No Brasil e em Conquista, o racismo religioso tenta apagar a cultura afrodescendente 

O país onde as pessoas pulam sete ondas e usam branco na festa de ano novo é o mesmo que oprime religiões de matrizes africanas 7 de agosto de 2025 Aelson Vasconcelos*

O país onde as pessoas pulam sete ondas e usam branco na festa de ano novo é o mesmo que oprime religiões de matrizes africanas e endemoniza as pessoas de Umbanda e Candomblé. Essa é a realidade de um Brasil que tem em sua origem a contribuição do povo negro, mas há muitos anos promove um apagamento de tudo aquilo originado da cultura afrodescendente.  

A discriminação com pessoas de axé está presente em diversos lugares do país. Em Vitória da Conquista, na Bahia, não é diferente. Foi nessa cidade onde Jamile Novaes, umbandista e comerciante de peças africanas, sofreu em 2024 intolerância religiosa por parte de uma vizinha evangélica. Esse não é um caso isolado. A Casa de Candomblé Axé de Xangô, localizada no bairro Vila Elisa, foi invadida em janeiro de 2023, e teve diversas peças destruídas. Episódios como esses são um retrato do racismo religioso e da tentativa de silenciamento da cultura negra em solo conquistense. 

O feminismo negro nos ensina a importância de nomear as opressões, já que não podemos combater o que não tem nome. Por isso, compreender como se dão essas injustiças é também uma maneira de se rebelar contra o sistema. Termos como racismo religioso e intolerância religiosa são popularmente confundidos, mas é preciso diferenciá-los para assim entender como afetam a sociedade.

O racismo religioso está relacionado à discriminação racial, quando a raça se torna um fator determinante na perseguição contra práticas religiosas. É frequentemente direcionado a religiões de matriz africana, como Candomblé e Umbanda. Já a intolerância religiosa é a aversão à prática de culto religioso, seja ele qual for.

Portanto, vale destacar dados com recortes raciais. De acordo com o Conselho Nacional de Justiça, houve um aumento de 647% nos casos de injúria racial na Bahia, entre 2020 e 2023. O levantamento também apontou um número significativo de denúncias de intolerância religiosa, representando mais de 300% nesse período. Os números revelam situações atuais com fortes influências do passado. Não é de hoje que os negros são perseguidos e impedidos de vivenciar a sua religiosidade.  

Mesmo com os avanços na legislação, como o surgimento da Lei do Racismo, em 1989, que criminaliza o ato de praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, ainda é comum a violência e o ódio contra espaços de cultos aos Orixás. Esses ataques dificilmente acontecem em templos católicos e em igrejas evangélicas. Isso não é por acaso. A discriminação sabe muito bem a cor e a raça. O que vemos é uma perseguição que tem como alvo somente o que vem dos negros. 

A escritora Bárbara Carine, em sua obra “Como ser um educador antirracista”, ensina a valorizar outros modos de ser e existir no mundo. Para ela, as culturas africanas são ricas em significados, tradições e costumes. A religiosidade negra é sagrada e merecedora de respeito. Manter viva essa ancestralidade é valorizar os que vieram antes e abriram caminhos. Quando esse direito à crença das populações negras é atacado, estamos retrocedendo como sociedade e ameaçando a cultura de um povo.  

É essencial lembrar que o Brasil é um Estado laico, conforme estabelece o artigo 19, inciso I, da Constituição Federal de 1988. Dessa forma, o país não possui religião oficial. Mais do que isso, as pessoas devem ter liberdade para professar livremente a sua fé, independentemente de qual seja ela. Mais importante ainda é gritar que as pessoas negras têm o direito de existir plenamente.

*Aelson Vasconcelos é estudante do oitavo semestre do curso de Jornalismo da Uesb e também bolsista do PET Saúde Equidade (Uesb/Ufba).

Foto: Secom/PMVC.

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