Doces que viram negócio: o empreendedorismo feminino nas ruas de Vitória da Conquista

Empreendedoras encontram na venda de doces pelas ruas uma oportunidade de conquistar independência financeira 7 de junho de 2026 Vitor Barboza

Entre o movimento dos carros e a pressa dos pedestres, dos clientes de barzinhos e os passantes de praças, mulheres empreendedoras ocupam as ruas de Vitória da Conquista, a terceira maior cidade baiana. O que para muitos é apenas um trajeto, um lugar de parada temporária, para elas é um espaço de trabalho, independência financeira e construção de sonhos.

Essas mulheres não são apenas vendedoras, elas são empreendedoras. Na Bahia, elas já somam cerca de 700 mil mulheres, e no Brasil, esse número chega a 10 milhões de empreendedoras, de acordo com a pesquisa “Desafios e Oportunidades do Empreendedorismo Feminino na Bahia”, do Sebrae Bahia.

Em Vitória da Conquista, as mulheres representam aproximadamente 45,6% dos empreendedores formalizados no município; em números, significam 11 mil empreendedoras. Os dados são da Sala da Mulher Empreendedora, uma iniciativa criada no ano de 2021 pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico (SMDE), para impulsionar negócios e incentivar a capacidade empreendedora das mulheres. Desde sua criação, quatro mil empreendedoras já foram atendidas pela sala.

De quinta-feira a domingo, às 20h, Letícia Graia, de 23 anos, pega a cesta de doces e sai pelas ruas frias de Conquista em busca de clientes. Caminhando pelos bares, praças e calçadas movimentadas, ela tem uma meta diária: voltar para casa com tudo vendido. O trabalho, que hoje garante sua principal renda, começou ainda dentro de casa, no distrito de Sussuarana, em Tanhaçu, no interior da Bahia.

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Filha de empreendedores, Letícia cresceu vendo os pais trabalharem no próprio negócio e conheceu cedo o mundo do empreendedorismo. Aos 13 anos, começou a fazer alfajor para vender nas escolas da cidade onde morava. “Desde nova, eu sempre tive a cabeça de ter a minha liberdade financeira. Comecei com o crochê e depois fui para os doces”, conta.

Com o tempo, Letícia começou a inovar. Além dos doces vendidos nas escolas, passou a produzir bolos, tortas e café em um espaço no Mercado Municipal da cidade. “O ponto era da minha mãe e ela me aconselhou a começar a vender alguma coisa lá. Como era minha paixão, eu comecei”, relembra.

Foi nesse período que surgiu a Delicanto, sua loja de doces. O nome, segundo ela, nasceu da junção da palavra “delicadeza” com a expressão “em cada canto”. “Delicadeza, porque gosto das minhas coisas bem delicadinhas, e em cada canto porque eu quero levar o meu negócio pra outros cantos”, explica.

Aos 18 anos, movida pelo sonho de ser cantora e pela vontade de crescer profissionalmente, Letícia deixou o distrito onde morava e se mudou para Conquista. Na nova cidade, o empreendedorismo deixou de ser apenas uma experiência da adolescência e se tornou necessidade. Para conseguir se manter financeiramente e conquistar mais independência, ela decidiu continuar investindo na Delicanto.

Em busca de mais oportunidades, começou a fazer cursos na área e, pouco tempo depois, decidiu vender os doces nas ruas da cidade. A escolha mudou a sua vida. “Foi uma virada de chave para mim. Começar a trabalhar dessa forma me trouxe essa liberdade. Hoje, eu consigo trabalhar com música e viajar por conta dessa renda, dessa liberdade que vender doces nas ruas me traz.”

Quando começou a vender pelas ruas de Vitória da Conquista, em 2021, Letícia fazia praticamente tudo sozinha. Produzia os doces, organizava as encomendas e enfrentava as noites da cidade em busca de clientes. Ela conta que teve medo no início, e que ainda tem. Também relata já ter enfrentado preconceito em alguns espaços. “Às vezes, eu dava boa noite e ninguém respondia, fingiam que não estavam me escutando.”

Atualmente, de segunda a quarta-feira, Letícia compra os insumos e organiza a produção dos doces e tem a ajuda de uma colaboradora. No restante da semana, enfrenta sozinha as noites frias da cidade até meia-noite; em algumas épocas, a jornada se estende até as 3h da madrugada.

Durante as vendas, Letícia encontra outras mulheres que, assim como ela, enxergam nas ruas uma oportunidade de empreender e transformar a própria história. “Eu sempre vejo alguém novo aqui e sempre alguém com um sonho diferente. Recentemente, eu encontrei uma menina que estava vendendo brigadeiros para pagar a faculdade. É muito legal ver que cada mulher que está empreendendo nas ruas está fazendo por algum motivo, seja porque realmente quer crescer dentro da confeitaria ou porque quer realizar outro sonho, assim como eu também.”

O empreendedorismo transformou a trajetória de Letícia. A menina que saiu de um distrito do interior para uma cidade de quase 400 mil habitantes em busca de oportunidades hoje se vê mais próxima dos sonhos que imaginava alcançar. Vender doces nas ruas fez com que ela fosse mais conhecida, passasse a ser chamada para cantar nos bares da cidade e aumentasse as vendas da Delicanto.

“É o melhor caminho para se começar a empreender. Eu não me arrependo, foi a melhor escolha que eu tive na minha vida. Nunca imaginava que chegaria a esse ponto. Apesar das dificuldades, eu acho o mais válido para começar”, afirma. Ela já tem novos planos: abrir uma loja física da Delicanto em Conquista e expandir o negócio para outras cidades.

O doce sabor da independência

Empreender traz desafios diários, mas contar com orientação e suporte pode tornar esse caminho mais acessível. Em Conquista, a Sala da Mulher Empreendedora atua nesse processo, oferecendo capacitação, acompanhamento e incentivo para mulheres que desejam iniciar ou fortalecer seus negócios.

Para Tatiane Lima, servidora da Sala da Mulher Empreendedora, as mais de quatro mil mulheres atendidas pelo projeto refletem o fortalecimento do empreendedorismo feminino no município e a crescente busca por autonomia financeira, qualificação e oportunidades de geração de renda. “Temos percebido mulheres cada vez mais preparadas, buscando conhecimento, inovação e formalização de seus empreendimentos”, disse. “O empreendedorismo feminino deixou de ser apenas uma alternativa e passou a representar, para muitas mulheres, um caminho de realização profissional, independência financeira e transformação social.”

Entre os segmentos mais procurados pelas empreendedoras está o de alimentação, especialmente a produção de doces. Segundo Tatiane, muitas mulheres utilizam os tradicionais conhecimentos culinários como fonte de renda e negócios sustentáveis. “Em Conquista, observamos um número significativo de mulheres transformando habilidades desenvolvidas ao longo da vida em negócios rentáveis, especialmente na produção de bolos, doces, salgados, pães artesanais e alimentos comercializados por encomenda ou em feiras e eventos.”

Histórias como a de Letícia Graia mostram como o empreendedorismo pode representar mais do que uma atividade econômica: uma possibilidade de autonomia e liberdade. Para Tatiane, quando uma mulher desenvolve seu próprio negócio, ela amplia sua capacidade de tomar decisões, fortalece sua autoestima e conquista maior independência financeira. “Essa autonomia impacta positivamente diversas áreas da sua vida, contribuindo para o fortalecimento de sua cidadania, de sua participação social e de seu protagonismo nos espaços de decisão.”

Os resultados desse processo, segundo a servidora, ultrapassam o retorno em dinheiro. “Percebemos transformações que vão muito além do aspecto financeiro. As mulheres passam a acreditar mais em seu potencial, desenvolvem novas habilidades, ampliam suas redes de contato e assumem posições de liderança em suas comunidades.”

Ela destaca ainda que muitas empreendedoras iniciam seus negócios em momentos de dificuldade e, por meio da capacitação, dedicação e apoio recebido, conseguem superar dificuldades. “Muitas tornam-se referências para outras mulheres, inspirando novas trajetórias de empreendedorismo, superação e independência”, completa.

Em um piscar de olhos, empreendedora de doces 

Enquanto Letícia vende seus doces durante a noite, Isnara Lima, de 39 anos, prefere enfrentar as ruas pela manhã. Com produção diária, às 5h, ela já está de pé. De segunda a sexta-feira, percorre aproximadamente sete quilômetros entre sua casa e o ponto de vendas, em frente à galeria Panvicon, no centro de Vitória da Conquista.

Natural de Ipiaú, Isnara conheceu o empreendedorismo ainda na infância, observando a avó montar barraca para vender na feira da cidade. Mas foi só quando se mudou para Itacaré que decidiu começar a empreender. “Eu observei que tinha muita gente vendendo na praia, então eu vi que rolava mais dinheiro do que trabalhar para os outros. Aquilo me despertou para começar a trabalhar para mim, e o meu primeiro trabalho foi assim”, explica.

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Desde então, Isnara passou por diferentes áreas do empreendedorismo. Já colocou barraca de bebidas em festas, pintou pousadas em Morro de São Paulo e vendeu pizzas e acarajé pelos bairros de Conquista. Em 2025, os doces entraram em sua vida quase em um piscar de olhos. Inspirada pelo sucesso do morango do amor, decidiu começar a vender o doce pelas ruas do centro da cidade.

“Eu olho muito as oportunidades e, quando o morango do amor bombou, eu falei: ‘então é agora’. Comecei a trabalhar com esse doce e estou desde aquela época vendendo morango do amor todos os dias aqui no centro. Sou a única ainda a sobreviver com ele”, compartilha.

Foi nas ruas que Isnara encontrou uma oportunidade de expandir sua visão de empreendedorismo. Além do morango do amor, começou a produzir bolos no pote e geladão gourmet, transformando as vendas no centro em sua principal fonte de renda.

“Nas ruas, você consegue abranger bem mais. Você conhece mais pessoas, cria uma clientela, então vai faturar bem mais. Você também faz seu próprio horário. Como empreendedora, a gente trabalha bastante, mas é muito bom”, salienta.

Isnara conta que também buscou capacitação para melhorar o negócio e participou de um curso do Sebrae, experiência que considera importante em sua trajetória. “Eu procuro sempre estar aprendendo alguma coisa, é sempre bom a gente estar aprendendo. Esse curso me ajudou a organizar e administrar meu negócio. Me ajudou na minha vida financeira e no trabalho.”

Hoje, a empreendedora consegue construir sua própria jornada de trabalho, comprar suas próprias coisas, viajar e compartilhar a rotina das vendas no TikTok. “Minha vida mudou, e eu tenho certeza de que vai mudar muito mais, porque eu busco sempre estar me aprimorando. É o meu objetivo”, afirma.

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