Educar para o cuidado: PET-Saúde transforma a formação e atuação de profissionais do SUS
Em Vitória da Conquista, o Programa de Educação Tutorial é uma parceria da Uesb, Ufba e a Prefeitura 8 de outubro de 2025 Rian Borges*As agentes comunitárias, Cristiana dos Santos Dias, 49, Adriana de Jesus Santana, 49, e a auxiliar do Caps Ad 3, Adriana Santana da Silva, 48, além de serem profissionais que atuam no SUS (Sistema Único de Saúde), no município de Vitória da Conquista, vivenciaram uma experiência transformadora para entender a diversidade humana. Elas participaram de uma das oficinas do Programa de Educação pelo Trabalho Vozes à Equidade (PET-Saúde), uma parceria entre a Uesb, Ufba e a Prefeitura de Conquista. As atividades abordam temáticas como Letramento Racial, Letramento LGBTQIA+, Maternagem e Diversidade, Saúde Mental e Violências que atravessam o trabalho na Saúde.
“Desde o primeiro encontro, as experiências foram maravilhosas, e eu quero levá-las até o final da vida”, enfatizou Adriana de Jesus. “Essas oficinas são bem realistas, tanto no lado profissional como na minha vida pessoal. Eu me vejo vivendo alguns desses temas todos os dias. A gente tinha algumas dúvidas, e que aqui (nas oficinas) foram esclarecidas de uma forma bem simples”, disse.
Esse impacto também é compartilhado por Cristiana, que destacou que, a partir da vivência gerada pelo PET, a vida particular e profissional não serão mais as mesmas. “A oficina me ajudou a conhecer mais coisas sobre mim, a me policiar sobre algumas atitudes que muitas vezes a gente tem como profissional e a pensar em como melhorar o atendimento para os pacientes”, explicou.
Já Adriana Santana confessou o quanto a participação nas oficinas foi surpreendente: “Eu tinha uma visão (de mundo) e com a ajuda do PET eu abri a mente. Na de LGBTQIA+, eu tinha um pensamento e saí da oficina com outro, mais evoluído. Transformou tudo o que eu pensava antes”, refletiu.
As oficinas desenvolvidas pelo PET-Saúde Equidade iniciaram dia 16 de junho. Desde então, elas têm acontecido de segunda à sexta-feira, com início às 14h, e o espaço das atividades tem sido intercalado entre o Polo de Educação do Centro Municipal de Atendimento Especializado (Cemae) e as salas da Universidade Federal da Bahia (Ufba). A programação foi dividida em três ciclos para atender tanto o público da zona urbana quanto o da zona rural. Ao todo, passarão pelas oficinas 450 profissionais da saúde pública de Vitória da Conquista.
Os ciclos foram separados em cinco turmas que se encontram a cada 15 dias, com exceção dos grupos da zona rural que se encontram mensalmente. O primeiro ciclo, iniciado no dia 16 de junho e que se encerrou em 14 de julho, capacitou os profissionais da zona urbana. O mesmo acontecerá no segundo ciclo, com trabalhadores da zona rural, que começou no dia 7 de julho e está previsto para se encerrar em novembro. Já o último ciclo, que retoma com profissionais urbanos, iniciará no dia 25 de agosto e finalizará as atividades no final de outubro.
Oficinas de Letramento Racial e da População Lgbt+; Maternagem; Saúde Mental; e Violências no Trabalho foram ofertadas pelo Pet-Saúde em 2025. Fotos: Arquivo Pet-Saúde Equidade.
A oferta dessas oficinas pelo PET-Saúde Equidade em Conquista teve ainda a primeira experiência no 17º Encontro Baiano do Programa de Educação Tutorial (Ebapet), realizado entre os dias 23 e 25 de maio, na Universidade Estadual do Sudoreste da Bahia (Uesb). Na ocasião, esteve presente o médico Willian Fernandes Luna, coordenador de Reorientação da Formação em Saúde da Secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde, órgão do Ministro da Saúde (MS).
Durante sua passagem por Consquista, o representante do MS se reuniu com integrantes do PET-Saúde para discutirem os impactos e futuras transformações que a pasta promoverá no programa com o lançamento de editais direcionados ao Sistema Único de Saúde (SUS).
PET-Saúde Equidade em Conquista
O Programa de Educação pelo Trabalho (PET) é uma ação dos Ministérios da Educação e da Saúde e atinge todas as regiões do Brasil. Essa iniciativa está em vigor desde 2008 e permite integrar o ensino das universidades públicas com o serviço e a comunidade local.
O PET-Saúde funciona em ciclos de dois anos e trabalha com uma temática específica e singular em todos os projetos no país. Esta, que é a 11º edição, estreou em 2024 e irá até 2026, e tem como objetivo promover a equidade voltada a valorização dos profissionais do Sistema Único de Saúde (SUS).
Em Vitória da Conquista, o Pet-Saúde é desenvolvido por meio da parceria entre a Ufba, Uesb e a Secretaria Municipal de Saúde (SMS). Em 2023, o programa participou do Edital SGTES Nº 11, promovido pelo Ministério da Saúde, sendo um dos 150 projetos selecionados em todo o país e figurando entre os 10 contemplados na Bahia.
No total, são 71 pessoas envolvidas no programa, que se dividem em 1 coordenador geral, 5 coordenadores específicos, 5 tutores, 10 preceptores e 50 bolsistas das duas instituições de ensino. Esta foi a primeira edição em que o programa incorporou estudantes de áreas que não estejam ligadas diretamente à saúde.
Na sua organização, o Pet-Saúde Equidade funciona separado em 3 eixos, que compõem um total de 5 Grupos de Trabalho (GT). O primeiro eixo trabalha com “Gênero, Identidade de Gênero, Sexualidade, Raça, Etnia, Deficiências e as Interseccionalidades no Trabalho na Saúde” e possui dois grupos. O GT-1, “Saúde e as lutas da população Negra” é coordenado pela professora de Nutrição da Ufba, Viviane Honorato, e o GT-2, “Saúde e as Lutas da População LGBTQUIAPN+”, pela professora de Enfermagem da Ufba Clavdia Kochergin.
O eixo dois aborda a “Saúde mental e as violências relacionadas ao trabalho na saúde” e também é formado por dois grupos. O GT-3, “Saúde Mental e as Trabalhadores do Sus”, é coordenado pela professora do curso de Medicina da Uesb, Agnes Claudine, e o GT-4, “Saúde, Questões de Gênero e Violências que Atravessam o Trabalho na Saúde”, é coordenado por Leila Meira, que também é docente do curso de Medicina da instituição.
O terceiro eixo trabalha o “Acolhimento e Valorização às Diversidades no processo de Maternagem” e possui apenas o GT-5, que discute “As Trabalhadoras e Futuras Trabalhadoras da Saúde no Processo de Maternagem, Acolhimento e Valorização de Mulheres, Homens Trans e Outras Pessoas que Gestam”. O grupo é dirigido pela professora de Medicina da Uesb e coordenadora-geral do Pet-Saúde, Monalisa Barros.
Discussões e os impactos das oficinas na vida do profissional de saúde
Até o final de novembro, as atividades articuladas pelo Pet-Saúde Equidade vão atingir 450 trabalhadores da área de Saúde em Conquista. Cada profissional deve passar por cinco oficinas que abordam temas como letramento racial, dificuldades da população LGBTQIA+ na saúde, maternagem e diversidade de gênero, saúde mental dos profissionais e as violências que cruzam o trabalho.
Segundo a coordenadora do Pet-Saúde, Monalisa Barros, “mais do que apenas transmitir conteúdos, essa formação se propõe a ser vivencial e reflexiva, promovendo dinâmicas que partem das experiências pessoais dos participantes. Isso favorece um mergulho profundo em suas próprias histórias e sensibilidades, ampliando a escuta e a capacidade empática”.
Monalisa Barros acredita que o primeiro passo para que as atividades efetivamente ajudem os profissionais é o reconhecimento individual dessas questões no seu cotidiano. “Isso impacta diretamente a forma como se constrói o cuidado em saúde, mais humano, mais atento às singularidades e às desigualdades, mais comprometido com a transformação social”, afirmou.
Por outro lado, para a coordenadora do GT-2, Clavdia Kochergin, a desconstrução de alguns comportamentos pode ser percebida ao longo do tempo, mas considera o retorno dos participantes positivo. “A discussão sobre o tema abordado, ela em si mesma já se apresenta como desafio a ser enfrentado, trazer as questões de um cotidiano marcado por atitudes discriminatórias, que até o momento foram socialmente aceitáveis e reproduzidas tem se mostrado bastante potente para sensibilizar os profissionais para desconstruir convicções equivocadas e buscar novas percepções”, afirmou.
A coordenadora ainda analisa que, no campo de discussão do GT-2, que trabalha a saúde da população LGBTQIA+, os profissionais do Sus devem ser alertados sobre os impactos que a discriminação causa na vida dessa população. “Depressão, suicídio e vulnerabilidade ao HIV são mais comuns nessa população. E mesmo depois da morte, pessoas trans, por exemplo, ainda sofrem violência, como ter seus nomes e identidades desrespeitados em certidões e velórios”, concluiu.
A maternidade também é um tópico intrinsecamente ligado à saúde, mas que, segundo a coordenadora do GT-5, Monalisa Barros, não costuma-se pensar nessa condição como um desafio para o exercício profissional. “Somos instadas a trabalhar como se não fossem mães e maternar como se não trabalhássemos. Para fechar essa equação custa a nossa saúde física e mental”, disse.
Segundo Monalisa Barros, é preciso entender que existem diferentes tipos de maternagem e que os profissionais também precisam reconhecê-las. “Tem a mãe atípica, a mãe que viveu um luto, a mãe que adotou, a mãe que teve infertilidade, e a mãe que lida com a criança que tem deficiência. Ou seja, tem vários tipos de maternidade que atravessam a vivência do trabalho e que vão exigir uma série de adaptações e que as pessoas não consideram isso no seu desempenho de trabalho”, afirmou.
Bolsistas também se beneficiam da articulação com os profissionais
Nesse biênio (24-26), o Programa de Educação pelo Trabalho Vozes à Equidade conta com 50 bolsistas de graduação de diferentes áreas do conhecimento, que não envolvam apenas a saúde. Esse movimento acontece pela primeira vez em 11 edições. Neste ciclo, também participam graduandos de Jornalismo, Direito, Ciências Sociais, Sociologia, Pedagogia e Filosofia.
Para a estudante de Psicologia da Ufba, Muriel Adorni, de 22 anos, integrante do GT-2, esse contato com as oficinas têm enriquecido a sua trajetória como futura profissional. “À medida que as trocas e questionamentos acontecem, percebo o quanto esses espaços de diálogo são fundamentais para ampliar olhares e desconstruir preconceitos, inclusive no próprio ambiente de trabalho. É uma honra enorme fazer parte desse processo e contribuir para a sensibilização dos profissionais”, relatou.
Mesmo não estando ligada à saúde, Luana Souza, de 23 anos, graduanda de Ciências Sociais da Uesb e integrante do GT-5, destaca que ministrar as oficinas têm aberto novos caminhos de conhecimento. “Por meio do projeto estamos nos formando e formando os trabalhadores da cidade, em suas diferentes áreas de atuação, e colocar em prática e retornar a sociedade a formação que eu e minhas colegas tivemos durante as outras etapas do projeto, e em nossas respectivas graduações, é parte do objetivo do projeto”.
Luana Souza, que teve contato direto com a oficina de maternagem no GT-5, afirma que tem sido um desafio recontextualizar problemas sociais pertinentes uma vez que cada profissional possui uma vivência e formação particular. “Trazemos nomes aos problemas e encaminhamentos possíveis para tais, seja repensar nossas atitudes ou encaminhamento de pautas para espaços designados para eles, além de termos o cuidado devido para tratarmos de discutir nossas temáticas”, relatou.
Para Evailson Porto, 29 anos, estudante de Medicina da Ufba e membro do GT-4, as atividades com os profissionais do Sus representam o esforço que o Pet-Saúde fez para preparar os bolsistas, tanto na parte teórica quanto com as vivências na rede de saúde de Vitória da Conquista. “Esse processo foi fundamental para que pudéssemos elaborar, com muito cuidado e atenção, cada detalhe das atividades. Nossa intenção sempre foi oferecer aos profissionais não apenas conhecimento técnico, mas também um espaço verdadeiramente acolhedor, onde a escuta e a troca de experiências tivessem lugar central”, disse.
As oficinas, segundo Evailson, foram desenvolvidas para criar situações de aprendizado mútuo entre os bolsistas e os profissionais da saúde. “Ter a oportunidade de dialogar com profissionais que carregam décadas de experiência, alguns com mais de 20 anos de atuação, é extremamente enriquecedor. Essas trocas não apenas fortalecem o conteúdo que oferecemos, mas também ampliam minha própria visão sobre a realidade do trabalho em saúde”, concluiu.
Muriel, Luana e Evailson, nesta ordem, ministrando oficinas do Pet-Saúde. Fotos: Arquivo Pet-Saúde Equidade.
O primeiro de três ciclos de oficinas do Pet-Saúde com os profissionais do Sistema Único de Saúde da zona urbana de Vitória da Conquista aconteceu em agosto. O encerramento geral das oficinas realizadas pela Pet-Saúde Equidade está previsto para acontecer no dia 14 de novembro.
Imagem: Arquivo Pet-Saúde Equidade
*Rian Borges é bolsista do Programa de Extensão Jornalismo como forma de Transformação Social no combate à Desinformação.