Entre a espera e o recomeço: os impactos da ausência paterna
A Bahia é o segundo estado com maior número de pais ausentes no Brasil, segundo dados do Portal da Transparência do Registro Civil 27 de maio de 2026 Pedro Novaes*A ausência paterna nem sempre tem contornos visíveis. Ela pode existir disfarçada de presença, de promessas não cumpridas ou de uma espera que se prolonga dias e noites adentro. Assim como pode ser bem evidente quando essa figura está presente fisicamente, mas distante no afeto, ou quando são proferidas por quem deveria te amar incondicionalmente palavras que machucam.
Quem conhece muito bem essa dor é Kenai*. Quando o ponteiro do relógio marcou 19h, ele, aos sete anos de idade, já estava arrumado, sentado no sofá de sua casa, em uma espera ansiosa. Seu pai havia marcado de buscá-lo nesse horário para levá-lo ao Parque de Exposições, em Vitória da Conquista, onde acontecia um grande e tradicional evento. A espera se estendeu até as duas horas da manhã, quando o sono venceu e a mãe do menino, com muita ternura, decretou o fim daquele sofrimento de aguardar quem não chegaria mais. Essa foi apenas uma das muitas vezes em que ele esperou e acreditou na palavra do pai.

Aos 23 anos, Kenai é barbeiro e sonha em ser para os futuros filhos o pai que não teve. Foto: Arquivo Pessoal
Vitória Maria Matos também aprendeu cedo a arte de esperar. Quando criança, observava da calçada de casa os caminhões que cortavam a BR-324, em Vila Aparecida, povoado do município de Riachão do Jacuípe. A menina já não esperava mais pelo pai, que era caminhoneiro, mas almejava a chegada de um raio de consciência que lhe esclarecesse como podia doer uma ausência da qual sequer conhecia a presença. Ela se sentia abandonada e desprotegida, mesmo rodeada pelo amor da mãe, da avó e outros familiares que dividiam com ela o teto da casa de porta central, duas janelas laterais e chão de cimento queimado vermelho às margens da estrada.

Vitória Maria Matos se tornou escritora e lançou um livro a partir da sua experiência de crescer sem um pai presente. Foto: Nti Uirá
A paternidade ausente não é restrita às vidas de Kenai e Vitória, é uma realidade que atravessa as histórias de milhares de brasileiros. Segundo a Associação dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen), nos últimos 10 anos, mais de 1,7 milhão de crianças foram registradas sem o nome do pai no Brasil. No ranking de estados, a Bahia está em segundo lugar com mais pais ausentes, cerca de 70 mil certidões emitidas apenas com o nome da mãe, perdendo apenas para São Paulo, com mais de 146 mil, de acordo com o Portal da Transparência do Registro Civil.
Conforme a Arpen, nos últimos cinco anos, de 2020 a 2025, o número de nascimentos ocorridos na Bahia foi de 863.372. Do total, 58.424 crianças foram registradas sem o nome do pai. Em Vitória da Conquista, de janeiro de 2016 a maio deste ano, estão registrados 57.224 nascimentos e 2.934 pais ausentes. Mais do que a falta de um nome em um documento, esses números revelam um cenário onde a essa ausência causa impactos emocionais e na construção da identidade.
Marcas que permanecem
Kenai nunca esqueceu o vazio sentido na infância. Hoje, aos 23 anos, ele ainda se recorda perfeitamente dos minutos e das horas daquela noite que se seguiu no sofá de sua casa. A ausência, que começou com um atraso, virou rotina, seguida de um afastamento cada vez mais constante e de uma série de acontecimentos que desmontaram a figura de um pai herói ainda em seus primeiros anos de vida. “Ele tinha atitudes muito desagradáveis. Mentiu, traiu minha mãe e não comparecia. Ele nunca foi a uma apresentação de dia dos pais na escola. Era sempre a minha mãe. Foi assim que comecei a perceber que tinha algo de errado”, relata.
Vitória, por sua vez, achava estranho não ver o pai em casa e se questionava acerca dos contatos esporádicos com o genitor, que vivia no mesmo povoado. Com um núcleo familiar formado majoritariamente por mulheres, sua família não se encaixava no que a sociedade considera uma “família tradicional”, o que atraia julgamentos. “Especialmente no dia dos pais, eu era lembrada de que a minha família era “disfuncional” por não ter a presença masculina, já que minhas amigas tinham esse núcleo formado. Por muito tempo, eu fui vista pelas pessoas como uma menina muito solta e ‘à toa’, apesar de ser muito querida pela comunidade”, conta.

“O abandono gera sentimentos de baixa autoestima e insegurança”, explica a psicóloga Lia Rocha. Foto: Arquivo Pessoal
É na infância, entre o que foi prometido e o que nunca chegou, que se instalam marcas persistentes ao longo da vida. É no movimento de esperar e perceber o que falta que crescemos tentando lidar com sentimentos de rejeição e desproteção. “O abandono afeta o desenvolvimento de um indivíduo, gerando sentimentos de baixa autoestima e insegurança, fazendo a criança questionar porque não foi amada o suficiente pelo pai ou pela mãe. E isso só é descoberto e elaborado durante a terapia, em que se busca mostrar que a culpa do abandono nunca é da criança, e sim de decisões ou deficiências do próprio pai”, explica a psicóloga Lia Rocha.
No âmbito jurídico, o abandono também é considerado uma forma de violência, causando danos emocionais. “Hoje, a Justiça já entende que a afetividade é tão essencial que o vínculo afetivo é, muitas vezes, considerado mais importante do que o próprio vínculo biológico”, afirma a advogada e pesquisadora em Direito da Família, Dra. Laísa Soares.
Direitos das crianças
A Constituição Federal e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) entendem que a proteção da criança e do adolescente é responsabilidade conjunta da família, da sociedade e do Estado. Então, o abandono paterno se configura como violação em duas instâncias: material e afetiva. “O abandono material diz respeito à falta de compromisso com as questões básicas para a sobrevivência da criança e do adolescente, como moradia, alimentação e educação. Já o abandono afetivo atinge diretamente a saúde psicológica, gerando danos emocionais profundos causados pela ausência na vida desse filho”, esclarece a advogada Laísa.
Em ambos os casos, é possível ingressar com ações judiciais que serão julgadas e tramitadas na Vara da Família de cada tribunal, podendo resultar em indenizações ou na determinação de pagamento de pensão alimentícia. Além da pensão, a advogada recomenda estabelecer judicialmente as “regras de convivência” do pai com a criança, com aplicação de multas caso haja descumprimento do acordo.

De acordo com a advogada Laísa Soares, a ausência de suporte do pai pode configurar abandono material ou afetivo. Foto: Arquivo Pessoal
No caso de Kenai e Vitória, não houve ações judiciais e somente agora, na vida adulta, eles puderam ressignificar essas ausências. Ambos aprenderam a viver com o vazio sem ele determinar os rumos de suas vidas. É assim que, tanto eu, Pedro Noaves, como eles, entendemos que romper ciclos é mais importante do que qualquer outra coisa. Elaborar os sentimentos resultantes de tamanho trauma significa encontrar a rota do recomeço e seguir para novos rumos. Depois disso, esperar não é mais sinônimo de dor, e observar a estrada é um ato de força, resistência e esperança.
Kenai se tornou barbeiro e trabalha recuperando a autoestima das pessoas que frequentam sua barbearia em Vitória da Conquista, inclusive a de quem vos escreve. Numa grande obra do acaso, ou talvez não, em seu trabalho ele faz, sobretudo, um papel de amigo e companheiro, oferecendo sempre uma palavra de afeto e motivação, que, somadas à mudança que ele promove nos visuais, fazem com que nós, seus clientes, deixemos seu estabelecimento mais autoconfiantes. Hoje, ele sonha em ser pai, construir uma família com a sua companheira e ser para os filhos, o pai que não teve.
Já Vitória Maria Matos se descobriu poetisa, escritora e artista, além de arquiteta por formação. Utilizando o nome artístico de “A preciosa Fúria”, escreve furiosamente os desígnios da vida e coloca em palavras as inquietudes que desde menina estiveram nela. Um dia, correndo pelo Corredor da Vitória, em Salvador, capital da Bahia, pensou no pai e, pela primeira vez, não chorou. Era fim da tarde, o sol raiava em seus últimos instantes, e a hora dourada anunciava o fim de toda aquela dor. Foi assim que ela escreveu “No dia que matei meu pai fazia sol”, seu primeiro livro, que matou o genitor para que ela pudesse viver e enaltecer o amor da mãe e da família.
*Kenai é um nome fictício criado para representar a fonte entrevistada, que prefiriu preservar a sua identidade.
**Essa reportagem faz parte da série Narrativas Afetuosas, produzida na disciplina Jornalismo na Internet II, durante o período especial, por alunos do 8º semestre do curso de Jornalismo da Uesb.
Foto de capa: Imagem gerada por IA (ChatGPT e Gemini)