DO CAROÇO AO FIO: A ECONOMIA CIRCULAR E O DESPERDÍCIO ZERO NO OESTE BAIANO

Mais do que uma tendência de mercado, a economia circular no Oeste da Bahia mostra que a produtividade e a preservação podem andar de mãos dadas 25 de agosto de 2026 < Lavínia Marinho

A cadeia produtiva do algodão no Oeste da Bahia consolidou um modelo de gestão em que a palavra desperdício deixou de existir. Na região responsável por cerca de 97% da produção algodoeira do estado, segundo dados da Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa), a fibra colhida do solo cumpre funções que vão muito além de abastecer a indústria têxtil: ela se transforma em alimento, energia, insumos industriais e combustível limpo. A visão histórica que associa o agronegócio à geração descontrolada de resíduos dá lugar a uma engrenagem socioeconômica e ambiental onde cem por cento da matéria-prima é aproveitada.

A primeira etapa dessa engrenagem é movida pela pluma, a fração mais nobre do algodão. Com alto padrão de qualidade e certificações socioambientais, a pluma baiana abastece fiações no Brasil e nos principais mercados globais. De acordo com informações da Secretaria de Agricultura do Estado da Bahia (Seagri) e do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), a Bahia consolida-se como o segundo maior produtor e exportador de algodão do país, destinando cerca de 80% de sua safra ao mercado externo, atendendo indústrias têxteis em países asiáticos como China, Vietnã, Indonésia e Bangladesh.

 

Contudo, o grande marco do modelo de desperdício zero ocorre no processo posterior ao descaroçamento. O caroço do algodão, que representa cerca de 60% do peso total colhido no campo, tem aproveitamento integral nas indústrias do Oeste baiano. Ao passar pelas usinas de esmagamento, esse subproduto gera um óleo vegetal versátil, utilizado na indústria alimentícia, na fabricação de cosméticos e na produção de biodiesel.

O resíduo sólido resultante dessa extração é a “torta de algodão”, além do farelo. Segundo dados da Embrapa Pecuária Sudeste e de análises bromatológicas do setor agropecuário, essa matéria-prima possui um teor de proteína bruta que pode atingir 48%, além de elevado valor energético. A torta abastece diretamente os rebanhos da pecuária intensiva regional, reduzindo os custos de nutrição animal, eliminando a dependência de insumos vindos de fora e fechando um ciclo direto de sustentabilidade entre a agricultura e a pecuária local.

Até mesmo as menores frações de sobra do beneficiamento ganham destinação útil. As cascas, as poeiras industriais e os fiapos curtos, conhecidos como línter, são direcionados às indústrias químicas para a confecção de papel-moeda, celulose refinada e produtos farmacêuticos. Essa mentalidade de reaproveitamento integral é confirmada por quem lidera o setor no estado. A presidente da Abapa, Alessandra Zanotto, destaca que a preocupação com a circularidade já é uma prática naturalizada no cotidiano das propriedades e das usinas de beneficiamento da região.

 

“Eu acredito que hoje a maioria dos produtores de algodão aqui da nossa região se preocupa com a circularidade. Quando vemos que tudo se aproveita da pluma, é porque isso já é uma roda, já é um círculo dos negócios e das algodoeiras”, analisa Zanotto.

Alessandra Zanotto – Presidente da Associação Baiana dos Produtores de Algodão Foto: Abapa

A gestão sustentável descrita pela presidente estende-se inclusive aos materiais operacionais do dia a dia, como os revestimentos plásticos que envolvem os módulos de algodão colhidos no campo. Em vez de se tornarem descarte, esses plásticos são reaproveitados no envelopamento das cargas de caroço para evitar o derramamento do insumo nas rodovias durante o transporte até o destino final. “Esse destino traz um retorno não apenas socioambiental, mas também financeiro para a própria indústria. Não é uma particularidade de uma propriedade; é um ecossistema muito unido, e a Abapa atua como a grande agente de conexão desses elos”, pontua a dirigente.

Ciência e Tecnologia a Favor da Eficiência Ambiental

Para sustentar essa cadeia circular e manter o padrão exigido pelos compradores internacionais, a tecnologia atua como suporte contínuo nas etapas de verificação e controle de qualidade. No Centro de Análise de Fibras da Abapa, instalado em Luís Eduardo Magalhães e reconhecido como o maior laboratório do gênero na América Latina, cada amostra passa por testes em equipamentos de alta precisão (High Volume Instruments – HVI).

Centro de Análise de Fibras da Abapa

 

A própria concepção desse centro tecnológico foi desenhada sob a premissa do menor impacto ambiental possível. Sérgio Alberto Betano, gerente do laboratório, explica que a busca pela redução de resíduos orientou o projeto da nova infraestrutura do local. “Planejamos essa estrutura nova para que tenhamos um laboratório cada vez mais eficiente, com maior produtividade, menor consumo de energia e menos desperdícios. Tudo isso contribui para questões de eficiência ambiental”, detalha o especialista.

Betano ressalta ainda que a transição para processos mais limpos foi viabilizada pelo conhecimento acumulado pela equipe e pelo planejamento integrado com o produtor rural. Para ele, o resultado dessa equação que alia tecnologia, planejamento e capacitação humana é a entrega constante de uma fibra de altíssima qualidade ao mercado global.

Sérgio Alberto Brentano – Gerente do Centro de Análises de Fibra Foto: Abapa

O Impacto Social e a Valorização do Trabalhador Rural

Além dos ganhos ambientais e industriais, o avanço da cotonicultura sob os preceitos da economia circular gera impactos diretos na estrutura social dos municípios baianos, impulsionando a qualificação profissional e a geração de renda nas zonas rurais. A diversificação das atividades dentro das fazendas que hoje abrigam de usinas de beneficiamento a biofábricas exige equipes técnicas multidisciplinares.

Coordenadora de sustentabilidade da Abapa e responsável pelo programa Algodão Brasileiro Responsável (ABR), Yanna Costa observa que a expansão da cultura abre portas para as populações locais. “A cada ano, observamos o aumento da área plantada e novos produtores ingressando na cotonicultura. Pensemos na fazenda como uma indústria com várias linhas produtivas. A inserção de uma biofábrica ou a expansão da irrigação atrai profissionais de diversas áreas, gerando oportunidades para as comunidades no entorno das propriedades”, avalia Yanna.

Yanna Costa – Coordenadora de Sustentabilidade da Abapa

Essa integração social é respaldada por ações contínuas no campo. A atuação da Abapa estrutura-se em duas frentes estratégicas: o Programa Fitossanitário, que utiliza sistemas de monitoramento de pragas em tempo real para racionalizar o uso de defensivos e reduzir pulverizações, e o Programa ABR. Como explica Yanna Costa, a certificação auditada do ABR assegura que o crescimento econômico ande de mãos dadas com a dignidade do trabalhador e a legislação ambiental, garantindo regularidade trabalhista, florestal e de segurança do trabalho em todo o ecossistema produtivo.

Um Novo Paradigma para o Agronegócio Global

A experiência consolidada no Oeste da Bahia demonstra que alta produtividade e preservação ambiental não são pilares indissociáveis. Esse compromisso é internacionalmente atestado pelo benchmarking entre o programa nacional ABR e o Better Cotton Initiative (BCI), a maior organização global voltada para a sustentabilidade do algodão. Por meio dessa parceria, a produção baiana cumpre os mais rigorosos padrões mundiais de governança ambiental, uso racional da água, saúde do solo e trabalho decente, garantindo que o algodão local chegue às principais marcas globais com o selo de responsabilidade socioambiental.

Com uma produção de algodão beneficiado que supera 780 mil toneladas por safra no estado, a cadeia produtiva regional comprova que a economia circular gera valor econômico, reputacional e social concreto. Ao transformar uma única cultura em tecidos para o mercado global, óleo vegetal, ração proteica, adubo orgânico e biomassa energética, Luís Eduardo Magalhães estabelece um novo padrão para o agronegócio contemporâneo. A trajetória do caroço ao fio evidencia que o futuro da agricultura sustentável reside na inteligência do manejo e na capacidade de transformar recursos em um ciclo infinito de aproveitamento.