Enquanto pais ajudam, mães sustentam a rotina: a desigualdade que sobrecarrega as mulheres

Na sociedade em que o cuidado ainda é tratado como obrigação feminina, mulheres acumulam tarefas invisíveis, exaustão emocional e a responsabilidade quase solitária pela criação dos filhos 3 de junho de 2026 Natan Rangel*

“Ele é um pai tão bom, até ajuda com as crianças.” A frase, frequentemente dita como elogio, revela como o cuidado com os filhos ainda é tratado como obrigação feminina, com participação opcional dos homens. Nesse modelo, o pai ocupa o lugar de “ajudante”, enquanto a mãe assume sozinha a responsabilidade pela criação, organização da rotina e cuidado diário da família. Assim, perpetua-se um ciclo marcado por um machismo enraizado, que sobrecarrega as mulheres e naturaliza a divisão desigual das tarefas domésticas e emocionais. 

Os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua 2022, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), demonstram o cotidiano vivenciado pelas mulheres brasileiras. Enquanto 92,1% das mulheres com 14 anos ou mais realizavam afazeres domésticos e/ou cuidados de pessoas em 2022, apenas 80,8% dos homens participavam dessas atividades. No Nordeste, os homens apresentaram a menor taxa de realização do país: 73,9%. Em média, as mulheres dedicaram 21,3 horas semanais a essas tarefas, enquanto os homens destinaram 11,7 horas, uma diferença de 9,6 horas por semana.

Foi nessa realidade que a estudante de Biomedicina Ellen Andrade Rocha cresceu. Ela conta que não faltava afeto, mas que não havia divisão igual das tarefas domésticas. Seu pai era um homem focado no trabalho fora de casa, o “provedor”. “Ele passava o dia fora e minha mãe sempre ficava mais carregada com a educação dos filhos, com a tarefa de buscar na escola e outras responsabilidades sobre mim e meu irmão”, recorda. “Ela era chefe de cozinha, tinha uma carreira, mas o papel de mãe e dona de casa tomou conta disso”, complementa.

Essa histórisa não é exclusividade da família de Ellen. Ela é o retrato de uma geração de mulheres que foram ensinadas que o sucesso do lar dependia do seu sacrifício pessoal. A psicóloga de família, Priscila Barbosa Lins, explica que isso acontece porque a sociedade criou um mito de que a mulher já nasce sabendo ser mãe, enquanto o homem “precisa de tempo” para aprender a ser pai. “Na minha profissão, vejo o tempo todo mulheres exaustas, tentando dar conta de tudo sozinha, enquanto o companheiro ocupa o lugar de “visitante” na própria casa.”

“Ele passava o dia fora e minha mãe sempre ficava mais carregada com a educação dos filhos”, recorda a estudante de Biomedicina, Ellen Andrade. Foto: Arquivo Pessoal

Essa desigualdade também se manifesta em decisões cotidianas, como o uso de anticoncepcionais. Segundo Priscila, existe uma lógica social que preserva o conforto masculino e transfere para as mulheres a maior parte da responsabilidade pela prevenção da gravidez. Muitas acabam enfrentando sozinhas os efeitos colaterais dos medicamentos, enquanto os homens raramente são questionados sobre seu papel nesse cuidado. 

Quando os filhos e filhas nascem, a sobrecarga do trabalho com o cuidado gera impactos profundos no corpo e na mente da mulher. A gravidez acontece no corpo da genitora, mas a responsabilidade depois que o bebê nasce deveria ser dividida por igualmente entre o casal. “A conta precisa ser melhor dividida. A mulher tem prejuízos financeiros no trabalho, na saúde e na liberdade”, relata Priscila. “Quando possuem condições financeiras, muitas mães recorrem à terapia como forma de lidar com a pressão social de precisar ‘dar conta de tudo’.” 

A psicóloga ainda ressalta ainda que, de observar pequenas mudanças nos últimos anos, a responsabilidade pelo cuidado da casa e das pessoas continua recaindo sobre as mulheres, o que perpetua as desigualdades de gênero no cotidiano.

Feridas emocionais 

Daniel Lopes de Oliveira, estudante de Geografia da Uesb, tem uma história ainda mais dolorosa com a paternidade. Ele sentiu na pele que o pai, além de não dividir as tarefas do dia a dia, ainda impunha uma cobrança severa sobre como um filho homem deveria se comportar. “Minha infância foi conturbada porque eu já nasci uma criança afeminada. Sofri homofobia pelo meu próprio pai dentro de casa”, desabafa. Enquanto sua mãe trabalhava como diarista e cuidava de toda a limpeza e comida, o pai se afastava emocionalmente por não aceitar o filho como ele era. Daniel teve que amadurecer antes do tempo para entender que o problema não estava nele, mas na forma limitada como o pai via o mundo.

Para a psicóloga Keren Albuquerque, que atende crianças em clínicas e no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) da Prefeitura de Vitória da Conquista, os pequenos são como “esponjas”. “Eles aprendem o que é ser homem e o que é ser mulher observando os pais. Se o pai nunca lava um prato ou nunca leva o filho ao médico, o menino cresce achando que essas tarefas não são para ele,” disse. Ela relembra um atendimento que demonstra o quanto as famílias ainda são conservadoras. “Um menino pegou uma boneca para brincar e os pais, assustados, tiraram o brinquedo da mão dele. Porém, brincar de boneca faz com que os meninos se tornem pais melhores, porque eles aprendem a cuidar”, explicou.

Quando o pai é ausente ou só aparece para momentos de lazer, como brincar ou até mesmo dar presentes, a criança pode desenvolver o chamado abandono afetivo. Isso gera um sentimento de que ela não é importante o suficiente para ser cuidada pelo pai. Na escola, isso fica evidente em datas comemorativas, quando a criança percebe que o pai não é presente como o de outros colegas. Esse vazio emocional pode durar até a vida adulta, gerando pessoas que têm dificuldades em confiar nos outros ou que acham que sempre serão abandonadas.

Keren também observa que, em sua maioria, quem procura ajuda para as crianças são as mães que cuidam sozinhas, mesmo quando o pai mora na mesma cidade ou até na mesma casa. Elas são cahamadas de “mães solo”. O pai, muitas vezes, aparece apenas com o dinheiro, como se pagar as contas fosse o suficiente para ser pai. Mas, como diz Keren, a criança precisa de presença, de olhar e de afeto, coisas que o dinheiro não compra.

Carga mental

Para compreender as desigualdades presentes na maternidade e na paternidade, é preciso entender o conceito de “carga mental”. Não se trata apenas de quem cozinha, limpa a casa ou leva a criança à escola, mas de quem organiza silenciosamente toda a rotina da família. É lembrar da consulta médica, perceber que o feijão acabou, acompanhar as tarefas escolares e antecipar necessidades antes mesmo que elas sejam verbalizadas. 

Essa carga mental materna também aparece em números. A pesquisa “De Mãe em Mãe”, conduzida pela pesquisadora da USP Giliane Belarmino, com mais de 800 mulheres em todo o país, revelou que 97% das mães se sentem sobrecarregadas quase todos os dias e 94% relatam viver em constante esgotamento. O estudo mostra ainda que 75% das entrevistadas afirmam ter comportamentos explosivos seguidos de culpa, reflexo da pressão acumulada no cotidiano do cuidado. 

Para Carla Straub, integrante da diretoria ampliada do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes) e professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), a saúde mental materna não pode ser tratada apenas como uma questão individual. “Ela é resultado de condições estruturais de suporte, da ausência de políticas públicas e das dinâmicas familiares que concentram o cuidado nas mulheres”, afirma. 

Ellen percebeu isso ao observar a própria mãe. Mesmo quando o pai participava de reuniões escolares, era ela quem administrava o cotidiano da casa. Segundo a psicóloga Priscila Barbosa, essa responsabilidade invisível é uma das principais causas do esgotamento feminino, já que muitas mulheres se tornam uma espécie de “calendário vivo” da família.

Muitas vezes, os homens afirmam que “ajudariam se fossem pedidos”, mas o ato de lembrar, delegar e conferir se a tarefa foi feita também exige energia e trabalho emocional. Daniel percebeu o fardo da mãe ao vê-la trabalhando como diarista fora de casa e acumulando, sozinha, a gestão do lar. A partir dessa experiência, decidiu romper com esse padrão. Hoje, participa das tarefas domésticas e entende que cuidar do espaço onde se vive não deve ser uma obrigação feminina, mas uma responsabilidade compartilhada.

Essa mudança de mentalidade é vista por Ellen como essencial para as próximas gerações. Ela afirma que, se tiver filhos, deseja construir uma relação baseada na parceria e na divisão justa das responsabilidades. Ao olhar para a trajetória da mãe, percebe o quanto ela poderia ter crescido profissionalmente se não estivesse tão sobrecarregada pelas demandas da casa e do cuidado.

Os relatos reunidos nesta reportagem mostram que o machismo na paternidade afeta toda a estrutura familiar. Afeta as mulheres, que adoecem diante da sobrecarga; afeta os homens, que perdem a oportunidade de desenvolver vínculos afetivos mais profundos com os filhos; e afeta as crianças, que crescem sem um exemplo sobre a responsabilidade de um cuidado compartilhado.

Para a psicóloga Keren Albuquerque, a transformação começa quando os pais deixam de ocupar o lugar de quem apenas “ajuda” e assumem o papel de quem realmente compartilha as responsabilidades. “Ser pai é estar presente no choro da madrugada, na consulta médica, na lição de casa e na rotina diária”, explica. Para ela, o cuidado não pode ser tratado como favor, mas como compromisso.

Ellen e Daniel acreditam que as novas gerações já demonstram mais consciência sobre essas desigualdades. Eles rejeitam a imagem do “pai de comercial de TV”, que aparece apenas nos momentos felizes ou simbólicos, e defendem uma presença verdadeira no cotidiano. Priscila reforça que o afeto é importante, mas que respeito, parceria e divisão equilibrada das tarefas são fundamentais para relações familiares mais saudáveis.

A realidade ainda é marcada por estruturas machistas que colocam sobre as mulheres a maior parte do trabalho do cuidado. Mas, cada vez que um homem entende que cuidar dos filhos e da casa não é ajuda, mas responsabilidade, uma nova história começa a ser construída. Uma história em que mães não precisem carregar tudo sozinhas, pais possam exercer uma paternidade mais humana e crianças cresçam entendendo que o afeto não é condicionado.

*Essa reportagem faz parte da série Narrativas Afetuosas, produzida na disciplina Jornalismo na Internet II, durante o período especial, por alunos do 8º semestre do curso de Jornalismo da Uesb.

Foto de capa: Imagem gerada por IA

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