Além da monogamia: histórias de quem vive outros tipos de relacionamentos amorosos
Em 2025, o Brasil teve pela primeira vez o Dia Nacional de Mobilização Não Monogâmica, com atividades em mais de vinte cidades 16 de dezembro de 2025 Rebecca Di Pardi*As formas de se relacionar afetivamente têm se transformado ao longo dos anos, acompanhando mudanças sociais, culturais e geracionais. Entre essas possibilidades, o relacionamento aberto surge como uma alternativa que questiona a exclusividade da monogamia e propõe vínculos baseados em diálogo, acordos e consentimento.
É nesse contexto que os estudantes da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), Jorge Fernando dos Humildes Neto e Emanuel Carlos Soares Bonfim, vivem um relacionamento aberto, no qual ambos têm liberdade para se envolver sexual ou romanticamente com outras pessoas, desde que respeitados os acordos estabelecidos pelo casal.
“Temos o acordo de evitar ficar com amigos muito próximos e com pessoas das quais o outro não gosta”, conta o estudante de Cinema e Audiovisual, Emanuel. “O rompimento desses combinados representa uma quebra de confiança”, complementa Jorge, que cursa Administração na Uesb, em Vitória da Conquista.
Segundo o estudo da Dive Marketing para o aplicativo Gleeden, publicado em abril de 2025, 53% dos brasileiros já vivenciaram algum tipo de relação não-monogâmica. O levantamento aponta também que 42% têm uma percepção positiva sobre esse tipo de relacionamento.
Para Emanuel, ao quebrar o padrão da monogamia, ele descobriu que é possível amar de diferentes formas. “Percebi que não preciso ancorar minhas expectativas no outro. Quando a gente entende isso, o amor flui melhor e nos desprendemos do sentimento de posse.”
Apesar da maior visibilidade das relações não-monogâmicas no Brasil, principalmente a partir da internet, Jorge ainda percebe o preconceito no seu dia a dia. “Para algumas pessoas, nossa relação é moderna e desapegada. Mas, para outras, pode parecer promíscua ou não válida. Já ouvi gente dizer que relacionamento não-monogâmico é vetor de DSTs (Doenças Sexualmente Transmissíveis)”, relata o estudante.
Origem da monogamia
O termo monogamia vem do grego monos (“um” ou “sozinho”) e gamos (“casamento”). Ele se refere ao relacionamento onde uma pessoa se envolve sexual ou romanticamente com um único parceiro. Já a não-monogamia é uma categoria ampla que abrange diversas formas de se relacionar que fogem à regra da exclusividade, como o poliamor e a relação aberta. São conexões que desafiam as normas sociais e culturais.
A estudante de Psicologia do Centro Universitário de Excelência (Unex), Fernanda Vaz Barreto, vive um relacionamento não-monogâmico com sua namorada. “Nós estamos em constante desconstrução. É triste perceber que algumas pessoas encaram as nossas vivências como modismo. O que não pode faltar em qualquer relação é o cuidado”, afirma.
No livro “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”, publicado pela primeira vez em 1884, o teórico alemão Friedrich Engels explica que a monogamia surge junto com a família patriarcal. Nesse contexto, serve como um sistema de controle da sexualidade feminina de forma a garantir a fidelidade e a geração de herdeiros.
“A consolidação de um tipo de relação como sendo hegemônica representa um trabalho histórico de longo prazo, que ocorre tanto pela prática em si quanto pela teorização sobre ela”, explica o cientista social, doutor em Sociologia e professor do Departamento de Filosofia e Ciências Humanas da Uesb, José Ricardo dos Santos.
Segundo o docente, o casamento na visão tracidicional e heteronormativa, entre homens e mulheres, serviu ao longo da história como forma de consolidação de laços políticos. Para ele, atualmente, existem novas formas de se relacionar que emergem com o surgimento de relações mais fluídas e menos formais.
Visibilidade na era da internet
Enquanto 42% da população brasileira vê a não-monogamia de forma positiva, 34% tem uma percepção negativa desse tipo de relacionamento, segundo a pesquisa da Dive Marketing. O estudo ouviu 1.773 entrevistados, sendo 60% mulheres e 40% homens. Entre os participantes, 91% são pessoas heterossexuais, 6% bissexuais, 2,7% homossexuais e 0,3% assexuais. A maioria dos respondentes (36%) possui entre 26 a 35 anos.
As características mais valorizadas nas relações não-monogâmicas, conforme o levantamento, são a transparência entre parceiros (38%) e a liberdade emocional e sexual (36%). Sobre os tipos de relações vivenciadas pelos brasileiros, 29% disseram já ter experienciado relacionamentos abertos e 20% poliamor.
Para Arú Rozza, influenciadore e multiartista, esses relacionamentos devem contribuir para a desconstrução de estruturas cis, hétero, brancas, compulsórias e capitalistas. “Se a base das relações for a anti-monogamia para além da visão compulsória da não exclusividade sexual e do casamento/casal, as relações terão como base acordos vinculados a necessidades de suporte, tempo, classe e ideais de construção coletiva.”

“Essa prática [a não-monogamia] só faz sentido quando ancorada em reflexões sobre raça, classe, gênero, neurodivergência, deficiência, peso e etarismo”, destaca Arú Rozza. Foto: Arquivo Pessoal.
Os relacionamentos não-monogâmicos não são novos, mas ganham mais visibilidade na era da internet, conforme explica o doutor em Ciências Humanas e autor do livro “Infinitos Amores – Um estudo antropológico sobre o poliamor”, Antônio Cerdeira Pilão, em entrevista ao Jornal da USP. “Essas identificações ganharam ímpeto atual que não tinham com a mesma ênfase em outras gerações. […] O número de pessoas que vivenciam relações não exclusivas consentidas é maior hoje, indiscutivelmente, do que era em outros períodos.”
O pesquisador destaca ainda que o termo “relacionamento aberto” passou a ser difundido a partir de 1972 com a publicação do livro Open Marriage: A New Life Style for Couples (Casamento aberto: um novo estilo de vida para casais, em tradução para o português), nos Estados Unidos, pelo casal de escritores George e Nena O’Neill. “Não é para dizer que o debate é absurdo, absolutamente novo, mas ganha uma visibilidade, um alcance e uma adesão hoje”, afirma Antônio Cerdeira Pilão.
Movimentos no Brasil
No dia 26 de janeiro de 2025, o Brasil teve pela primeira vez o Dia Nacional de Mobilização Não Monogâmica em 25 cidades. Na Bahia, o evento aconteceu na capital do estado, Salvador. Entre os municípios do Nordeste, Fortaleza e Aracaju também tiveram atividades em celebração à data. O movimento surgiu a partir da página Soluções Não Monogâmicas, no Instagram, criada por Luis Moreira, no Rio de Janeiro.
“Queremos mostrar que existem múltiplas formas de se relacionar além das que nos foram impostas historicamente. A não monogamia não é sobre quantidade de parceiros, mas sobre repensar papéis, acolher diferentes afetos e questionar estruturas que perpetuam desigualdades”, disse Moreira em entrevista ao Jornal Extra.
Na rede social, a página tem mais de 50 mil seguidores de todo o país. Além da presença no Instagram, a iniciativa criou grupos de WhatsApp por estados. No Nordeste, existem comunidades no Maranhão, Paraíba, Alagoas, Ceará, Sergipe, Bahia, Pernambuco e Rio Grande do Norte. O movimento realiza campanhas e propõe debates presenciais e online sobre os diferentes tipos de relações não monogâmicas.
Em janeiro de 2025, nasceu também a Associação Nacional de Coletivos e Pessoas Não Monogâmicas (ANAMOS). O grupo surgiu após a realização de 20 encontros simultâneos em 11 estados, que reuniu mais de duas mil pessoas. Em agosto, a organização já tinha mais de 250 filiados. A associação já iniciou a mobilização para a realização do 2º Dia Nacional de Mobilização Não Monogâmica.
Os grupos defendem a não-monogamia como um ato político contra uma imposição histórica sustentada pelo patriarcado. Mas isso não significa que a manutenção de diferentes formas de opressão esteja ausente nesses tipos de relacionamentos.
“Por mais que se queira comprometer com várias pautas, pessoas negras, com deficiência, velhas, gordas, todas estão dispostas em uma posição hierarquicamente inferior nas relações sociais. O que gera consequências não só para monogamia e também para relações não-monogâmicas”, disse o professor Antônio Pilão em entrevista ao G1.
Mesmo quebrando o padrão da monogamia, violências estruturais como o machismo, o racismo e o capacitismo continuam sendo parte desses relacionamentos. Por isso, para Arú Rozza, influenciadore digital, a não-monogamia não se resume à escolha de “sair do casal e flertar com quem quiser sem culpa”. “Essa prática só faz sentido quando ancorada em reflexões sobre raça, classe, gênero, neurodivergência, deficiência, peso e etarismo. É preciso desativar os dispositivos que nos fazem repetir a exclusão”, finaliza.
*Rebecca Di Pardi é bolsista do Programa de Extensão Jornalismo como forma de Transformação Social no Combate à Desinformação.
Foto de capa: Freepik

