O racismo contra Vini Júnior sufoca dentro e fora do campo
Os ataques contra o jogador brasileiro são reflexo do sistema de opressão e discriminação que mata cotidianamente vidas negras 24 de fevereiro de 2026 Lázaro Oliveira*No dia 17 de fevereiro, nós assistimos a mais um caso de racismo no futebol, no Estádio da Luz, em Lisboa. Durante uma partida de playoffs da Champions League, o jogador brasileiro Vinícius Júnior, do Real Madrid, foi novamente alvo do sistema de opressão e discriminação que sufoca cotidianamente vidas negras.
Ao longo de oito anos no clube espanhol, Vini Jr. denunciou 20 casos de racismo. A repetição dessa violência contra um jovem preto, periférico e brasileiro que vem conquistando seu espaço, sendo eleito o melhor jogador do mundo pela FIFA em 2024, não pode ser ignorada.
Os ataques contra Vinícius são um reflexo do racismo estrutural que transcende o futebol e persegue pessoas negras em todos os espaços, inclusive de lazer, como foi o caso do psicólogo e estudante da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Manoel Rocha Reis Neto, vítima de racismo em um camarote, durante o carnaval de Salvador. Nesse caso, a violência culminou no suicídio de um homem negro.
Não é apenas Vinícius que sofre racismo, mas, nos últimos anos, ele vem sendo uma voz importante ao cobrar que sejam responsabilizados aqueles que perpetuam a violência contra a população negra. E por isso, eu, um jovem negro e apaixonado pelo futebol, sinto orgulho deste jogador que transforma dor em resistência.
O caso em Lisboa repercutiu no mundo inteiro, e alguns ex-jogadores e técnicos se posicionaram. O zagueiro brasileiro Luisão foi um deles. O ídolo do Benfica apoiou Vini, mas, após sua declaração, ele, também um homem negro no futebol, se tornou alvo do racismo. Nas redes sociais, foi ofendido e xingado de “macaco”.
Quem também se posicionou sobre o ocorrido foi o técnico benfiquista, José Mourinho. Em uma entrevista pós-jogo, ele afirmou que o jogador brasileiro comemorou de forma “provocativa”, insinuando que Vini causou o ataque racista. Um comportamento lamentável, que culpabiliza a vítima e abre brechas para que racistas justifiquem atos injustificáveis. Uma oportunidade perdida de condenar o racismo, crime previsto na Lei nº 14.532/2023.
Outra figura importante no caso mais recente envolvendo Vini Júnior é o companheiro de time, Kyllian Mbappé. À imprensa, ele defendeu o brasileiro e disse que o atacante Gianluca Prestianni, do Benfica, proferiu um termo racista cinco vezes contra Vini. Este posicionamento, vindo de um jogador como Mbappé, é essencial para não deixar morrer o combate contra o racismo no campo.
A denúncia de Vini Júnior e o apoio que recebeu de colegas fez efeito. Na tarde desta segunda-feira (23), a União das Associações Europeias de Futebol (Uefa) informou que suspendeu de forma provisória o jogador do clube português, Prestianni. Está longe do ideal, mas, para nós acostumados com simples notas de repúdio, a punição, mesmo que temporária, é um passo significativo.
O insulto racista proferido contra Vini (“macaco”) é sintoma de uma sociedade que normaliza a inferiorização e a subalternização de pessoas negras. É uma das violências em um país que ceifa vidas negras em chacinas disfarçadas de “megaoperações”. No futebol ou em qualquer lugar, o racismo sufoca e mata.
Espero que não pare por aí. Que homens e mulheres negras possam brilhar e ocupar os lugares que quiserem sem serem atacados diariamente. Que ofensas racistas não sejam toleradas dentro e fora do campo.
Foto de capa gerada por Inteligência Artificial/ChatGPT
*Lázaro Oliveira é bolsista do Programa de Extensão Jornalismo como forma de Transformação Social no combate à Desinformação.