O ódio ao feminino: discurso e ação
A propagação de discursos neoconservadores no território brasileiro contribui para o crescimento dos índices de violência contra mulheres e homens gays 20 de fevereiro de 2026 Marcelo Júnior*Há anos dedico as manhãs dos meus fins de semana para ler jornais. Gosto bastante de sentir o cheiro e a textura do tabloide enquanto tomo o meu café da manhã. Mas, infelizmente, com o advento da tecnologia, encontrar jornais físicos está cada dia mais difícil. Isso virou, na verdade, uma missão impossível. Com a falta do jornal físico, resta-me a variedade dos “jornais virtuais”. O importante, para mim, é ler, perceber e entender as notícias dos acontecimentos sociais ao meu redor. Essa importância, em alguns momentos, parece-me sadomasoquismo*, considerando as calamidades, em seus vários sentidos, dos últimos anos.
No último fim de semana, como de costume, sentei-me para tomar um café, abri e li diferentes “jornais” no tablet. Entre um gole e outro, lia as notícias com perplexidade. A maioria das manchetes tinham uma palavra em comum: morte. Entre elas, estavam “cresce número de mortes violentas de pessoas LGBTQIAPN+ no Brasil, aponta levantamento”; “assassinato de professor expõe crescimento da violência contra pessoas LGBT+ no DF”; e “alta de feminicídios no início de 2026 acende alerta para violência contra a mulher no Piauí. No fim da leitura, o índice de assassinatos* nas últimas semanas chamou a minha atenção, principalmente com relação aos perfis das pessoas assassinadas: mulheres e homens gays.
Esse índice ecoou em minha mente no sábado e no domingo, fazendo-me refletir sobre as possibilidades de acontecimentos sociais que, de alguma maneira, promovam esse aumento significativo e assustador de assassinatos bárbaros de mulheres e homens gays no Brasil. Após esses dois dias pensando no assunto e dialogando com uma amiga sobre sua proposta de pesquisa de mestrado, que envolve debates sobre discurso e gênero na contemporaneidade, cheguei a um fator que, a meu ver, fortalece essa mazela social: o crescimento dos discursos neoconservadores no território brasileiro, sobretudo a partir das eleições presidenciais de 2018.
Em um primeiro momento, gostaria de apresentar a minha compreensão de discurso, a qual está atrelada às minhas pesquisas no campo da linguística nos últimos anos. Concebo o discurso como uma prática social histórica que cria a realidade e legitima o que pode ser dito e por quem pode ser dito, instituindo, assim, o que é considerado ou não como verdade dentro de determinada sociedade, conforme aponta o francês Michel Foucault (1996).
À vista dessa concepção, proponho pensar a contribuição da propagação dos discursos neoconservadores no crescimento de assassinatos aos corpos que, na lógica colonial e patriarcal, performam o feminino, especificamente neste texto as mulheres e homens gays. Esses discursos neoconservadores, compartilhados com mais intensidade na contemporaneidade devido à conexão às redes sociais, impõem papéis sociais ao feminino, como o cuidado, a submissão e a domesticidade, transformando-os em maneira única de existência do feminino e, consequentemente, desconsiderando outras formas de existir.
Para tanto, mobiliza-se, nesses discursos, noções vinculadas à tradição cristã ocidental, como família e submissão do feminino ao masculino. Nessa perspectiva, constrói-se o papel social de cada sujeito, causando uma divisão entre os gêneros: o homem como provedor e a mulher como cuidadora. O primeiro, responsável não apenas por prover, mas ainda, proteger. Enquanto o segundo, a partir da noção da performance masculina, ocupa o lugar de fragilidade. Esses discursos operam mediante estratégias simbólicas e retóricas que naturalizam hierarquias de gênero, apresentando-as como naturais, morais ou ordenamentos divinos (Buttler, 2018).
Assim, o feminino é discursivamente inferiorizado, não por meio de uma negação explícita de direitos inerente à pessoa humana, mas pela produção de sentidos que limitam o campo do possível para as mulheres e homens gays, estando às costas do masculino. Dessa maneira, há o silenciamento de vozes, saberes e experiências, reafirmando estruturas de poder patriarcais sob a aparência de preservação de valores ideais para uma sociedade.
Essa construção no imaginário coletivo social legitima as atitudes bárbaras dos homens na sociedade brasileira, como também retoma a construção histórica do feminino moldado pelos preceitos morais, religiosos e domésticos, como apontei anteriormente. Tal retrocesso promove uma ruptura às lutas dos grupos sociais por autonomia, representação e equidade dos sujeitos minoritários.
Trata-se de um movimento discursivo que, ao naturalizar a subordinação das mulheres, reforça práticas de controle e silenciamento, convertendo desigualdades estruturais de gênero em normas socialmente aceitáveis. Esse processo representa um grave retrocesso, pois tensiona e fragiliza as conquistas históricas das lutas sociais.
Assim, parafraseando Simone de Beauvoir: “não se nasce feminino ou masculino, torna-se”. A concepção de feminino é historicamente construída por discursos, práticas e instituições, sendo necessário desnaturalizar as hierarquias de gênero e expor o caráter político daquilo que o neoconservadorismo tenta apresentar como ordem moral imutável e natural. Essa compreensão sobre a construção de gênero na sociedade é imprescindível para apreender os mecanismos de inferiorização do feminino e, consequentemente, a legitimação das mortes dos corpos que performance o feminino.
Todavia, destaca-se que a construção de gênero, além de social, é também cultural e, por vezes, afetada pela colonização, pois as perspectivas de gênero se divergem mediante a cultura (“A invenção das mulheres”, Oyèrónkẹ Oyěwùmí), ao exemplo da cultura iorubá, que originalmente na linguagem e no tratamento não existia os artigos femininos e masculinos (“a” “o”) como determinantes de gênero, mas essa cultura passa a ser influenciada diretamente pela colonização, que passa, em alguns lugares, a adotar a perspectiva eurocêntrica de gênero como determinante e única.
Assim, compreender o “tornar-se feminino ou masculino” como um processo social e histórico de construção permite denunciar as formas contemporâneas de dominação que restringem a autonomia dos corpos femininos e reafirmar a urgência de práticas e projetos de resistência que rompam com os modelos normativos impostos, (re)colocando no horizonte a luta por equidade, reconhecimento e emancipação dos sujeitos historicamente subalternizados.
*Sadomasoquismo: neste texto compreende-se o referido termo como mecanismo de obter algo mediante a dor ou a humilhação.
*Assassinatos: usarei o termo assassinatos, tendo em vista que, neste primeiro momento, não intenciono entrar nas discussões jurídicas sobre a tipificação dos crimes, ou seja, se eles são feminicídios ou homicídios).
Ilustração de capa: Andrea Paredes | @driu.paredes
*Marcelo Queiroz Oliveira Júnior é mestre em Letras: Cultura, Educação e Linguagens pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, campus Vitória da Conquista, e doutorando em Literatura e Cultura pela Universidade Federal da Bahia. É professor na Universidade Estadual da Bahia, campus XVI.

