Entre memórias e natureza, Poço Escuro enfrenta desafios de preservação
Na encosta da Serra do Periperi, a área de 17 hectares interliga quatro biomas característicos da região: cerrado, mata atlântica, mata de cipó e caatinga 25 de setembro de 2026 < Ana Carolina Souza, Bianca Cruz, Ebenezer Cascaes, Edicley Mota, Ellen Mafra, Iago Santos, Iury Medrado e Mariana MartinsEm meio ao crescimento urbano de Vitória da Conquista, a Reserva Florestal do Poço Escuro, reconhecida como área de preservação pelo decreto municipal 8.696/1996, permanece um lugar onde natureza e memória se entrelaçam. Localizado entre os bairros Guarani e Petrópolis, na encosta da Serra do Periperi, o local possui uma área de 17 hectares que interliga quatro biomas característicos da região: cerrado, mata atlântica, mata de cipó e caatinga.
A reserva abriga as principais nascentes do Rio Verruga, fonte de abastecimento no período em que não havia acesso à água encanada. Antes das trilhas sinalizadas por cores, eram as roupas estendidas sobre as pedras que coloriam as margens do rio. João Batista, de 71 anos, lembra das mulheres reunidas para lavar roupas e das filas de moradores em busca de água. “Chegava lá e estava aquele tanto de gente”, disse.
A mesma lembrança aparece no relato de Iranildes Tereza Amorim, de 74 anos. Quando criança, ela carregava latas d’água na cabeça entre a nascente e a Rua da Barragem. A moradora da região se recorda dos banhos e das conversas compartilhadas enquanto as mulheres lavavam roupas sobre os lajedos. “Era lindo. As mulheres tudo lavando roupa. Nós lavando roupa lá e tomando nosso banhozinho [sic]”, relembrou.
André Guerra, de 47 anos, também guarda na memória um Poço Escuro vivo e cheio de histórias. Em meio à vegetação, ele conta que brincava, corria entre as árvores e observava a movimentação das mulheres que lavavam roupas na nascente. Para as moradoras Iraildes Braga, de 76 anos, e Marisa Dias, de 60, o espaço era uma extensão de casa. Era lá que buscavam água para o consumo doméstico e encontravam outras pessoas da comunidade.
Atualmente, a água do Poço Escuro não é mais recomendada para banho ou consumo, afetada pelo despejo direto de esgoto doméstico no Rio Verruga. Mas, ainda hoje, o ambiente é frequentado por moradores para lazer. Esse é o caso de Kennedy Saidi, de 18 anos. Há apenas três anos em Conquista, sua relação com o espaço não está ligada às tarefas do cotidiano. “É um lugar bom para ter contato com a natureza. Às vezes as pessoas não dão valor.”

João Batista, de 71 anos, guarda na memória as mulheres reunidas para lavar roupas no Poço Escuro. Foto: Bianca Cruz
Histórico e reforma
Ao longo das décadas, a reserva se transformou. Por muitos anos, o que um dia foi chamado de “pulmão de Vitória da Conquista” esteve abandonado pelo poder público. Em 2020, o Blog do Anderson noticiou o mato alto e acúmulo de lixo, com as imagens enviadas por moradores para que fosse feita a denúncia.
Quatro anos depois, em julho de 2024, o Conquista Repórter denunciou trilhas obstruídas por crateras, descarte irregular de resíduos no local e rachaduras na escadaria principal que interliga os bairros. As imagens registradas pelo jornal mostravam a situação precária da reserva.
Em entrevista ao veículo jornalístico, residentes dos bairros do entorno há mais de 50 anos relataram a falta de manutenção da reserva, especialmente da infraestrutura física. As três trilhas que existem no local estavam obstruídas por galhos, toras de árvores e grandes buracos. Diante da situação, as visitas guiadas que eram feitas por estudantes e turistas quase não aconteciam mais.
Neste ano, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma) iniciou a revitalização do espaço. Para Iraildes, o local está melhor do que há 30 anos. João Batista também reconhece as melhorias na infraestrutura e na preservação da área, hoje cercada e monitorada. Mas para ambos, um fator ainda impede que mais pessoas visitem a Reserva do Poço Escuro: a insegurança. “A presença dos vigilantes melhorou a sensação de segurança, mas ainda não é um espaço em que me sinto confortável para transitar”, ressaltou João.
Para Iranildes Tereza Amorim, a segurança geral progrediu, mas aponta que a revitalização não foi igualitária. “Eles arrumaram o outro lado e não arrumaram o lado de cá. Essa entrada daqui que tem a escada que vai para o Petrópolis, minha irmã foi assaltada lá meio dia”, relata a moradora.
Há moradores que sentem que o local se tornou mais hostil com o passar dos anos, apontando os assaltos frequentes e o consumo de substâncias ilícitas no lugar como os principais fatores de afastamento do público. “Frequento, mas não como antigamente”, comenta Elias Neves.
Kennedy observa ainda que a fiscalização falha ao se concentrar apenas nos acessos principais. “Têm os guardas, só que eles geralmente ficam na porta da frente. Eu nunca vi um indo lá para o fundo. Acho que a segurança tem pecado um pouco. O povo vai para o meio do mato e faz o que quer”, explicou.
De acordo com o agente da reserva, Haroldo Gusmão, o Poço Escuro é monitorado a todo momento. “Aqui, tem vigilância inclusive no final de semana. Mas o acesso é aberto ao público. Nós também temos o Gama (Grupo de Apoio ao Meio Ambiente), que é a Guarda Municipal do Meio Ambiente, circulando por aqui sempre”, afirmou.

“É um lugar bom para ter contato com a natureza. Às vezes as pessoas não dão valor”, afirma Kennedy Saidi, de 18 anos. Foto: Bianca Cruz
O Gama é responsável pelo patrulhamento de áreas de interesse ambiental com o objetivo de prevenir, fiscalizar e coibir práticas que causem danos ao meio ambiente, atuando no combate aos crimes contra a fauna e a flora. Segundo o governo municipal, a reserva conta com o acompanhamento permanente da Guarda Municipal.
Porém, moradores relataram que não costumam ver guardas com frequência na reserva. É o caso da moradora do bairro Guarani, Stafene Silva, de 28 anos, acostumada a levar a sua filha de oito anos para passear no Poço Escuro. “Raramente vejo guardas lá. Antes, eu via no dia de domingo, mas hoje, nem domingo tenho visto.”
Preservação e conscientização
Além de lugar de memória, o Poço Escuro tem um papel fundamental no equilíbrio ecológico de Vitória da Conquista. A técnica em meio ambiente e tecnóloga em agroecologia, Catharina Sampaio Oliveira, de explicou que a reserva guarda um dos poucos remanescentes da vegetação nativa da cidade, que acompanha o município desde a formação do antigo Arraial da Conquista.
Segundo ela, os biomas locais contribuem para a proteção das nascentes do rio e para a regulação do microclima do município, por isso, precisam ser preservados. “A ausência de ações efetivas de conservação pode provocar impactos que vão além dos limites da reserva”, destaca a profissional.

O Poço Escuro reúne quatro biomas: cerrado, mata atlântica, mata de cipó e caatinga. Foto: Ellen Mafra
A preservação da área exige a criação de políticas públicas voltadas à proteção ambiental e conscientização da população. Entre as medidas necessárias estão projetos de recuperação de áreas degradadas, proteção da mata ciliar e ações educativas que aproximem os moradores da reserva. “Eu percebo que essas discussões ainda ficam muito restritas a certas pessoas, como biólogos e ativistas na área ambiental”, defendeu Catharina.
Apesar de ser considerado um dos principais espaços naturais do município, o local ainda é pouco conhecido pelos moradores de Conquista. “Muitas pessoas sempre viveram no município e não têm ideia o que é a Reserva do Poço Escuro, de como ela funciona e por que é uma reserva.”
A relação entre a reserva e o rio
A necessidade de preservação do Poço Escuro, especialmente pela ligação com o Rio Verruga, foi tema do curta-metragem documental “Dentro de mim passa um rio”, lançado em novembro de 2024. Dirigida pelos cineastas Rogério Luiz Oliveira, Erica Daniela Santos e Filipe Gama, a obra conquistense retrata o passado, o presente e o futuro do rio, perpassando por memórias de moradores que vivem ao redor da reserva.
Em 2011, o Rio Verruga foi considerado um dos mais poluídos do Brasil, segundo a Fundação SOS Mata Atlântica. De acordo com o levantamento, a situação é resultado de anos de descarte de lixo e esgoto na água. “50 metros depois que ele sai da mata, já vira um rio subterrâneo, recebe dejetos, esgoto por onde passa, até desembocar e ser visto de novo, com alguma limitação, na região central da cidade, onde ele já está praticamente morto”, explica Rogério, que também é professor no curso de Cinema e Audiovisual da Uesb.
O docente conta que, durante a realização das entrevistas para o filme, foi possível perceber o significado do rio e da reserva para as comunidades ao redor. “Quando nós escutamos as lavadeiras do bairro Guarani, deu para perceber o que o lugar representava para a sociabilidade daquela comunidade. É claro que isso reverberava no sustento, porque muitas daquelas pessoas viviam das roupas lavadas ali. Era um trabalho para muitas pessoas”, comenta o diretor.
A relação afetiva da população de Conquista com o Poço Escuro permanece, apesar dos desafios impostos pelo crescimento urbano e pela falta de um olhar do poder público para o local durante anos. Para quem vive nos bairros Guarani e Petrópolis, atravessados pela reserva, a revitalização significa mais conforto e cuidado com um ambiente que guarda memórias e histórias. Mas, além da recuperação da infraestrutura, a manutenção da área exige políticas públicas.
“É preciso uma conscientização da população em geral sobre a importância da reserva”, afirma a técnica em meio ambiente Catharina Sampaio Oliveira. Ela destaca que iniciativas como as visitas escolares ao local podem fortalecer o vínculo entre a comunidade e a área de preservação. “Ampliar o conhecimento sobre o espaço é um passo importante para a conservação e valorização de sua importância ambiental e histórica”, finaliza.
Foto de capa: Secom/PMVC


