Dois jovens estudantes de Jornalismo negros e a dor da chacina do Rio de Janeiro

A chamada “megaoperação” escancara a crueldade e desumanização de corpos da juventude negra das favelas deste país 30 de outubro de 2025 Lázaro Oliveira e Luan Pereira*

Nem todos vão sentir indignação, revolta, e ter medo de ainda ser um algo no Brasil, mas eu e meu colega do curso de Jornalismo, dois jovens negros, estamos dilacerados. O dia 29 de outubro ficará marcado nas nossas lembranças. A chamada “megaoperação” que mobilizou 2.500 agentes civis e militares, realizada nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, escancara a crueldade e desumanização de corpos da juventude negra das favelas deste país. 

O governador Cláudio Castro (PL) que, durante seu mandato, foi responsável por 3 das 4 maiores chacinas do Rio desde 2007, é um dos políticos mais sanguinários da história do Brasil. Até o momento, a polícia civil do Rio de Janeiro registrou cerca de 121 mortos, incluindo quatro policiais. Além dos óbitos, a polícia do Rio também registrou a prisão de 113 pessoas, a apreensão de 91 fuzis, 2 pistolas e 9 nove motos, segundo dados do G1. 

O saldo é de terror para a população que vivenciou mais um dia triste, que tem sofrido com mortes geradas por “operações” policiais. Em maio de 2021, ocorreu a “operação” no Jacarezinho, que provocou 28 mortos, 27 civis e um policial e mais três cidadãos e dois policiais civis baleados. Em  maio de 2022, na favela Vila Cruzeiro, houve outra ação que resultou na morte de 24 pessoas. Em junho de 2007, no Complexo do Alemão, foram registrados 19 mortos em ação da polícia. 

Essa estratégia de combate contra o crime organizado, que vem acontecendo há anos, deixa sequelas enraizadas na população negra, periférica e pobre, que vive traumatizada e assombrada no seu cotidiano por violência policial. A imagem de uma mãe ao ver o seu filho morto como um indigente, em praça pública, causa um choque, revelando o sofrimento eterno dessas mães, que perderam seus filhos para o tráfico, em confrontos com a polícia.

E quais são os resultados dessas “operações”? Existem resultados positivos com o uso da violência? A resposta é não. Amanhã, o Comando Vermelho (CV),  ou qualquer outra facção, continuará recrutando jovens negros, periféricos, sem perspectiva de vida, que não tiveram acesso a uma educação de qualidade nem a uma verdadeira política de segurança pública. O ciclo se repete e as mortes aumentam.

As chamadas “megaoperações” policiais, como as que vêm acontecendo no Rio de Janeiro, são justificadas pelo discurso da guerra ao crime. No entanto, essa guerra tem lado: o lado de quem morre é quase sempre o mesmo. São corpos negros, pobres, abandonados pelo Estado e lembrados apenas na hora da repressão.

O problema não está apenas nas favelas, mas na lógica que naturaliza a violência como solução. Quando o Estado investe mais em munição do que em escola, ele escolhe quem deve viver e quem pode morrer. A cada “operação”, a mensagem que ecoa é a de que a vida nas periferias vale menos.

Não há vitória em uma guerra contra o próprio povo negro e periférico. A verdadeira segurança pública começa com oportunidades, não com fuzis. E enquanto o poder público insistir em tratar desigualdade social com bala, continuará produzindo o que diz combater: o medo, a exclusão e o crime.

Essa “operação” e seu resultado também tem um porquê político. Em 2026, será ano de eleição, e o atual governador vai se candidatar a uma vaga ao senado federal. Sua estratégia, como político de extrema-direita, é fazer a encenação da guerra contra o crime, matando a população negra, pobre e periférica. Como ele não teve políticas públicas para combater o tráfico de drogas nem um projeto diferenciado, tendo sido um fracasso a sua gestão, escolheu essa bandeira da morte. Além disso, não cumpriu a promessa da campanha anterior de prender os chefões do crime, como o Tandera, Peixão, Abelha e Doca.

O resultado que fica da gestão Claudio Castro é de 363 pessoas vítimas de balas perdidas desde maio de 2021. No mesmo período, 63 polícias perderam suas vidas em “operações”. A troco de alimentar o ego e ampliar a violência nas comunidades, mas apesar do cenário, existem formas mais eficientes para o combate ao crime organizado.

Uma das soluções de combate ao crime organizado ligado ao tráfico de drogas é a realização de investigação conjunta entre Polícia Federal (PF) e a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), atuando nas fronteiras e aeroportos. Isso envolveria também da prisão e condenação dos chefões, que ficam sem suas residências de luxuoso sem nada acontecer com eles.   

Como dois jovens negros que escolheram o jornalismo como futura profissão, ver essas “operações” sendo celebradas como vitórias do Estado nos faz sentir o peso de uma história que insiste em nos colocar sempre no alvo.

Mesmo escrevendo de Vitória da Conquista, longe dos morros do Rio, nos sentimos perto o suficiente para entender o que significa viver sob o olhar da desconfiança, com a polícia que deveria proteger virando símbolo do medo. A violência que mata no Alemão é a mesma que silencia nas periferias daqui, muda o CEP, mas não a cor dos corpos.

Por isso, insistimos: o jornalismo precisa contar essas histórias a partir de quem vive nelas, e não de quem as governa. Nosso papel é romper o silêncio, denunciar o descaso e afirmar o direito à vida de quem, tantas vezes, só é lembrado quando morre.

Enquanto o Estado continuar a tratar a juventude negra como inimiga, nós, do jornalismo, continuaremos a escrever para que o país um dia aprenda a se ver, e se reconhecer, em todos os seus filhos.

*Lázaro Oliveira e Luan Pereira são bolsistas do Programa de Extensão Jornalismo como forma de Transformação Social no Combate à Desinformação.

Foto de capa: Tomaz Silva/Agência Brasil

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