Do silêncio ao diálogo: vivências de pessoas LGBTQIAPN+ e suas famílias
Relatos de jovens revelam diferentes reações à orientação sexual e mostram como informação, respeito e compreensão podem transformar as relações dentro de casa 29 de setembro de 2026 < Emilly Joazeiro, Anavi Souto e Kaique OliveiraQuando uma pessoa LGBTQIAPN+ decide viver abertamente a sua orientação sexual ou identidade de gênero, a reação daqueles ao seu redor pode representar o início de relações mais fortalecidas ou a ruptura de laços afetivos. Embora 72% dos brasileiros afirmem que a homossexualidade deve ser aceita pela sociedade, segundo pesquisa Datafolha de 2026, situações de rejeição e violência ainda fazem parte da realidade dessa população. Dados do Disque 100 mostram ainda que, no primeiro semestre de 2020, mais da metade das 2.808 denúncias de violência contra pessoas LGBTQIA+ registradas naquele período ocorreu no ambiente familiar.
Entre o acolhimento e a rejeição, as relações familiares podem ter impacto direto nas experiências de pessoas LGBTQIAPN+. Um estudo publicado na Revista Brasileira de Enfermagem, baseado em entrevistas com adolescentes e jovens gays e lésbicas, identificou relatos de perseguição, repressão e até expulsão de casa após a revelação da orientação sexual. Os pesquisadores destacam que a família pode funcionar tanto como uma importante rede de apoio quanto como espaço de reprodução da violência.
De acordo com o psicólogo Joalisson Menezes, o acolhimento ou a rejeição nesses momentos são, muitas vezes, influenciados por fatores culturais e religiosos. As crenças construídas no ambiente familiar podem interferir na forma como a orientação sexual ou a identidade de gênero é entendida e recebida. Esse processo também pode exigir tempo para que familiares assimilem uma realidade diferente daquela que projetaram. “Algumas famílias vivenciam o momento de maneira acolhedora, enquanto outras podem passar por sentimentos de medo, culpa, negação ou dificuldade de compreensão”, explicou.
Diferentemente de outras pessoas LGBTQIAPN+ que enfrentam rejeição dentro de casa, o professor de dança e coreógrafo Vinícius Souza encontrou apoio familiar ao se reconhecer como bissexual. O processo ocorreu de forma gradual e sem grandes conflitos. “Na verdade, eu sempre entendi quem era desde criança”, relembrou. Até os 17 anos, ele se interessava apenas por mulheres e ainda não cogitava se relacionar com homens. Em 2019, passou a experimentar novas possibilidades afetivas e, nesse processo, conheceu seu atual namorado.
Quando iniciou o relacionamento com o atual namorado, Vinícius já havia compartilhado com o pai e a mãe que era bissexual e encontrou nos dois uma reação de acolhimento e respeito à sua sexualidade. “Minha mãe falou: ‘não faz a menor diferença, o importante é que você esteja feliz’”, contou. Com o pai, o dançarino precisou explicar alguns dos termos da sigla LGBTQIAPN+. A resposta veio acompanhada de um sorriso acolhedor.
Não demorou para que o restante da família descobrisse. Sua mãe comentou com algumas tias, e Vinícius se viu obrigado a contar para os avós. Segundo ele, a família paterna também o acolheu bem. “Eles são mais conservadores, mas ainda assim, meu namorado foi acolhido desde o início.” A demonstração mais carinhosa veio da avó, que passou a chamá-lo de “neto”.
Uma descoberta que continua
Ao contrário de Vinícius, Fernanda Vitória Lopes, de 22 anos, estudante de Jornalismo da Uesb, cresceu em um ambiente em que falar sobre sexualidade não encontrava espaço dentro de casa. Natural de Barra do Choça, a 24 quilômetros de Vitória da Conquista, ela passou a infância e a adolescência sem referências que a ajudassem a entender a própria sexualidade. “Na verdade, fui uma criança e adolescente reprimida. Eu não tinha muita referência e sexualidade era um tabu”, desabafou.
A jovem relembrou ainda que uma das primeiras vezes em que ouviu uma explicação mais direta sobre o assunto foi assistindo “Malhação”, série de televisão adolescente exibida pela TV Globo. “Foi com a novela que descobri a palavra lésbica”, explicou. Alguns anos depois, na pré-adolescência, entre 13 e 14 anos, ela começou a perceber em si o interesse por meninas. “Não senti que era algo que eu precisava explicar para ninguém.”
Na época, criou uma lista como estratégia de autoconhecimento. “Eu anotei o que tinha que fazer para descobrir coisas sobre mim, faltava beijar na boca e flertar com pessoas”, disse. Foi nesse processo que aconteceu um beijo com uma menina pela primeira vez. Em seguida, começou a se aproximar de uma amiga e as duas passaram a se relacionar.
Até então, Fernanda não sentia a necessidade de compartilhar a sua sexualidade com a família. Foi só quando começou a se aproximar de outras pessoas LGBTQIAPN+, que passou a refletir sobre o assunto. “As pessoas heterossexuais não precisam anunciar sua orientação sexual, mas muitas pessoas da comunidade LGBT+ acabam sendo colocadas na posição de explicar ou revelar aquilo que ainda estão tentando entender sobre si”, ressaltou.
Inicialmente, ela passou a se identificar como lésbica. Hoje, ela se entende como uma mulher bissexual. “Eu me descubro até hoje, a minha atração, o meu desejo pelos diferentes gêneros.” Mas, em meio ao processo de autodescoberta, a estudante se viu exposta antes de decidir viver abertamente a sua orientação sexual.
“Eu fui uma pessoa tirada do armário. Acho que esse é um dos primeiros atos agressivos que uma pessoa LGBT vivencia, a falta de liberdade para se entender antes de falar para o outro”, enfatiza Fernanda. Segundo a jovem, os vizinhos e os colegas passaram a comentar sobre a sua vida pessoal, especialmente quando ela começou a se aproximar de outras pessoas da comunidade LGBTQIAPN+.
Fernanda contou ainda que mostraram à sua mãe uma foto que circulava entre pessoas do colégio onde estudava. A imagem mostrava duas meninas se beijando. “Não era eu na foto, apesar de que uma das meninas usava uma calça parecida com a minha. Mas, naquele momento, descobrir se era eu ou não, não importava. Os comentários eram horríveis”, relembrou.
Depois do episódio, a estudante disse que continuou sem apresentar formalmente seus relacionamentos para a família. Um tempo depois, Fernanda cogitou em sair de casa. Ela procurou apoio no Conselho Tutelar e também passou por atendimento no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), onde buscou acompanhamento psicológico.
À época, por ser menor de idade, ouviu dos órgãos públicos que deveria esperar e seguir as orientações da família. Foi nesse momento que passou a considerar outra alternativa. Aos 16 anos, conseguiu a emancipação com autorização dos pais e, alguns meses depois, saiu de casa, durante a pandemia da Covid-19.
Sozinha, ela deixou Barra do Choça e se mudou para Vitória da Conquista. “Foi um período muito solitário. Eu vim para uma outra cidade, muito maior do que a minha, no meio da pandemia. Tinha uma rede de apoio, mas eu recorria pouco a ela, porque não queria expor tudo o que eu estava vivendo”, afirmou.
Após o período de adaptação na nova cidade, Fernanda encontrou novas redes de apoio e passou a ressignificar experiências vividas na adolescência. “Eu fui atrás de terapia, de uma religião. Hoje, tenho o meu terreiro, que se tornou um alicerce na minha vida”, ressaltou. A relação com a família também passou por mudanças e, embora alguns assuntos ainda não sejam tratados abertamente, ela percebe atualmente maior espaço para o diálogo e para o pertencimento. “Hoje em dia, eu tenho um pouco de tudo. Consigo me sentir em casa, sentir que eu tenho um lar, aqui em Conquista e quando volto para a minha cidade.”
Acolhimento à população LGBT+
A rejeição da família ainda é uma realidade vivida por muitas pessoas que fazem parte da comunidade LGBTQIAPN+. Uma pesquisa da organização Gênero e Número, divulgada pelo jornal O Globo em 2024, aponta que a cada dez pessoas LGBT+, seis são agredidas verbal ou fisicamente pelos próprios parentes. Mesmo quando a violência não é física, o afastamento deixa marcas, afetando a construção da própria identidade.
Segundo o psicólogo Joalisson Menezes, nessas situações, o acompanhamento profissional é indicado tanto para a pessoa que se assume quanto para os familiares. A população LGBTQIAPN+ pode procurar serviços sociais gratuitos, como o Centro de Referência da Assistência Social (Cras) e o Centro de Referência Especializado da Assistência Social Central (Creas).
A assistente social Marília do Amparo Alves explicou que o papel desses serviços é orientar e encaminhar as pessoas para o acompanhamento necessário, inclusive psicológico. Em Vitória da Conquista, há ainda a Coordenação de Políticas de Promoção da Cidadania e dos Direitos LGBT, que oferece suporte jurídico às pessoas atendidas.
No Brasil, a LGBTfobia é crime desde 2019, quando o Supremo Tribunal Federal equiparou a homofobia e a transfobia ao crime de racismo. Assim, as condutas discriminatórias contra a comunidade LGBTQIAPN+ estão enquadradas na Lei nº 7.716/1989. A punição varia a depender do ato, incluindo reclusão de um a três anos, além de multa.
“Existem situações nas quais o serviço social vai acolher a pessoa LGBT e dizer: ‘olha, o que você está sofrendo é um crime e a gente orienta que você vá registrar o boletim de ocorrência’. Porque, às vezes, a pessoa está em um estado de tanto sofrimento que ela mesma não consegue identificar que se trata de um crime”, esclareceu Marília.
Durante os atendimentos, a situação socioeconômica também precisa ser considerada, sobretudo quando a rejeição familiar compromete as condições de moradia e de subsistência da pessoa LGBTQIAPN+. Nesses casos, o acesso a casas de acolhimento, benefícios sociais e outras políticas de assistência pode se tornar necessário. “Eu costumo atender muitas pessoas que a família não permite nem que estejam inscritas no mesmo Cadastro Único (CadÚnico) do governo por causa da orientação sexual”, contou a assistente social.
Em alguns casos, a rejeição da família pode levar pessoas LGBTQIAPN+ à vulnerabilidade extrema. Um levantamento realizado pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), apontou que o número de pessoas em situação de rua cadastradas no CadÚnico, em 2024, chegou a cerca de 330 mil. Desse total, 6.245 eram pessoas trans.
Segundo a assistente social Marília do Amparo, o enfrentamento da rejeição familiar deve envolver a pessoa LGBTQIAPN+ juntamente com ações de orientação e acolhimento dos familiares. Para ela, criar espaços de escuta e informação pode ajudar as famílias a perceberem questões relacionadas à orientação sexual e à identidade de gênero e a reconstruir relações afetadas pelo preconceito. “É preciso oferecer apoio à pessoa que vivencia esse processo, mas também às famílias na compreensão da situação, promovendo o diálogo e a redução de preconceitos”, finalizou.
O amor que acolhe
O estudante de Jornalismo da Uesb Vitor Barboza cresceu em uma família marcada pelo diálogo, mas encontrou fora de casa um ambiente que lhe provocava medo de assumir a própria sexualidade. Natural de Sussuarana, distrito de Tanhaçu, ele ouvia com frequência comentários homofóbicos dirigidos a pessoas LGBTQIAPN+ da comunidade. Embora soubesse desde cedo que era homossexual, o receio de também se tornar alvo do preconceito fez com que evitasse falar abertamente sobre sua sexualidade por um período.
O processo de autoaceitação começou no início do Ensino Médio, em 2020, quando resolveu enfrentar as expectativas que havia criado sobre a reação da família. Para a sua surpresa, a mãe tomou a iniciativa de abordar o tema da sexualidade. A confissão foi quase imediata: “Mãe, eu gosto de meninos também”, seguida por um choro de alívio. A resposta veio em forma de acolhimento.
Do pai, Vitor esperava uma reação acolhedora quando contasse sobre sua sexualidade. Ao falar, não houve brigas ou agressões, mas o assunto passou a ser evitado dentro de casa, o que inicialmente lhe causou mágoa. Com o tempo, o estudante passou ver a reação da família como parte de um processo de adaptação. Entendia que, enquanto ele construía e afirmava a própria identidade, seus familiares também precisavam rever expectativas e referências que haviam construído sobre sua vida.
Os pais de Vitor tiveram uma criação cristã, a mesma transmitida aos filhos desde a infância. Segundo o psicólogo Joalisson Menezes, fatores religiosos, culturais e políticos podem impactar diretamente o processo de aceitação. “Nesses casos, o profissional de psicologia precisa atuar com muito cuidado para fortalecer a autoestima, autonomia e segurança emocional sem desconsiderar a realidade social daquela pessoa.”
Segundo a mãe de Vitor, a pedagoga e técnica em enfermagem Natália Moreira, foi um processo difícil para ambos os lados. Antes mesmo do filho revelar a sua orientação sexual, foi ela quem reuniu a família para conversar sobre o assunto. “Nunca imaginei ter um genro, então é algo que pega a gente de surpresa, mas isso nunca diminuiu meu amor”, relatou.
Para o orgulho de Natália, os filhos mais novos logo decidiram proteger o irmão mais velho de qualquer julgamento, especialmente na escola. “Achei muito bonito porque eles passaram a ser defensores de Vitor e não acusadores”, relembrou a mãe.
Com o tempo, o diálogo voltou a ocupar espaço na relação familiar e, segundo Vitor, o relação ficou ainda mais fortalecida dos dois lados. “A nossa relação é de muito amor, apoio e segurança. Eu sabia que, mesmo que fosse difícil em um primeiro momento, depois isso ia passar. Era uma questão de desconstrução, e a gente se desconstruiu junto, porque eu também passei a me entender melhor”, refletiu.
O medo de não se encaixar
Ao lembrar desse período, associa a identificação como bissexual ao que hoje entende como heterossexualidade compulsória. “Eu achava que era bissexual, e aí ficava um pouco mais tranquila por isso, porque eu pensava: eu ainda posso me encaixar, porque posso me apaixonar por um homem”, conta a jovem.
A estudante de Cinema da Uesb Isabela Souza, de 20 anos, também encontrou apoio familiar sobre a questão da sua sexualidade. Segundo ela, começou a perceber a atração por meninas ainda no início da adolescência, por volta dos 11 ou 12 anos, mas, durante muito tempo, identificou-se como bissexual.
Ao revisitar esse período, Isabela relaciona a forma como se identificava à heterossexualidade compulsória, conceito discutido pela escritora e teórica feminista estadunidense Adrienne Rich no ensaio “Heterossexualidade compulsória e existência lésbica“, publicado originalmente em 1980. A autora analisa como normas sociais e culturais estabelecem a heterossexualidade como padrão esperado, influenciando a maneira como mulheres percebem e vivenciam seus afetos e desejos. Isabela reconhece essa pressão em sua própria trajetória: identificar-se como bissexual ainda lhe permitia imaginar a possibilidade de corresponder às expectativas sociais. “Eu achava que era bissexual e ficava um pouco mais tranquila por isso, porque pensava: ‘eu ainda posso me encaixar, porque posso me apaixonar por um homem’”, confidenciou.
Diante desse medo de não se encaixar no “padrão” estabelecido, por muito tempo, Isabela não se afirmou lésbica. A autoaceitação aconteceu apenas em 2024. “Foi um misto de alívio e receio”, revelou. Finalmente, ela conseguiu conversar com os pais sobre seu primeiro relacionamento com uma mulher. Mãe recebeu a notícia e a acolheu, embora ainda tivesse perguntas sobre a sua sexualidade. “Já para o meu pai, eu contei por mensagem, e ele só perguntou: ‘tá, mas você tá feliz?’ Eu falei que sim, e ele disse: ‘tá bom então, tudo bem, te amo”, destacou.
De acordo com Isabela, a aceitação da família foi mais fácil por causa do seu primeiro namorado, Vinícius Souza, que anos antes havia se assumido bissexual. “Foi a partir desse momento que todo mundo ficou mais ciente sobre as diferentes sexualidades. Depois dele, eu fiquei mais tranquila”, explicou. “Ele abriu o caminho.”
Apesar das diferenças entre suas trajetórias, as histórias de Isabela, Vinícius, Fernanda e Vitor revelam a importância do acolhimento e do diálogo para que pessoas LGBTQIAPN+ possam vivenciar suas identidades e relações afetivas sem medo da rejeição. Para o psicólogo Joalisson Menezes, informação e compreensão também ajudam a transformar as relações familiares. “Quando as pessoas entendem que não é doença, desvio ou escolha, há uma diminuição de conflitos e fortalecimento do vínculo afetivo”, concluiu.
