Quando ser aceito parece mais importante do que ser você mesmo
Jovens relatam a necessidade de assumir diferentes "personalidades" para se sentirem pertencentes e aceitos, especialmente na era da perfomence nas redes sociais 15 de junho de 2026 Filipe Viana*Aos 16 anos, Ana* acreditava que precisava ser uma pessoa diferente em cada ambiente que frequentava. Na escola, fazia piadas para conquistar a simpatia do grupo mais popular. Em casa, como “a boazinha”, ela evitava discordar de qualquer assunto para manter a imagem de filha exemplar. Nas redes sociais, tentava ser a “interessante”, copiando poses, legendas e filtros de quem parecia ter a vida perfeita. Entre tantas versões de si mesma, havia momentos em que já não sabia qual delas era a verdadeira.
A experiência de Ana não é isolada. Assim como ela, Rodrigo, Camilla e Vitória também sentiram, em diferentes momentos da vida, a pressão de adaptar comportamentos, opiniões e até traços da própria personalidade para serem aceitos por um grupo. O desejo de pertencer, tão presente nas relações humanas, pode aproximar pessoas, mas também gerar conflitos quando a aceitação parece depender da renúncia à própria identidade.
“Eu sentia que tinha uma personalidade para cada lugar”, conta a jovem de 22 anos. “Já cheguei a um ponto em que eu realmente não sabia mais quem eu era de verdade, porque só queria ser aceita,” complementa. A necessidade de aprovação e a busca por pertencimento não são uma exclusividade de Ana.
Segundo o psicólogo Lucas Dourado, que atua no atendimento a jovens universitários, pertencer é uma “questão de sobrevivência”. “Somos seres sociais. Desde crianças, entendemos que estar em grupo significa proteção, afeto, validação. O problema não é querer pertencer. O problema começa quando a pessoa entende que só vai ser aceita se deixar de ser quem é.”
Rodrigo*, de 27 anos, conhece bem a dificuldade de preservar sua essência em meio às pressões do convívio social. “No meu primeiro emprego, não falava de onde vinha. Quando alguém perguntava, eu dava uma enrolada, falava só ‘zona oeste’. Eu tinha vergonha do meu bairro, que sempre foi visto como periférico. Depois, passei a evitar certos tipos de música, mudava o jeito de me vestir. Quando vi, eu já vivia uma vida que não era necessariamente minha.”

“O problema não é querer pertencer. O problema começa quando a pessoa entende que só vai ser aceita se deixar de ser quem é”, explica o psicólogo Lucas Dourado. Foto: Arquivo Pessoal
No início, ele encarava essa outra existência como algo comum. “Eu pensava: ‘é só uma coisa social que todo mundo faz’. Só que, com o tempo, comecei a sentir realmente como se estivesse sempre interpretando um papel em alguns lugares, até hoje ainda sinto.”
Lucas aponta que esse “personagem social” é algo que todas as pessoas, em alguma medida, constroem. “Temos diferentes facetas. É esperado que a pessoa seja um pouco diferente com a família, com os amigos ou no trabalho. O que preocupa é quando ela sente que está traindo a si mesma o tempo todo. Quando a sensação é de se abandonar para não ser abandonada pelos outros. Isso pode gerar ansiedade, baixa autoestima e sintomas depressivos.”
Um sinal de alerta, segundo ele, é o cansaço constante após interações sociais. “Não aquele cansaço normal de quem conversou muito, mas um esgotamento de quem precisa sustentar um personagem o tempo todo. É como se houvesse um distanciamento entre o que a pessoa vive e o que realmente sente”, esclarece o profissional.
O palco da aprovação
De acordo com o psicólogo, especialmente entre os jovens, as redes sociais intensificam um mecanismo humano antigo: o da comparação. “A aprovação social sempre existiu, mas as redes fazem com que a comparação seja contínua e em larga escala. A pessoa não busca aceitação apenas de um grupo de dez colegas, mas, às vezes, de centenas ou milhares de seguidores.”
Lucas ressalta que o problema não está apenas nas redes, mas na forma como elas passam a ditar referências de valor. “Uma foto com poucos likes pode se transformar, na cabeça de alguém vulnerável, em uma espécie de prova de desvalor pessoal. Como se o ‘eu verdadeiro’ não fosse suficiente. E isso machuca”, destaca.
Camilla*, de 19 anos, relata que percebe essa necessidade de ‘performar’ o tempo todo para receber aprovação. “Não é só fazer parte do grupo da faculdade, mas também parecer interessante no Instagram, sociável no TikTok, engraçada no Twitter. Em cada rede social, eu precisava de uma versão diferente de mim. E isso tudo veio com a pandemia, que eu só tinha a internet para viver.”
Para ela, o filtro não era só de imagem, mas de conteúdo. “Eu deixava de postar coisas de que eu gostava porque achava que não iam render likes. Quando você percebe, já virou hábito. E aí fica difícil saber o que é vontade sua e o que é só influência.” Hoje, Camilla entende que esse não é um caminho saudável. “Chegou uma hora em que eu via minhas redes e não me reconhecia. Ao mesmo tempo, sentia que nunca era o bastante. Sempre tinha alguém mais bonito, mais engraçado, mais bem-sucedido,” desabafa.
Entre identidade e expectativa
A busca por aprovação também perpassa, muitas vezes, pela necessidade de escapar de violências. Foi assim com a estudante de Pedagogia Vitória Alves, uma mulher negra de 24 anos. Ela lembra que, na adolescência, alisava o cabelo para “ser levada a sério”. “Eu cresci ouvindo comentários sobre meu cabelo crespo, como se fosse algo a ser ‘domado’. Na escola, quando eu alisava, vinham elogios: ‘agora você está bonita’, ‘assim fica melhor’. Fui internalizando que o meu ‘eu natural’ nunca era o suficiente.”
O processo de transição capilar, alguns anos depois, serviu como aceitação de sua própria identidade. “Quando eu comecei a usar o cabelo natural, perdi alguns elogios, mas ganhei uma sensação de que aquela era verdadeiramente eu, e isso eu não troco mais”, afirma. “Hoje, estudando em universidade pública, já sinto menos olhares. Aqui a gente tem pessoas diversas, e isso é lindo”, afirma.
Para o psicólogo Lucas, experiências como a de Vitória mostram que o pertencimento não é igual para todo mundo. “Há grupos que, historicamente, precisaram se adaptar muito mais para serem minimamente aceitos. Isso deixa marcas profundas. Não é uma escolha leve.” Ele propõe ainda uma reflexão: “Quem você é quando ninguém está olhando? E quanto você precisa esconder para caber nos espaços que frequenta?”
Se, por um lado, a pressão por aceitação pode levar ao apagamento de partes importantes de quem somos, por outro, alguns encontros ajudam a fazer o caminho inverso: o de se reconhecer.
Rodrigo começou a reconstruir sua relação com a própria história quando encontrou, na universidade, um grupo de colegas que também vinham de bairros periféricos. “A gente se reconhecia nas mesmas piadas, nas mesmas gírias, nos mesmos problemas com ônibus, por exemplo.” De acordo com o profissional da psicologia, esse é um dos caminhos para que uma pessoa se sinta mais inteira, sem viver constantemente com a necessidade de negociar a sua essência.
“Esses espaços, físicos ou simbólicos, são uma forma de proteção emocional. Isso não significa que o processo será simples. Dizer “não” a determinados padrões ou expectativas pode trazer perda de vínculos, conflitos e até solidão temporária, mas, em muitos casos, é parte de um movimento de amadurecimento”, finaliza Lucas.
Entre pertencer e ser, a negociação diária costuma ser silenciosa e quase invisível. Talvez você reconheça isso nas pequenas escolhas: a roupa que deixa de usar, a opinião que não verbaliza, o afeto que esconde em público, o sonho que guarda só para si. Assim como as pessoas que entrevistei para esta reportagem, vou compreendendo que os encontros e o autoconhecimento são as ferramentas para viver sem medo dos julgamentos.
10 passos para superar a necessidade de aprovação externa
Segundo o psicólogo Lucas Dourado, com base nesse decálogo, superar a necessidade constante de aprovação não significa deixar de se importar com os outros, mas construir uma relação mais saudável consigo mesmo. “O desejo de pertencer é natural. O problema surge quando a pessoa acredita que só será aceita se abandonar características importantes da própria identidade”, explica.
O especialista destaca alguns caminhos que podem ajudar nesse processo:
1. Conheça a si mesmo
Observar os momentos em que a opinião dos outros influencia decisões e comportamentos é um passo importante para compreender as próprias inseguranças e necessidades.
2. Reflita sobre a origem desse comportamento
Experiências de rejeição, críticas excessivas ou dificuldades de aceitação ao longo da vida podem contribuir para a busca constante por validação externa.
3. Reconheça os impactos da necessidade de aprovação
Quando a opinião dos outros passa a determinar escolhas, relacionamentos e projetos pessoais, a autoestima e o bem-estar emocional podem ser prejudicados.
4. Aceite suas imperfeições
“Não existe identidade sem contradições ou defeitos. A autoaceitação é fundamental para desenvolver relações mais autênticas”, afirma Lucas.
5. Valorize seus próprios critérios
Definir objetivos alinhados aos próprios valores ajuda a diminuir a dependência de avaliações externas.
6. Fortaleça a autoconfiança
Pequenas conquistas diárias contribuem para o desenvolvimento da confiança e da segurança nas próprias escolhas.
7. Entenda que não é possível agradar a todos
Segundo o psicólogo, aceitar a diversidade de opiniões reduz a pressão de corresponder às expectativas de todas as pessoas.
8. Aprenda a estabelecer limites
Dizer “não” quando necessário é uma forma de proteger a saúde mental e evitar relações baseadas apenas na tentativa de agradar.
9. Reconheça suas conquistas
Celebrar avanços pessoais, mesmo os mais simples, fortalece a autoestima e reduz a necessidade de validação constante.
10. Procure ajuda profissional quando necessário
Se a necessidade de aprovação gera sofrimento frequente ou interfere na vida pessoal, social ou profissional, o acompanhamento psicológico pode auxiliar na construção de estratégias para fortalecer a identidade e a autonomia emocional.
Para Lucas Dourado, o principal desafio é compreender que pertencimento e autenticidade não precisam ser opostos. “É possível fazer parte de grupos, construir vínculos e ser aceito sem abrir mão de quem se é. O pertencimento saudável acontece justamente quando a pessoa não precisa representar um personagem para ser acolhida”, conclui.
Foto de capa: Freepik
*Foram utilizados nomes fictícios para representar as fontes que prefiriram preservar as suas identidades.
*Essa reportagem faz parte da série Narrativas Afetuosas, produzida na disciplina Jornalismo na Internet II, durante o período especial, por alunos do 8º semestre do curso de Jornalismo da Uesb.