Quatro meses sem Restaurante Universitário da Ufba de Conquista deixa estudantes em situação de segurança alimentar
O serviço foi interrompido no mês de maio, quando a empresa responsável pelas refeições foi interditada pela Vigilância Sanitária 4 de setembro de 2026 < Jeronimo Borges*No próximo domingo (6), estudantes do Instituto Multidisciplinar em Saúde (IMS), da Universidade Federal da Bahia (Ufba), em Vitória da Conquista, completam quatro meses sem o Restaurante Universitário (RU) no campus Anísio Teixeira. A empresa que fornece as refeições para a instituição foi interditada pela Coordenação de Vigilância Sanitária no dia 6 de maio, após cerca de 90 alunos se queixarem de intoxicação alimentar. Desde então, o serviço não foi retomado e ainda não há data prevista para a reabertura do RU.
Na ocasião da interdição, a Vigilância apontou falta de alvará sanitário, além de condições inadequadas para a produção, armazenamento e transporte dos alimentos. O serviço era oferecido pela empresa All Alimentos LTDA, por meio do Contrato nº 451/2025, com preparação das refeições em uma cozinha industrial no bairro Bem-Querer. Apesar das alegações do órgão de fiscalização, em nota, a Ufba informou que “não existem laudos com definição alguma nem de micro-organismos e/ou toxinas e nem de fechamento de surto”.
Como medida emergencial, a universidade passou a conceder R$480,00 mensais aos estudantes cadastrados na Coordenação de Ações Afirmativas e Assistência Estudantil (COAE), mas, segundo relatos ouvidos pela reportagem, os pagamentos acontecem com atrasos e não são suficientes para cobrir os custos de refeições nos restaurantes mais próximos da Ufba. Além disso, a medida deixa de fora os discentes não cadastrados no programa de auxílio.
Enquanto aguardam uma solução, alunos substituem refeições completas por lanches rápidos, comprometem a renda do mês em restaurantes mais caros, recorrendo aos cartões de crédito, ou não comem durante o período em que estão na universidade.
A estudante do 2º semestre do curso de Farmácia, Bianca Yane Valverde, de 18 anos, conta que gasta entre R$20,00 e R$30,00 por dia com marmitas, totalizando um gasto mínimo de R$160,00 por semana. “Como eu comia no RU todos os dias com o preço subsidiado da faculdade, o valor hoje é muito maior do que eu gastava”, explica. O preço da refeição no Restaurante Universitário era RS2,50 para todos os estudantes e gratuita para os cadastrados na COAE.
Além do custo mais alto, Bianca relata que a ausência do RU no campus afetou a qualidade da sua alimentação diária. “Tive uma redução drástica de vegetais, legumes e frutas na minha dieta desde o fim do restaurante na faculdade.”
Discente de Nutrição, Taila Tanattia, de 22 anos, está entre os beneficiários do auxílio emergencial. Ela afirma que o pagamento não segue uma agenda regular. Segundo a jovem, uma parcela referente a julho e agosto foi paga de forma conjunta. Com isso, não houve depósito em agosto, mês de retorno do semestre 2026.2. “Precisei recorrer ao cartão de crédito para continuar comprando comida.”
Estudantes pagam o preço
Taila não é a única que precisa do crédito emergencial para se alimentar na ausência do RU. De acordo com formulário online, criado pelos próprios estudantes e respondido por 294 alunos matriculados no campus da Ufba em Conquista, entre os dias 26 e 29 de agosto, 8,5% afirmam recorrer ao uso de cartão de crédito para custear as refeições.
A pesquisa também indica que 43,9% (129) dos respondentes levam marmita de casa diariamente, enquanto 19% (56) substituem o almoço por lanches rápidos. Outros 5,1% (15) afirmaram não almoçar nem lanchar durante o período em que permanecem na universidade.
Entre os estudantes, 57,3% precisam recorrer à ajuda financeira dos pais para se alimentar, 20,5% utilizam dinheiro proveniente do próprio trabalho e 13,7% dependem do auxílio emergencial da Ufba.
Em nota publicada no dia 27 de agosto, a assessoria do Instituto Multidisciplinar em Saúde informou que cerca de 300 estudantes são beneficiários da ajuda emergencial. Mas, na prática, o valor mensal de R$ 480,00 corresponde a aproximadamente R$16,00 por dia se dividido pelos 30 dias do mês.
De acordo com Taila, que permanece entre dez e doze horas no campus, esse valor não é suficiente para garantir uma refeição completa nos estabelecimentos próximos da universidade. Ela afirma ter encontrado pratos entre R$23,00 e R$35,00 no Shopping Boulevard, localizado a cerca de um quilômetro do IMS. “Já precisei cortar gastos com transporte e até adiar cuidados de saúde.”
O estudante do curso de Farmácia, Iago de Jesus, de 20 anos, também é afetado pela interrupção do serviço de alimentação na Ufba. “Preciso acordar bem mais cedo para preparar a comida e, além disso, não há geladeiras adequadas para os estudantes no campus.” Ele conta que já aconteceu de sua comida estragar, o que o deixou sem refeição naquele dia.
Estrutura improvisada
Como solução improvisada, no espaço onde funcionava o RU, foram disponibilizados três micro-ondas para os alunos esquentarem as marmitas. Porém, as longas filas são uma realidade. Iago relata esperar entre 15 e 30 minutos para conseguir utilizar um dos aparelhos. Segundo ele, a demora já provocou atrasos em aulas e até reclamação de professores.
Apesar de uma solução temporária para a falta do RU, levar comida de casa também pode ser motivo de constrangimento para alguns estudantes, que são alvos de comparação em relação a alunos com mais recursos financeiros. “Tem gente que tem vergonha e não traz a marmita. A pessoa pensa: ‘Eu vou levar uma bolacha de sal, uma salsicha, uma mortadela? Sendo que fulano está trazendo seu pedaço de carne, arroz e feijão?’”, diz a estudante de Nutrição, Thamires Santos, de 20 anos.
Para Iago, o problema vai além da espera em filas. “É uma questão de permanência. Permanecer na universidade não significa apenas ter acesso às aulas, mas também possuir condições para estudar, se alimentar e descansar com dignidade.”
A luta pela permanência e a melhoria da qualidade do RU não são reivindicações recentes. No dia 20 de maio, dias após a interdição do restaurante, estudantes da Ufba protestaram com o fechamento dos portões do campus e uma passeata pela Avenida Olívia Flores. Na ocasião, os alunos carregaram cartazes, apitos e utensílios como panelas e colheres.
Respostas após cobranças
Já no dia 11 de junho, em mais uma manifestação pública, a Pró-Reitoria de Assistência Estudantil (PROAE) afirmou que, no dia 26 de maio, recorreu às empresas remanescentes do Pregão Eletrônico n° 21/2023 para viabilizar a contratação mais rápida de uma nova empresa para o RU. Segundo relatório da PROAE, oito empresas foram contatadas, mas nenhuma apresentou interesse efetivo na prestação do serviço.
Em 16 de junho, ainda de acordo com o relatório da PROAE, foi aberto o Processo nº 23066.033723/2026-73, destinado à realização do Pregão nº 90036/2026 para contratação de uma nova empresa fornecedora de refeições. Em 28 de julho, a própria universidade informou que o processo ainda estava em tramitação.
Em resposta a esta reportagem, a Ufba afirmou que o processo licitatório tem previsão de finalização em outubro. Entretanto, no Ofício nº 095/2026, datado de 24 de agosto de 2026, a direção afirma que “há o empenho da PROAE para ocorrência de licitação e, que temos todo
o percurso registrado no processo SIPАС 23066.033723/2026-73, mas não teremos tempo hábil para funcionamento do Ponto de distribuição neste semestre.”
Uma nova promessa
Na reunião realizada no dia 24 de agosto com representantes estudantis, a direção do IMS apresentou as providências adotadas e informou que havia documentação relacionada à nova licitação. Segundo os estudantes que participaram do encontro e não quiseram ser identificados nesta reportagem, a informação repassada era que o prazo otimista para a contratação da nova empresa seria novembro.
Mas, segundo os alunos, eles não têm muita esperança de que a retomada do serviço será realizada ainda este ano. “É muito difícil confiar em promessas quando enfrentamos uma realidade como essa. Mesmo com a previsão do restaurante para novembro, não temos nenhuma segurança, visto que o auxílio emergencial será cortado em setembro para os alunos ingressantes em 2026.1 e, embora tenham dito que abrirão um novo edital, não informaram quando o pagamento será de fato retomado.”
Diferente da afirmação dos estudantes, a direção do IMS afirmou, em nota publicada no dia 27 de agosto, que “até que ocorra a retomada definitiva do funcionamento do Restaurante Universitário, permanece assegurada a continuidade das medidas emergenciais de assistência estudantil, garantindo apoio financeiro aos mais de 300 discentes beneficiários.”
A Ufba sustenta que os procedimentos precisam obedecer aos ritos legais e que a direção do campus não tem autonomia para resolver sozinha os entraves burocráticos. Mas, enquanto isso, alunos enfrentam filas para usar os micro-ondas, comprometem a renda, reduzem a qualidade da alimentação ou recorrem ao crédito. “O estudante precisa comer”, finaliza Iago de Jesus.
*Jeronimo Borges é jornalista colaborador do Programa de Extensão Jornalismo como forma de Transformação Social no combate à Desinformação.


