O impacto social da cotonicultura baiana
Mais do que números de colheita e exportação, o algodão do Oeste Baiano gera empregos, capacita pessoas e contribui com programas sociais 28 de agosto de 2026 < Clara KosilekO algodão que cresce no Oeste da Bahia também deixa marcas fora das lavouras. Em Luís Eduardo Magalhães, um dos principais municípios produtores de algodão do país, trabalhadores de diferentes lugares encontram no setor oportunidades de emprego e qualificação. A cotonicultura também está presente em iniciativas de educação e inclusão social, que aproximam a atividade de diferentes públicos.
A Bahia é hoje o segundo maior produtor de algodão do país. Segundo dados fornecidos pela Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa), na safra 2025/2026 foram cultivados 418 mil hectares de algodão no estado, com uma produção estimada em 853 mil toneladas. Por trás desses números, estão também os trabalhadores que fazem parte das diferentes etapas dessa cadeia.
Há um ano e três meses, Leonardo Marcos, 32, natural do Ceará, trabalha na Zanotto Cotton, em Luís Eduardo Magalhães, onde é responsável pela classificação do algodão. Técnico em agropecuária, ele encontrou no trabalho uma oportunidade profissional que também trouxe a necessidade de viver longe de casa. “É complicado ficar longe da família, mas a gente se acostuma com o trabalho. Principalmente porque eu gosto do que eu faço”, comenta.

Leonardo Marcos, 32 anos, técnico de agropecuária na Zanotto Cotton / Foto: Clara Kosilek

Se alguns chegam de fora em busca de oportunidades, outros descobrem novas possibilidades profissionais dentro da própria região onde nasceram. É o caso de Silas Honório, de 24 anos, natural de Barreiras.
Na Icofort, empresa responsável pelo processamento do caroço do algodão, Silas atua como auxiliar de produção. Ele conta que não imaginava quantos produtos poderiam surgir de uma cultura que, até então, associava principalmente à produção de roupas. “A gente pensava que era só roupa. Não sabia que o caroço também aproveita. Tem o óleo e o línter também”, comenta.

Silas Honório, 24 anos, auxiliar de produção da Icofort / Foto: Clara Kosilek
Entre mudanças de estado e novos aprendizados, Leonardo e Silas ajudam a revelar apenas uma parte das oportunidades que surgem ao longo dessa cadeia. Com o avanço da tecnologia e a mecanização do campo, a mão de obra humana continua necessária, mas algumas funções passaram a exigir conhecimentos cada vez mais específicos e, consequentemente, profissionais mais qualificados.
Segundo Alessandra Zanotto, presidente da Abapa, a preocupação com a formação profissional surge não apenas da necessidade de mão de obra especializada, mas também da possibilidade de mostrar às pessoas os caminhos de crescimento existentes dentro da própria região. “Para que essas pessoas vejam que dentro do nosso universo do agro como um todo, elas podem se realizar profissionalmente em diversos nichos, mas que elas podem também enxergar a valorização do lugar onde elas estão”, afirma.

Alessandra Zanotto Costa, presidente da Abapa – Biênio 2025/2026 / Foto: Abapa
Quando a qualificação abre caminhos
É justamente entre a necessidade de profissionais capacitados e a busca de muitas pessoas por uma oportunidade que atua o Centro de Treinamento da Abapa, em Luís Eduardo Magalhães. Criado em 2010, o espaço já recebeu mais de 156 mil participantes em capacitações voltadas para diferentes atividades ligadas ao agronegócio. Entre elas estão cursos de operação de máquinas, aviação agrícola, drones e normas de segurança, ofertados gratuitamente e organizados de acordo com as necessidades identificadas na cadeia produtiva.
Tornar o conhecimento acessível para diferentes públicos também faz parte da proposta das capacitações. Segundo Juarez Morais, gerente do Centro de Treinamento, recursos como áudio, vídeo e imagens são utilizados para facilitar a aprendizagem e permitir que pessoas com diferentes níveis de escolaridade consigam acompanhar as formações. Para ele, a tecnologia pode transformar as atividades desenvolvidas no campo, mas não substitui a necessidade de preparar quem está por trás delas. “A inteligência artificial está tomando conta. Mas não existe nada como o ser humano. O ser não é artificial”, afirma.

Juarez Morais, 58 anos, gerente do Centro de Treinamento da Abapa / Foto: Clara Kosilek
Para quem chega ao Centro em busca de capacitação, aprender a operar uma máquina pode representar mais do que adquirir uma nova habilidade. Em alguns casos, é o primeiro passo para encontrar novas oportunidades profissionais e mudar de trajetória. Foi assim com Nara Alves de Souza.
Natural de São Gabriel, na região de Irecê, Nara nunca chegou a conhecer os pais biológicos e conta que foi adotada e criada por “mãos caridosas”. Depois de concluir o ensino médio, iniciou um curso técnico em agropecuária, mas precisou interromper a formação quando o irmão descobriu um câncer. Sem conseguir concluir o Trabalho de Conclusão de Curso enquanto o acompanhava durante o tratamento, Nara adiou os planos profissionais para estar ao lado da família.
Algum tempo depois, tentou novamente. Prestou vestibular e conseguiu uma bolsa de 80% para cursar Medicina Veterinária em Feira de Santana. Trabalhar com o agro, as fazendas e os animais sempre esteve entre seus objetivos, mas, mesmo com a bolsa, os custos para permanecer na cidade tornaram o sonho inviável naquele momento. Nara deixou o curso e se mudou para Luís Eduardo Magalhães, onde passou a morar com o irmão e buscar novas oportunidades.
No Oeste Baiano, a aproximação com o agronegócio aconteceu primeiro pelo trabalho. Nara foi auxiliar de cozinha em fazendas, passou por empresas do setor e também trabalhou em um abatedouro. Entre uma função e outra, decidiu voltar a investir na formação e chegou ao Centro de Treinamento da Abapa. Ali, realizou cursos de empilhadeira, pá carregadeira, manipulador telescópico, retroescavadeira e trator agrícola.
A qualificação abriu uma possibilidade que Nara não imaginava quando chegou ao Centro. O desempenho durante as capacitações chamou a atenção da equipe e ela recebeu um convite para integrar o próprio Centro de Treinamento. Hoje, aos 28 anos, trabalha na área administrativa da instituição e continua se qualificando.
O lugar onde Nara chegou como aluna passou a fazer parte da própria trajetória profissional. Agora, ela acompanha outras pessoas que entram pelas mesmas portas em busca de uma oportunidade. “A gente também oferta aqui treinamentos para a comunidade, todos os treinamentos são gratuitos. São profissionais maravilhosos, os meninos ensinam, têm paciência. Então, só tenho a agradecer. É muito satisfatório para mim trabalhar aqui.“, conta.

Nara Alves, 28 anos, auxiliar administrativa da Abapa/ Foto: Clara Kosilek
A história de Nara mostra como a formação profissional pode abrir novos caminhos. Mas os impactos sociais ligados à cotonicultura não se limitam à inserção no mercado de trabalho. Em outros projetos, esse contato começa ainda na escola ou alcança pessoas que buscam reconstruir sua relação com o trabalho após períodos de vulnerabilidade.
Do conhecimento a oportunidade de recomeçar
O projeto Conhecendo o Agro, programa educacional da Abapa, aproxima professores e estudantes das redes pública e privada de ensino da produção agrícola, especialmente da cultura do algodão no Oeste da Bahia. Desde a criação da iniciativa, em 2019, mais de 160 mil crianças e adolescentes já participaram das atividades.
Entre as ações estão oficinas práticas de olericultura, nas quais os estudantes acompanham desde o preparo do solo e o plantio até a colheita, enquanto aprendem sobre produção sustentável e segurança alimentar. As hortaliças cultivadas também podem ser destinadas à merenda escolar. Assim, antes mesmo de conhecer as grandes máquinas presentes nas fazendas da região, as crianças têm contato com o agronegócio a partir de algo muito mais próximo da rotina: o alimento.
Para Deibe Soares, coordenador administrativo do Centro de Treinamento, essa aproximação também contribui para mostrar que o agro não se resume às grandes propriedades ou às máquinas utilizadas na produção em larga escala. Ele está presente na agricultura familiar e nos alimentos que chegam diariamente à mesa. “O agro que alimenta, que garante empregos e sustenta financeiramente muitas pessoas”, afirma.

Deibe Soares, coordenador administrativo do Centro de Treinamento da Abapa/ Foto: Clara Kosilek
Para algumas crianças, o contato com esse universo começa como aprendizado. Para outras pessoas, a qualificação chega em um momento em que voltar ao mercado de trabalho também representa reconstruir a própria vida. É nessa perspectiva que a Abapa mantém uma parceria com a Cristolândia, instituição que acolhe pessoas em processo de recuperação da dependência de álcool e outras drogas.
Os participantes recebem treinamentos profissionais durante o período de acolhimento, com o objetivo de que retornem à sociedade com uma qualificação que possa ampliar as possibilidades de conseguir um emprego e conquistar a própria renda. “Quando a gente dá um treinamento para alguém, ali a gente está gerando
uma nova mão de obra, mas também está dando dignidade para aquela pessoa. A Abapa é uma porta de entrada para muita gente que vem de fora”, comenta Deibe.
Muito além da pluma e do caroço que seguem para a indústria, a cotonicultura também está ligada ao conhecimento de quem aprendeu uma nova profissão, à renda de quem encontrou trabalho e à oportunidade de quem conseguiu recomeçar. São impactos que não aparecem nas estatísticas da produção, mas que ajudam a dimensionar o que o algodão representa para o Oeste da Bahia.
*Reportagem produzida para a 6ª edição do Prêmio ABAPA de Jornalismo pela estudante Clara Kosilek, do 5º semestre do curso de Jornalismo da Uesb.