Fundador da Revista Piauí denuncia empresários contra a democracia

O artigo foi publicado na Revista Piauí e repercutida nas redes sociais do veículo jornalístico 3 de outubro de 2026 < Rafael Pinheiro*

O documentarista e fundador da Revista Piauí, João Moreira Salles, criticou o apoio de empresários ao candidato à presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL). Em artigo publicado, nessa quinta-feira (01), citou  empresários e banqueiros alinhados ao Senador Flávio Bolsonaro e chamou a atenção para o risco de uma crise democrática e institucional em nome de um eventual ajuste fiscal. 

Para ele, as consequências de uma crise econômica podem ser revertidas com o tempo, enquanto os danos de um regime de exceção deixam marcas profundas e duradouras nas instituições. “É curioso: essas são pessoas que não aceitam o risco de uma crise econômica, mas admitem sem estrilar o de uma crise democrática. As consequências da primeira podem ser gravíssimas, mas são, em princípio, reversíveis; as da segunda podem deixar marcas institucionais duradouras”, escreveu n o artigo.

Conforme Moreira Salles, a elite já fez a sua escolha moral ao ignorar o histórico  autoritário e violento do campo bolsonarista, cujo histórico inclui declarações favoráveis à legalização de milícias, relações do ex-assessor Fabrício Queiroz com o esquema de “rachadinhas” e vínculos com o matador de aluguel Adriano da Nóbrega. Para o documentarista, deixar de exigir retratação à Família Bolsonaro pela exaltação do Coronel Brilhante Ustra, torturador da Ditadura Militar, é ser condescendente. O artigo traz o filho do ex-presidente e atual candidato como um mero instrumento do pai, uma figura sem autonomia e elenca o atentado contra os três poderes da República no dia 8 de janeiro de 2023, a pretensão de anistiar condenados e as ameaças contra o Supremo Tribunal Federal (STF). 

Ao citar empresários, gestores e executivos do mercado financeiro que têm participado de encontros e jantares com o candidato, João se opôs à visão de que se tratava apenas de um encontro com quem tem “expectativa de poder”. Segundo ele, os jornalistas entrevistam figuras públicas por dever de ofício sem que isso represente um aval moral. Porém, os jantares promovidos pelo setor privado podem contribuir para que o candidato tenha mais espaço no cenário político, fazendo com que seja considerado o que é inadmissível. O documentarista rebateu o argumento de que jornalistas entrevistam pessoas de vários lados da política usando como exemplo o Caso Master. “Se Consuelo Dieguez, Malu Gaspar ou Lauro Jardim se sentarem para uma entrevista com Daniel Vorcaro, o público não encarará o encontro como um aval ao ex-banqueiro. Já se uma parte vistosa do PIB recebê-lo para jantar, é razoável presumir que isso seja meio caminho andado para sua reabilitação”, argumentou 

Os empresários citados fazem parte de diferentes ramos da Economia Brasileira:

Mercado Financeiro e Bancos: André Esteves (BTG Pactual), Luiz Carlos Trabuco (Bradesco), Milton Maluhy Filho (Itaú Unibanco), Roberto Campos Neto, Marcelo Kayath, Emmanuel Hermann, Christian Egan e Daniel Goldberg, Fábio Barbosa e Gilson Finkelsztain.

Indústria, Varejo e Serviços: Flávio Rocha (Riachuelo), David Feffer (Suzano), Rubens Ometto (Cosan/Raízen), Richard Gerdau (Gerdau), Fábio Ermírio de Moraes (Votorantim), Fernando Marques (União Química), Paulo Skaf, José Galló (Renner) e Alexandre Ostrowiecki (Multilaser).

Energia, Logística e Outros Setores: Eduardo Bartolomeo (Vale), Pedro Parente, Mario Araripe, Fernando Simões, Eduardo Fischer, Roberto Dagnoni, Helio Seibel, Fabio Carvalho e João Camargo.

Em nota de rodapé, o artigo informou que David Feffer e Rubens Ometto foram retirados, depois, da lista originalmente publicada, porque ambos negaram ter participado de jantares ou encontros com Flávio Bolsonaro.  Em resposta à publicação do artigo, Pedro Parente afirmou, em uma carta, que saiu com uma impressão do candidato pior do que quando entrou e que não votará em Flávio e que estranhou que seu nome tenha saído no ensaio. 

Quem é João Moreira Salles?

Ele é um documentarista, roteirista, diretor e produtor de cinema. Entre os trabalhos premiados de Moreira Salles estão o documentário Krajcberg, o Poeta dos Vestígios (1987) e Santiago (2007), este último, incluído no livro 100 Melhores Filmes Brasileiros de Todos os Tempos, organizado pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Em 2006, João criou a revista piauí.

Formado em Economia na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, optou por trabalhar com cinema. Seu irmão Walter Salles Júnior, também diretor de cinema, foi o incentivador para a entrada na industria cinematográfica. Os dois compõem, ao lado de seus três irmãos, uma das famílias mais ricas do Brasil, que são donas do Banco Itaú. 

O primeiro trabalho de João foi em 1985. À época, ele assinou o roteiro da série Japão, uma Viagem no Tempo, da extinta TV Manchete (1983-1999). Dois anos depois fundou, ao lado do irmão Walter Salles, a produtora VideoFilmes. Outros créditos do diretor incluem Notícias de uma Guerra Particular (1999), Entreatos (2004), Nelson Freire (2003) e No Intenso Agora (2017).
Confira as principais falas de João Moreira Salles no instagram da Revista Piauí

Foto: Laboratório de Jornalismo da PUC-Rio

*Rafael Pinheiro é bolsista do Programa de Extensão Jornalismo como forma de Transformação Social no combate à Desinformação