Lula é reeleito à presidência com virada histórica no 2º turno
Com 100% das urnas apuradas, o petista recebeu 51,79% dos votos válidos contra 48,21% do adversário; Lula venceu nos nove estados do Nordeste no segundo turno 26 de outubro de 2026 < Malu CastroLuiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito presidente da República neste domingo (25/10), após vencer Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições de 2026. Com 100% das urnas apuradas, o petista recebeu 64.256.232 milhões de votos, o equivalente 51,79% dos votos válidos, contra 59.826.041 milhões (48,21%) do adversário, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A confirmação da vitória ocorreu às 21h08, quando 97% das urnas já tinham sido apuradas. Aos 80 anos, Lula conquista seu quarto mandato como presidente do Brasil, após ter governado o país entre 2003 e 2010 e retornado ao Palácio do Planalto em 2023.
A disputa presidencial foi marcada pela polarização política, pela circulação de desinformação nas plataformas digitais e por debates sobre economia, políticas sociais, segurança pública e democracia. O segundo turno também registrou denúncias de restrições ao transporte coletivo, que levaram o Supremo Tribunal Federal (STF) a determinar a ampliação do horário de votação em todo o território nacional.
No primeiro turno, realizado em 4 de outubro, Lula obteve 45,16% dos votos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro recebeu 47,03%. Como nenhum dos candidatos alcançou a maioria absoluta dos votos válidos, a eleição foi decidida no segundo turno.
Resultado da eleição presidencial
De acordo com os dados divulgados pelo TSE, a apuração nacional apresentou os seguintes resultados:
- Luiz Inácio Lula da Silva (PT): 64.256.232 — 51,79% dos votos válidos.
- Flávio Bolsonaro (PL): 59.826.041 — 48,21% dos votos válidos.
- Votos brancos: 1.430.496 — 1,12%
- Votos nulos: 2.723.305 — 2,12%
- Abstenções: 30.509.005 — 19,22%
- Comparecimento: 128.236.074 — 80,78%
Ao todo, 128 milhões de brasileiros compareceram às urnas neste domingo. O índice de abstenção foi de 19,22%, inferior ao registrado no primeiro turno.
Lula vence em 13 estados
No Nordeste, Lula ganhou em todos os nove estados, recebendo 24.449.432 votos no segundo turno, o que representa 69,80% dos válidos. Na Bahia, o presidente reeleito conquistou 71,31% dos votos, enquanto Flávio Bolsonaro recebeu 28,69%.
Neste domingo (25/10), o petista também venceu em Minas Gerais, acumulando 6.351.099 votos (50,43%), no Pará, com 2.690.449 votos (55,02%), no Amazonas, com 1.145.783 votos (54,02%), e no Amapá, com 222.968 votos (52,88%). Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro foram os estados onde Lula ganhou mais votos entre o primeiro e o segundo turno.
De acordo com dados do TSE, no Centro-Oeste e no Sul do Brasil, Flávio Bolsonaro venceu em todos os estados. Na região Sul, estão todos os deputados eleitos pelo partido do senador, o PL, a exemplo de Sérgio Moro, no Paraná.
Conquista registra 58,78% dos votos para Lula
Em Vitória da Conquista, no Sudoeste da Bahia, Lula recebeu 128.349 votos, o equivalente a 58,78% dos votos válidos. Flávio Bolsonaro obteve 89.994 votos (41,22%).
O município registrou 226.673 eleitores que compareceram às urnas, enquanto 38.867 deixaram de votar. Os votos brancos somaram 2.682 (1,18%) e os nulos, 5.648 (2,49%).
No primeiro turno, Lula recebeu 108.011 votos, o equivalente a 52,85% dos votos válidos, enquanto seu adversário obteve 82.936 votos (40,58%). Entre o primeiro e o segundo turno, o petista ganhou 20.338 novos votos. O nível de abstenção também caiu de 49.309 para 38.867. Nas eleições gerais de 2022, Lula foi eleito com 117.516 votos (58,31%) no município contra 84.019 (41,69%) recebidos por Jair Bolsonaro.
Eleitores enfrentaram problema com transporte público
No segundo turno das eleições presidenciais de 2026, aconteceram denúncias de redução da frota de ônibus e dificuldades de deslocamento de eleitores em diferentes regiões do país.
Na Bahia, os principais problemas foram relatados em Salvador, Feira de Santana e Lauro de Freitas. A coligação Brasil Pronto Pra Mais, que apoiou a candidatura de Lula, denunciou que a oferta insuficiente de transporte coletivo prejudicou o acesso da população aos locais de votação.
Em Salvador, o Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA) determinou o restabelecimento integral da frota de ônibus, sob multa de R$ 1 milhão por hora de descumprimento. A Justiça Eleitoral também determinou a prisão do secretário municipal de Mobilidade, Pablo Souza, por descumprimento da ordem judicial.
O prefeito Bruno Reis (União Brasil) atribuiu parte dos problemas à colocação de adesivos de campanha em ônibus por sindicalistas. A Secretaria Municipal de Mobilidade informou que determinou a liberação dos veículos e a circulação da frota máxima.
Na tarde deste domingo, o senador eleito Rui Costa visitou garagens de empresas de transporte coletivo em Salvador e divulgou imagens de ônibus estacionados. Ele acusou a prefeitura e empresários do setor de dificultarem o deslocamento de eleitores, especialmente moradores de bairros periféricos, e pediu a responsabilização dos envolvidos.
A Prefeitura de Salvador informou que o secretário Pablo Souza, está em Paris, na França, em uma missão oficial a convite do governo francês. Ele retorna nesta segunda-feira (26) e vai se apresentar às autoridades para prestar esclarecimentos
Além dos problemas em Salvador, passageiros também enfrentam longas filas em busca de ônibus gratuitos para votar em Sergipe.
Em nota, o DER-SE (Departamento Estadual de Infraestrutura Rodoviária de Sergipe) disse que a gratuidade da passagem para os eleitores está garantida e que a frota intermunicipal foi ampliada em mais 20 veículos, além dos veículos extras disponibilizados inicialmente.
Em São Paulo, também foram registrados relatos de longas esperas em pontos e terminais de ônibus. A campanha de Lula denunciou redução da frota, apesar de determinação judicial para que o transporte coletivo funcionasse com frequência equivalente à dos dias úteis.
A Prefeitura de São Paulo informou que havia orientado as empresas de transporte a cumprir a determinação da Justiça Eleitoral. A campanha petista também solicitou a apuração de possíveis responsabilidades pelo descumprimento da medida.
As denúncias levantaram preocupações sobre os impactos da redução do transporte público no exercício do direito ao voto, principalmente entre eleitores de baixa renda e moradores de áreas periféricas.
Votação prorrogada
Diante dos problemas relatados no transporte coletivo, o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou neste domingo (25/10) a prorrogação do horário de votação até as 19h, pelo horário de Brasília, em todas as seções eleitorais do país.
A decisão ampliou em duas horas o período inicialmente previsto para a votação, que seria encerrada às 17h.
A medida foi tomada após uma reclamação apresentada pela coligação Brasil Pronto Pra Mais contra as prefeituras de Salvador, Feira de Santana e Lauro de Freitas. A ação apontou possíveis descumprimentos da decisão do STF que assegura transporte público gratuito aos eleitores, com oferta de veículos compatível com a frequência dos dias úteis.
Zanin considerou a gravidade dos fatos e a urgência da situação. A decisão foi proferida na Reclamação 101.673 e determinou que o Tribunal Superior Eleitoral adotasse as providências necessárias para garantir o cumprimento da prorrogação em todo o território nacional.
Embora a reclamação tenha sido motivada por problemas relatados em municípios baianos, a ampliação do horário teve alcance nacional.
A decisão também ocorreu em meio a pedidos das campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro para ampliar a votação em localidades afetadas por dificuldades de acesso às urnas. Enquanto a campanha petista apontou principalmente problemas no transporte público, a campanha do PL mencionou chuvas, alagamentos e alterações em locais de votação.
Lula comemora vitória
Após a confirmação do resultado, Lula se pronunciou na Avenida Paulista, em São Paulo, acompanhado do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), do deputado federal André Janones (Rede-MG) e de outras autoridades e integrantes da sua equipe de campanha. Depois da meia noite, o presidente reeleito subiu ao trio elétrico instalado em frente ao Museu de Arte de São Paulo (Masp) para o discurso da vitória.
Durante o discurso, ele pediu que a multidão cantasse o Hino Nacional e destacou que a sua eleição era uma vitória contra a interferência estrangeira e das plataformas digitais no processo eleitoral brasileiro. “Quero pedir para, outra vez, cantarem o Hino da Independência para eles saberem que nós não cabemos no quintal de ninguém”, disse Lula.
O presidente destacou o papel da mobilização popular no segundo turno das eleições e agradeceu ao deputado Janones pela coordenação da sua campanha nas redes sociais e no WhatsApp. “Eu aprendi, neste segundo turno, a grande lição da minha vida. Quando o governante não sabe o que fazer, ele pergunta ao seu povo que o seu povo saberá ensinar o que ele tem que fazer”, afirmou.
Em todo o Brasil, a vitória de Lula levou multidões às ruas em celebração. No Rio de Janeiro, eleitores ocuparam a Cinelândia, no Centro. Em São Paulo, milhares tomaram a Avenida Paulista entoando gritos de “olê olê olá Lula”. Na Bahia, em Salvador, as comemorações se espalharam pelo Rio Vermelho e pela região dos Barris. Nos interiores do estado, apoiadores do presidente também se reuniram nas ruas.
Flávio Bolsonaro se manifesta sobre o resultado
Após o resultado da eleição, o candidato Flávio Bolsonaro (PL) fez um discurso em Brasília, acompanhado de aliados como o senador Deltan Dallagnol (Novo), o deputado federal Nikolas Ferreira (PL) e a deputada federal Bia Kicis (PL).
Durante o discurso, o senador e filho primogênito de Jair Bolsonaro afirmou que é “impossível aceitar o resultado dessas eleições”. Ele se negou a aceitar a derrota nas urnas, alegando que pedirá a anulação do pleito.
“O que aconteceu hoje não foi algo normal, foi algo inclusive inaceitável. Um ministro da Suprema Corte, pela primeira vez na história, ex-advogado do Lula, dá uma canetada a pedido de um ex-sócio dele e muda a regra do jogo, no meio do jogo, às 17 horas e um minuto”, disse Flávio.
Segundo o candidato, “houve uma quebra total de isonomia entre os brasileiros e diversas cidades de diferentes estados.” Apesar do que diz Flávio, a sua campanha também solicitou a prorrogação do horário de votação até as 19h em Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina e São Paulo.
Quarto mandato de Lula começa em janeiro de 2027
Com a reeleição, Lula permanecerá à frente da Presidência da República por mais quatro anos, de 1º de janeiro de 2027 a 31 de dezembro de 2030. O novo mandato terá desafios como segurança pública, controle da inflação e a pejotização de relações trabalhistas.
Durante os últimos meses, o presidente prometeu aprimorar o controle e rastreabilidade de armas de fogo e munição. Uma de suas propostas é a criação do Ministério da Segurança Pública a fim de fortalecer a integração entre União, estados e municípios no enfrentamento ao crime organizado. Para avançar nessa área, tramita no Senado a PEC da Segurança Pública (18/2025), que estabelece penas mais duras para chefes de facções e milícias.
Para a economia, no seu programa de governo, o petista prometeu continuar implementando uma política macroeconômica comprometida com o crescimento, a redução das desigualdades, a valorização do trabalho, a responsabilidade ambiental, a responsabilidade fiscal, a queda dos juros e a inflação controlada.
Na área da educação, Lula anunciou o lançamento do programa Pé-de-Meia para estudantes universitários. Segundo o presidente, a patir do novo mandato em 2027, universitários da educação pública e bolsistas do ProUni terão acesso a uma bolsa mensal de R$ 700 durante dez meses do ano, além de receber um depósito anual de R$2500 por conclusão de cada ano letivo.
De metalúrgico a presidente
Luiz Inácio Lula da Silva, conhecido como Lula, já ocupou o cargo de presidente do Brasil por quase 12 anos. Natural de Pernambuco, o ex-metalúrgico e sindicalista é conhecido por lutar pelos direitos dos trabalhadores e participar da formação do Partido dos Trabalhadores (PT), ainda na década de 1980.
Na década de 1980, o político ganhou destaque ao liderar o movimento Diretas Já, que reivindicava eleições diretas para a Presidência da República durante o processo de redemocratização do país. Em 1986, foi eleito deputado federal por São Paulo, sendo o mais votado do país. Na Câmara dos Deputados, participou dos trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte, responsável pela elaboração da Constituição Federal de 1988.
Lula concorreu à Presidência da República pela primeira vez em 1989, na primeira eleição presidencial direta desde 1960. Derrotado no segundo turno por Fernando Collor de Mello, voltou a disputar o cargo nas eleições de 1994 e 1998 e, nas duas ocasiões, foi derrotado no primeiro turno por Fernando Henrique Cardoso (PSDB).
Em 2002, candidatou-se novamente à Presidência e venceu no segundo turno com 61% dos votos válidos. Seu adversário, José Serra (PSDB), obteve 39% dos votos válidos. Lula tomou posse em janeiro de 2003 e foi reeleito em 2006, permanecendo no cargo até o fim de 2010.
No ano de 2014, tornou-se alvo de investigações relacionadas à Operação Lava Jato. Em 2017, foi condenado pelo juiz Sérgio Moro no processo referente ao tríplex do Guarujá, em São Paulo. Em 7 de abril de 2018, começou a cumprir pena em regime fechado, permanecendo preso por 580 dias.
Em 8 de novembro de 2019, Lula foi colocado em liberdade após uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que alterou o entendimento sobre a possibilidade de prisão após condenação em segunda instância, antes do esgotamento dos recursos judiciais.
Em março de 2021, o STF anulou as condenações de Lula relacionadas a processos julgados pela Justiça Federal de Curitiba, por entender que o juiz Sérgio Moro não tinha competência para julgá-los. No mesmo ano, o Supremo também confirmou a parcialidade do juiz no processo do tríplex. Com as decisões, Lula recuperou seus direitos políticos e pôde voltar a disputar eleições.
Em 2022, Lula concorreu novamente à Presidência da República e venceu o segundo turno contra Jair Bolsonaro (PL), com 50,90% dos votos válidos. Tomou posse em 1º de janeiro de 2023, iniciando seu terceiro mandato presidencial.
Foto de capa: Ricardo Stuckert
*Malu Castro é bolsista do Programa de Extensão Jornalismo como Forma de Transformação Social no Combate à Desinformação.