 produtores e 87.088 fardos de algodão na cadeia apresentada pelo programa. Também apareciam mais de 7,8 milhões de quilos de fios, 805 mil metros de tecidos, 242 mil quilos de malhas e 622.922 peças rastreadas. Os números são nacionais e não representam somente o algodão da Bahia, uma diferença necessária quando o próprio assunto da reportagem é a identificação precisa da origem.  Entre exemplos de peças rastreadas apresentados pelo programa estão produtos de Alma Grino, C&A, Döhler, Renner e Reserva. Isso não significa que todas as peças comercializadas por essas marcas sejam rastreáveis ou tenham algodão produzido na Bahia. A rastreabilidade está relacionada aos produtos e às cadeias que efetivamente participam do processo. Essa distinção também evita que participação em uma iniciativa do setor seja confundida com certificação ou garantia de origem para todos os produtos de determinada marca.

O caminho de volta para a Bahia 

Para quem encontra uma peça participante, toda essa estrutura pode aparecer em poucos segundos ao apontar a câmera do celular para o QR Code. A informação acessada naquele instante, porém, começou a ser construída meses antes. Braga destaca que o consumidor pode conhecer mais do que o ponto onde o algodão foi cultivado. “Para que ele saiba daquele algodão não só de onde ele vem, mas como ele foi produzido, como ele foi trabalhado na indústria.”

A peça que ficou pronta passou pela confecção. Antes dela existiram tecido e fio. Antes do fio, havia um fardo identificado e analisado. E antes do fardo existiam uma propriedade rural, uma lavoura e um produtor. Rastrear significa preservar as conexões entre essas etapas. Qualidade, segurança, confiança e transparência dependem também das informações que continuam ligadas à fibra enquanto ela muda de forma, passa por diferentes processos e pode viajar milhares de quilômetros.

Para a produção baiana, a identificação permite que a origem continue associada ao algodão mesmo depois que ele deixa o campo. A fibra pode ser beneficiada, analisada e transformada em fio, tecido e roupa. No fim desse percurso, aquilo que começou em uma lavoura pode estar em uma loja distante do lugar onde foi produzido. O produto muda várias vezes durante o caminho. A informação sobre onde tudo começou é que não precisa mudar.

*Reportagem produzida para a 6ª edição do Prêmio ABAPA de Jornalismo pelo estudante Elival Santos, do 6º semestre do curso de Jornalismo da Uesb.