Escritora conquistense lança livro que celebra memórias e afetos entre mulheres negras

Do povoado do Capinal, Duda Nazaré lançou sua obra de estreia no dia 28 de novembro, na Biblioteca Municipal José de Sá Nunes 3 de dezembro de 2025 Amanda Motta, Ana Flávia Costa, Letícia Tigre e Natan Rangel*

A escritora e intérprete de Libras Maria Eduarda Nazaré lançou, no dia 28 de novembro, às 16h, seu primeiro livro, Contos de Maria Neta e Maria Vó, pela editora Caravana, na Biblioteca Municipal José de Sá Nunes, em Vitória da Conquista. O evento reuniu um público de várias idades e celebrou a estreia da autora no circuito literário da cidade.

A obra é composta por oito contos que homenageiam sua avó, Maria Vitória, sua mãe e todas as mulheres que moldaram sua percepção de amor, cuidado e pertencimento. No bate-papo, Duda compartilhou que o livro nasceu da relação profunda que viveu com a matriarca da família. Sua declaração emocionada, afirmando que a obra é resultado de “muito amor e ancestralidade”, sintetizou a atmosfera do lançamento: um encontro que uniu memória, identidade e comunidade.

Durante o evento, a autora contou que transformar suas lembranças de infância em narrativa foi uma maneira de preservar a história familiar e manter vivo os laços que marcam sua trajetória. “É uma troca, uma relação que eu tive com ela [a avó] muito forte, de muito afeto e respeito, que é presente nos oito pontos desse livro”, disse Duda.

O público participou ativamente do lançamento, fazendo perguntas sobre o processo de criação do livro e a reflexão presente na obra sobre o cuidado com a pessoa idosa e o diálogo entre gerações. Em conversa com os presentes, a autora revelou que pretende seguir escrevendo e já reúne novos textos para futuras publicações.

Duda Nazaré: “É uma troca, uma relação que eu tive com ela [a avó] muito forte, de muito afeto e respeito, que é presente nos oito pontos desse livro.”

Vida da autora 

Nascida no povoado do Capinal, na zona rural de Conquista, Duda traz nesta obra as memórias da infância em uma homenagem às mulheres de sua família. Criada majoritariamente pela avó, mãe e tias, e tendo conhecido o pai apenas aos 12 anos, descobriu cedo que o mundo era sustentado por mãos femininas.

A escrita, que havia sido interrompida após a crítica dura de uma professora, só voltou anos depois, quando encontrou a obra Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus. A identificação com a autora, uma mulher negra periférica que transformou o cotidiano em literatura, reabriu a porta para o texto.

Em seguida, veio o encontro com Conceição Evaristo e a noção de “escrevivência”, que fez com que Duda finalmente se reconhecesse como parte de uma linhagem literária ancestral. Desde então, sua trajetória passou por mudanças, pela vivência em diferentes cidades, pelos estudos em Libras na Uniasselvi e pelo ingresso em Ciências Sociais na Uesb, curso que decidiu trancar para se dedicar integralmente à literatura.

Neste ano, além do lançamento do primeiro livro, a sua presença na 3ª edição da Feira Literária de Vitória da Conquista foi um marco na sua vida profissional. No evento, ela pôde marcar o seu lugar enquanto escritora e encontrar nomes que a inspiram como Itamar Vieira Júnior, autor de Torto Arado, e Luciany Aparecida, escritora do romance Mata Doce.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Escritoras negras na Bahia e no Brasil

A história de Duda, atravessada por ancestralidade e resistência, dialoga com um movimento mais amplo de valorização das escritoras negras na Bahia e no Brasil. Nos últimos anos, iniciativas importantes têm buscado registrar, mapear e fortalecer essas vozes historicamente invisibilizadas. Um dos trabalhos mais expressivos é o mapeamento produzido pela jornalista e pesquisadora Calila das Mercês, que criou uma plataforma dedicada exclusivamente às escritoras negras da Bahia.

A iniciativa surgiu da constatação de que, embora a Bahia seja um dos maiores redutos de produção intelectual negra do país, as escritoras negras continuam sendo pouco lidas, pouco referenciadas e raramente incluídas nos currículos escolares e universitários. A plataforma busca romper esse apagamento estrutural, permitindo que o público conheça autoras como Mel Adún, Rita Santana, Tita Alves, Cidinha da Silva e tantas outras que integram o cenário literário baiano contemporâneo.

Projetos como esse são importantes em meio a um contexto nacional onde há profunda desigualdade racial e de gênero no campo literário. Segundo o estudo “A personagem do romance brasileiro contemporâneo”, da pesquisadora Regina Dalcastagnè, da Universidade de Brasília (UnB), entre os autores publicados ao longo de 14 anos, de 1990 a 2004, 93,9% eram brancos e 72,7% eram homens. Além disso, quase metade desses escritores viviam no Rio de Janeiro (47,3%) e cerca de um quinto em São Paulo (21,2%). Mais de vinte anos depois, a realidade vem se transformando a passos lentos, especialmente pela resistência da população negra.

Os dados evidenciam o tamanho do desafio enfrentado por autoras negras como Duda Nazaré, assim como mostram a força simbólica de iniciativas como a do Sesc São Paulo, que tem revisitado e ilustrado trajetórias de escritoras negras brasileiras, reunindo desde pioneiras como Maria Firmina dos Reis, considerada a primeira romancista negra do Brasil, até vozes marcantes como Carolina Maria de Jesus, Lélia Gonzalez e Conceição Evaristo, e de autoras negras que ultrapassam barreiras e publicam suas obras.

*Amanda Motta, Ana Flávia Costa, Letícia Tigre e Natan Rangel são estudantes do sétimo semestre do curso de Jornalismo – Disciplina Jornalismo na Internet I – Especial Bairro a Bairro.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *