Oportunidade de empreendedorismo no espaço acadêmico: como o artesanato move a autonomia feminina na Uesb em Vitória da Conquista

Com 21 participantes fixas e uma disputada lista de reserva, o projeto de extensão da Uesb transforma o campus em um polo de empreendedorismo, se tornando um espaço para a valorização do trabalho manual 7 de junho de 2026 Estela de Assis, estudante do 3º semestre - Bolsista do Site Avoador

Por trás de cada um dos perfumes, velas, cristais e acessórios vendidos na feira da Uesb, estão mulheres que encontram no artesanato uma fonte de renda. Desde as oito horas da manhã, elas ocupam suas barracas enfeitadas pelas próprias criações. Para algumas, o trabalho artesanal já faz parte da rotina há mais de vinte anos. 

Saionará Chagas é uma dessas mulheres. Nascida na capital mineira, mora há dois anos em Vitória da Conquista. “Eu sou artesã dentro dessa área da saboaria, perfumes e velas com fins terapêuticos. Me sinto muito realizada”, afirma.

A partir do conhecimento que a sua avó benzedeira possuía das ervas, Saionará aprendeu muito do que sabe hoje pelo que lhe foi repassado. Essa tradição de transmitir o conhecimento através de gerações é comum entre as benzedeiras, e o que antes era uma memória de ancestralidade e de cura domiciliar, hoje é também uma fonte de renda para famílias.

Alguns dos produtos vendidos por Saionará. Foto: Estela de Assis

De acordo com dados da Assessoria de Comunicação da universidade (Ascom Uesb), a feira agroecológica nasceu a partir da iniciativa de um grupo de profissionais focado em oferecer alimentos livres de produtos químicos e agrotóxicos. O projeto passou a funcionar em agosto de 2018. 

No momento, a feira da Uesb reúne cerca de 21 mulheres expositoras. Assim como Saionará, cada uma delas encontrou dentro do espaço universitário a oportunidade de transformar conhecimentos em sustento próprio e familiar.

Segundo a bolsista do projeto, Luciana Oliveira, a feira conta com um cadastro de reserva que atualmente soma 40 inscritos. Desse total, 38 são mulheres que participam das exposições de maneira rotativa. 

Do regime CLT ao trabalho artesanal

Saionará destaca a preferência pelo empreendedorismo autônomo ao regime CLT, por exemplo, alegando maior identificação e realização individual. “Já trabalhei de carteira assinada, mas não me identifico muito. Eu prefiro eu mesma fazer o meu caminho, fazer a minha hora, o meu tempo.”

A decisão de Saionará reflete a busca por maior autonomia no trabalho. Esse pensamento acompanha cerca de 59% dos brasileiros que preferem o trabalho autônomo à carteira assinada, segundo o Datafolha

No entanto, o levantamento aponta um recorte importante: enquanto os jovens lideram esse desejo por autonomia, o público feminino e os profissionais mais velhos valorizam a estabilidade e a segurança financeira oferecidas pelas leis trabalhistas tradicionais.

A busca pela autonomia envolve mais do que o retorno financeiro. Segundo a psicóloga clínica Gysely Reis, pelo fato de a mulher exercer o papel de cuidadora na nossa sociedade, deparar-se com atividades que resgatem a sua individualidade, como um esporte, hobby ou o próprio artesanato, adquire um caráter reparador. Para a especialista, essas práticas funcionam como ferramentas potentes quando nos convidam a explorar novas formas de exercer papéis.

“O trabalho das artesãs, por trazer peças únicas ligadas às sensibilidades, expectativas e técnicas de quem faz. Ele tem o potencial de permitir uma reconexão ou, ao menos, traz tempo para deixar a mente fluir e processar nossas individualidades. Além do apelo econômico, ele torna-se uma brecha possível para explorar o contato consigo e a identificação se torna uma ferramenta poderosa. Uma ferramenta para voltar a prestar atenção naquilo que incomoda e angustia. Traz a sensação de responsabilidade e autonomia”, explica a especialista.

Além disso, Saionará revela não ter expectativas de se aposentar futuramente, mas reforça o amor pelo seu ofício. “Eu não vou me aposentar tão cedo. Eu não tenho essa ilusão de aposentar. Nunca tive. Eu vou viver muito, eu vou trabalhar muito. Eu gosto do que eu faço. O retorno financeiro é importante, mas eu não faço só pelo trabalho”, afirma. 

A experiência em empregos de carteira assinada também faz parte do passado de outras expositoras do campus. É o caso de Sirlene Ferraz, também artesã da feira agroecológica, que compartilha uma história semelhante de transição para o trabalho autônomo. 

Nascida na zona rural de Vitória da Conquista, Sirlene começou a bordar ainda na infância, aos oito anos de idade. Ao se mudar para a cidade, teve a oportunidade de fazer um curso de pintura. Após esse período, buscou um emprego formal, mas sem sucesso; foi a partir desse momento que sua trajetória com o artesanato começou. 

Anéis confeccionados por Sirlene. Foto: Estela de Assis

“Eu trabalhei uma vez de faxineira, lá no meu bairro mesmo, e depois desse trabalho eu não tentei mais. E também teve o do IBGE, que eu trabalhei de recenseadora, trabalhei oito meses, mas depois veio de novo a seleção e eu não quis fazer. Eu prefiro a minha área de artesanato.”

Apesar disso, Sirlene tenta conciliar as feiras de que participa com outras oportunidades de renda, mas sempre dando prioridade ao artesanato. “Eu trabalho vendendo nas feiras, porque as feiras não são todas as semanas. Como precisamos fabricar, não podemos ficar também todos os dias. Mas eu tenho também outro meio de me manter, então eu uso os dois, o artesanato que eu vendo nas feiras e outros trabalhos, que de vez em quando eu consigo.”

O papel da feira no sustento e na autonomia financeira 

O desejo de conciliar a maternidade com a geração de renda foi a principal motivação para a trajetória de Andréia Santos. Em 2021, ela começou a produzir e vender acessórios; antes disso, já havia trabalhado com a comercialização de bolos e biscoitos, impulsionada pelo gosto de cozinhar.

“Eu era auxiliar administrativa, mas depois que eu tive meus filhos optei por cuidar deles em casa. Desde então, eu sempre estou fazendo algo na área do empreendedorismo”, explicou.

Visão da barraca de Andréia. Foto: Estela de Assis

A feira não é a principal fonte de faturamento na casa de Andréia; o artesanato funciona como um complemento à renda primária trazida pelo marido. A artesã relata, contudo, a falta de valorização do setor. Segundo ela, se o preço final embutir o custo real do tempo e dos materiais, as vendas não acontecem, tornando o suporte financeiro do companheiro essencial para a manutenção do negócio.

A realidade de Andréia reflete a dinâmica da maioria das expositoras do campus. Segundo a bolsista Luciana Oliveira, a feira da Uesb funciona predominantemente como um rendimento a mais no orçamento das participantes, que dividem seu faturamento com outros eventos comerciais na cidade.

“A maioria tem como principal atividade a produção de alimentos, de artesanato ou a agricultura. A feira em si não centraliza toda a receita delas, porque essas mulheres também participam de outras feiras, trabalham em casa e vendem sob encomenda”, destacou.

Para Saionará, a venda de seus produtos, tanto na feira da Uesb quanto em outros eventos, é sua principal fonte financeira. “Eu não tenho uma segunda opção de trabalho. Eu sou artesã e a minha renda toda é oriunda das feiras”, afirma. 

Sirlene, por sua vez, expõe o desgaste físico e mental de quem tenta sobreviver exclusivamente da produção manual. “Eu tento usar o máximo possível do meu dom de criar para ter um retorno financeiro melhor para mim. É tanto que eu dou aula de artesanato, oficina, vendo em uma feira, vendo em outra, tento uma loja e não paro nunca. É exaustivo, muita gente desiste porque o retorno financeiro não é muito bom.” 

Como uma forma de resposta institucional aos desafios que cercam o trabalho autônomo, foi sancionada, no final de maio, a Lei nº 15.419. A nova legislação prevê assistência técnica, campanhas de conscientização e apoio para a participação em feiras, estimulando diretamente o artesanato feminino como alternativa para reduzir as dificuldades enfrentadas pelas profissionais. 

Comunidade acadêmica

A chegada da sexta-feira, além de ser um dia importante que marca o fim da semana acadêmica para a maior parte dos estudantes, também traz na rotina uma visita à feira agroecológica. Saionará comenta sobre a recepção que recebe dos alunos:

“Fui bem recebida aqui! Adoro essa feira da Uesb, eu me sinto muito abraçada e acolhida. Eu me sinto muito feliz de participar dessa feira”, destacou.

Essa identificação é recíproca. Os estudantes também reforçam a importância dos itens que são vendidos na feira, atraídos principalmente pela singularidade e exclusividade de cada peça. É o caso de Maitê Nolasco, estudante de Psicologia que costuma frequentar as bancas em busca de acessórios:

“O que mais me atrai é a originalidade e o cuidado por serem peças feitas à mão. Você não acha no shopping produtos com tanto cuidado, e por um preço justo que vale o trabalho feito. Além disso, há a acessibilidade de estar na universidade. Para a gente que cursa em período diurno e passa a maior parte do tempo no campus, ter essa facilidade para comprar é muito útil. Não são produtos de fast fashion nem de atacado, então há um carinho e uma qualidade muito maiores”, relata a jovem.

Para a universitária, a iniciativa dentro do espaço acadêmico cumpre o seu dever institucional, além de contribuir para a cultura local de Vitória da Conquista.

“Acho essencial, tanto para nós, como estudantes, quanto para apoiar a cultura e a mão de obra artística local. É muito importante e agrega para os dois lados. Acredito que seja, sim, papel da universidade oferecer esse apoio para os autônomos, para toda essa gama de pessoas que muitas vezes não têm apoio e muitas vezes são estudantes também. O que os estudantes mais fazem é procurar um meio de trabalho autônomo para se sustentar por conta da carga horária da universidade. Então, está muito relacionado e eu acho admirável. É um movimento que eu gosto muito e espero que continue, aumente e se desenvolva, porque o futuro está nisso”, defende.

Ao abrir as portas para iniciativas como esta, integrando estudantes e a comunidade externa, a Uesb mostra que o ambiente acadêmico também é um ponto de soluções para problemas reais da sociedade. A expectativa é que projetos semelhantes continuem surgindo e se fortalecendo, atuando em prol do desenvolvimento dos universitários e do sustento de diversas famílias. 

*Estela de Assis é bolsista do Programa de Extensão Jornalismo como forma de Transformação Social no combate à Desinformação.

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