Do Hip Hop à Academia de Letras: escritoras conquistenses se reúnem em comunidades literárias
Morgana Poesis aborda a invisibilização das mulheres na história da literatura e as desigualdades de gênero no mercado cultura 9 de outubro de 2026 < Morgana PoiesisÉ sabido que linguagem e sociedade estabelecem entre si relações constitutivas. Se a arte insurge contra a realidade tantas vezes, o mercado cultural tende a reproduzir suas estruturas. Neste contexto, ainda não é dispensável apontar a invisibilização das mulheres na história da literatura, cujas obras não raramente foram publicadas com autorias anônimas, quando não ocultadas sob pseudônimos masculinos ou assinadas por seus cônjuges, então consagrados como grandes escritores.

Sarau Palavrilhas, 2026
Ainda sãomúltiplas as camadas sociais que precisam ser ultrapassadas para que uma mulher possa escrever, no capitalismo patriarcal. A começar pelo acesso à educação como um direito que lhe fora negado, seguido pelos papéis coadjuvantes que lheforam atribuídos, ao longo de séculos, que comprometeram o pleno desenvolvimento de sua própria expressão. Além desses comprometimentos ao ato da escrita e à identidade de escritora e si, nos deparamos com um mercado cultural que, ao seu modo, reproduz a lógica da misoginia societária, apresentando-se como um território hostil para publicações de obras escritas por mulheres e livres circulações das próprias escritoras.
Uma vez escritas e publicadas, convivemos com a indiferença de sermos menos lidas, na sociedade androcêntrica que desqualifica o discurso feminino, quando não o silencia completamente. Acrescentaria, por fim, uma resistência social ao status intelectual da mulher, revelada nas pontuais menções acerca de suas literaturas e teorias críticas, que tendem a deslocar o foco do discurso para o sujeito de enunciação, diga-se, da sua competência teórica ou literária para suas aptidões físicas e morais, perpetuando uma representação equivocada acerca do feminino na linguagem e na sociedade.
Lançamento da coletânea Palavrilhas, no FliConquista, 2025.
No Brasil, algumas informações são reveladoras. Em seu artigo Literatura de autoria feminina contemporânea e resistência: o Mulherio das Letras, a pesquisadora Jéssica Casarin (2021) apresenta dados sobre a predominância masculina no mercado literário nacional e internacional, ao longo da história, a propósito dos 114 contemplados com o Prêmio Nobel de Literatura, entre os anos 1901 a 2017, em que apenas 14 foram mulheres, assim como na Academia Brasileira de Letras, em que até 1976 apenas escritores homens eram aceitos, possuindo apenas 3% de escritoras mulheres, no ano de sua pesquisa. Cazarin cita, ainda, um mapeamento feito pela pesquisadora Regina Dalcastagnè (2005), em seu artigo A personagem do romance brasileiro contemporâneo: 1990-2004, segundo o qual 120 dos 165 romances publicados naquele período eram de autores homens, representando 72,7% do total.
Na cena literária contemporânea, essa realidade vem se transformando, com diversos coletivos, grupos, círculos, clubes e demais projetos empreendidos por, para e sobre mulheres leitoras e escritoras, que vem se multiplicando no país, nas últimas décadas. Um dos exemplos mais emblemáticos é o Mulherio das Letras, coletivo nacionalfundado em João Pessoa-PB, no ano de 2017, com objetivo de dar visibilidade às literaturas produzidas por mulheres lusófonas, que hoje reúne cerca de 7,5 mil participantes em diversas regiões brasileiras e países do mundo, com encontros anuais e lançamentos de livros das suas participantes.

Encontro O fazer literário no cotidiano das mulheres, 2024.
Consoante ao movimento nacional, artistas da palavra e escritoras conquistenses também passam a se organizar em comunidades literárias, marcando presença na cena literária e musical da cidade. A crescente participação de escritoras na Academia Conquistense de Letras, desde sua fundação em 1980, é emblemática. Segundo dados publicados pelo site Fórum Literário Sertão da Ressaca, Cecília Meireles foi a única patrona das 40 cadeiras da Academia, de cuja fundação participaram apenas duas escritoras, Heleusa Figueira Câmara e Leda Maria Carvalho da Rosa. Com o passar dos anos, a representatividade de escritoras se torna mais efetiva na ACL, que chega a ser presidida por Heleusa Figueira Câmara (1989-1990), Anna Geruzia Bitencourt Ferraz (2007-2008), Poliana Policarpo (2008-2009), Dilma Andrade (2012-2013) e Elvarlinda Jardim (2020-2025). Ainda segundo o FLSR, atualmente, 17 cadeiras são ocupadas pela escritoras Elvarlinda Jardim, Norbélia de Sousa Neris, Maria Rosana Temoteo da Silva, Marisa Fernandes Leite Correia, Mariângela Borba, Maria das Graças R. Santana Silveira, Poliana Policarpo Magalhães, Marilaine Guadalajara Santos Martins, Cristina Leilane de Azevedo Fernandes, Jacira Penalva, Rossane Nascimento Ferraz Flores, Ana Emília de Quadros Ferraz, Noiane de Jesus Souza, Solange Maria de Oliveira Sala, Raquel Gomes Valadares, Dilma Figueredo de Andrade e Ivone Alves Rocha, o que representa 42,5% do total.

Divulgação do I Fórum Estadual de Mulheres do Hip Hop da Bahia, 2026.
Outras iniciativas independentes protagonizadas por escritoras na cidade merecem destaque, como o encontro temático O fazer literário no cotidiano das mulheres, produzido pelo Coletivo de Escritores Conquistenses, em 2024, o clube literário Leia Mulheres VCA, fundado em 2018, a exposição Elas Escrevem Conquista, promovida pela comitê local do projeto Proler, e o I Fórum Estadual de Mulheres no Hip Hop da Bahia, ambos realizados em 2026.

Capa da coletânea Palavrilhas
Além desses movimentos coletivos, diversas autoras conquistenses lançaram obras solo neste ano, dentre as quais: noi soul (Nua e crua na rua, Manufatura das Letras), Vitória Vieira (Lajedal, Patuá), Luisa Novaes (Segredos Poéticos, Coletivo Editorial Literabooks), Ybeane Campos Moreira (Eis aqui um vivo, Manufatura das Letras), Morgana Poiesis (Epístolas Profanas, Libertinagem), Raquel Dantas (A conquista do rock, 2ª edição, edição da autora), Clara Carolina Souza Santos (Lunário Perpétuo, Editora Patuá),entre outras.

Divulgação da exposição Elas Escrevem Conquista, 2026.
Uma das iniciativas que merece atenção é a comunidade Palavrilhas, movimento literário feminino e independente fundado em 2024, a partir do desejo de reunir e fortalecer mulheres por meio da palavra, que reúne cerca de 49 escritoras, atualmente. Segundo as idealizadoras noi soul e Ybeane Moreira, o objetivo do projeto é valorizar e dar visibilidade à escrita produzida por mulheres, criando um espaço de acolhimento, incentivo e pertencimento. Ao longo dos seus dois anos de atuação, a comunidade Palavrilhas vem desenvolvendo uma série de projetos, dentre os quais: os Saraus Palavrilhas, realizados presencial e virtualmente, desde 2024; o Clube de Leitura Palavrilhas, criado em 2025 com foco na leitura e divulgação de autoras conquistenses; a publicação da Antologia Palavrilhas (Manifatura das Letras), lançada durante a FliConquista, em 2025, da qual participaram 30 escritoras residentes no município, abordando temáticas livres através da poesia. Além desses projetos, a comunidade Palavrilhas também vem oferecendo oficinas de escrita criativa, em Vitória da Conquista e Poções, ambas cidades baiansas, além da oficina Vozes Femininas em Ação, aprovada pela Política Nacional Aldir Blanc, em 2025.
A comunidade marcou presença, ainda, no Festival Literário e Artístico de Poções e no Festival Internacional do Chocolate, em Ilhéus, também na Bahia. Atualmente, está sendo organizada a coletânea ReNascer – Relatos de Parto, e há previsão de um segundo volume da Antologia Palavrilhas. “Essas são iniciativas que, em diferentes formatos, têm em comum o propósito de criar espaços para que mulheres escrevam, compartilhem suas experiências, publiquem seus textos e encontrem outras mulheres através da literatura”, afirmam as fundadoras noil soul e Ybeane Moreira, em entrevista.
*Doutora em Performances Culturais (UFG), mestra em Artes Cênicas (Ufba), especialista em Comunicação e Política e graduada em Comunicação Social (Uesb).Colunista da coluna Entrelinhas do Avoador.