De longas filas a alimentos mal cozidos: estudantes da Uesb denunciam má qualidade do Restaurante Universitário
Desde 2023, quando a empresa 2G2M foi contratada por licitação, o serviço é alvo de queixas frequentes. Nesta terça (28/10), alunos paralisaram as atividades nos três campi em protesto contra o restaurante 28 de outubro de 2025 **Iuri Brito, Joanderson Santos, Laína Andrade, Luiza Boa Sorte, Maria Luiza Amorim, Giovanna Souza, Arthur Vitor e Rian BorgesOs portões dos três campi da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) permaneceram fechados nesta terça (28/10) em protesto contra o não funcionamento do Restaurante Universitário (RU) em um dia letivo. A paralisação é uma resposta dos estudantes ao descaso da empresa 2G2M e da Pró-Reitoria de Ações Afirmativas, Permanência e Assistência Estudantil (Proapa) com a alimentação na instituição. Desde 2023, quando a empresa foi contratada por licitação, o serviço é alvo de denúncias frequentes, que vão desde a falta de variedade no cardápio até a oferta de alimentos mal cozidos.
Na sexta-feira (24/10), a Proapa anunciou que os restaurantes em Vitória da Conquista, Itapetinga e Jequié não funcionariam no dia 28 por causa da antecipação do feriado do servidor público para o dia 27 e da paralisação docente contra a Reforma Administrativa na quarta-feira (29/10). A determinação gerou indignação dos estudantes, já que as atividades acadêmicas aconteceriam normalmente nesta terça. “Isso ignora a realidade dos alunos que dependem do RU para se alimentar e reforça a lógica da exclusão”, afirmou o DCE – Gestão Edson Luís em comunicado publicado no Instagram.
No mesmo dia do anúncio da Proapa, o DCE de Conquista e 14 Centros Acadêmicos repudiaram a medida e cobraram do órgão o funcionamento do restaurante. A solicitação não foi atendida, então os alunos paralisaram as atividades. Mas essa não é a primeira vez que os estudantes se mostram insatisfeitos com a gestão do RU.
Estudantes da Uesb se mobilizam contra o fechamento do Restaurante Universitário. Fotos: Reprodução/Instagram
No dia 15 de outubro, o Centro Acadêmico de História denunciou o funcionamento irregular do serviço no campus de Vitória da Conquista. A empresa 2G2M não serviu o café da manhã e iniciou a oferta de almoço com atraso porque “achou que não haveria aula”, em razão do Dia do Professor.
Além da falta de organização sobre os dias de funcionamento do serviço, os discentes se queixam de encontrar insetos na comida e do descuido no preparo dos alimentos. “Já encontrei pedras no feijão e mosca morta no arroz. Depois disso, passei a evitar comer no RU”, disse Maria*. “Tive intoxicação alimentar duas vezes no mesmo mês. Fiquei sem ir às aulas por dias”, contou Pedro*.
A ausência de quantidade suficiente para atender à alta demanda, os preços elevados das refeições e as longas filas são outras críticas sobre o restaurante. “Perco até 1h30 na fila, chego atrasado nas aulas e, às vezes, ainda como em pé porque não tem lugar para sentar”, afirmou Ricardo*, que estuda em Conquista.

Desde 2023, quando a empresa 2G2M foi contratada por licitação, o serviço é alvo de denúncias frequentes. Foto: Ascom/Uesb.
Obrigações e preço
O contrato da Uesb com a 2G2M detalha um cronograma de obrigações alimentares que a empresa deve seguir. Para o café da manhã, são 7 itens obrigatórios; para o almoço, 10 opções; e para o jantar, 9 itens. Porém, um cartaz, que está estampado na parede do RU, informa serem servidos 5 itens obrigatórios no café da manhã, 5 no almoço e 5 no jantar.
Entre os dias 18 e 23 de agosto, a reportagem acompanhou o cardápio do campus de Conquista, divulgado em um grupo do WhatsApp gerido pelos funcionários da empresa. Ao analisar, percebe-se que o item 3 nem sequer foi servido durante a semana. O espaço deveria ser ocupado por uma terceira opção líquida, sendo elas mingau (aveia, tapioca ou milho), canjica ou arroz doce. Já o item 6.1, que refere-se à opção vegetariana, só foi servido na quarta e na sexta.

Atualmente, os alunos habilitados ao Programa de Assistência Estudantil (Prae) têm direito a duas refeições diárias por R$2,00 cada. Para quem não é beneficiado, as refeições ficam por R$18,00, R$22,00 e R$24,00 para café da manhã, almoço e jantar respectivamente. Já os estudantes não habilitados ao Prae têm ainda a opção de se cadastrar na Ação de Apoio Alimentar, que oferece 50% de desconto nas refeições, sendo R$9,00 o café da manhã, R$12,00 o almoço e R$11,00 a janta.
“Se o estudante come três ou quatro vezes por semana, no fim do mês, gasta quase o valor de uma bolsa”, explicou a cientista social e ex-coordenadora geral do Diretório Central dos Estudantes (DCE) – Gestão Maria Felipe, Letícia Rodrigues. “Antes, todos pagavam R$2,00. Agora, o RU virou um negócio, não uma política de permanência”, complementou.
Diferente da Uesb, outras universidades públicas da Bahia oferecem refeições por valores simbólicos, conforme mostra a tabela abaixo.

Diante da disparidade nos valores, a reportagem questionou a empresa 2G2M, porém não obteve respostas. Também buscamos posicionamento da Uesb. Em nota, a universidade afirmou que “a questão orçamentária impede a universalização do subsídio para um R.U a R$2,00, uma demanda histórica dos estudantes.” A Assessoria de Comunicação disse ainda que a gestão buscará “aporte de subsídios oriundos de outras secretarias do Governo do Estado.”
Contratação da empresa 2G2M
O contrato com a 2G2M prevê o fornecimento de refeições no formato a quilo no café da manhã, almoço e jantar. Pelo uso do espaço físico, a 2G2M paga à universidade um aluguel de R$3.500,00 mensais, de acordo com o Termo de Referência para Prestação de Serviço – SEI/GOVBA – 00061617992.
O processo licitatório que concedeu o espaço à 2GM2, a Concorrência Pública N° 002/2023, publicada no Diário Oficial 23.657, de 9 de maio de 2023, afirma que o critério de julgamento foi o “menor preço”. Mas a empresa Solange Batista Paiva ME apresentou uma proposta de R$33,75 por quilo, significativamente inferior aos R$39,96 por quilo ofertados pela 2G2M. A Comissão Permanente de Licitação (COPEL) inabilitou a Solange Batista Paiva ME, sob a justificativa de falta de comprovação de aptidão e de balanço patrimonial.
Outro documento cedido à reportagem aponta uma grave inconsistência: o primeiro pregão indicava a 2G2M como a única apta, contradizendo o Diário Oficial, que estabelecia o menor preço como critério. A concorrência foi homologada pelo reitor em 15 de maio de 2023, consolidando um contrato que, desde o início, parece favorecer uma empresa em detrimento da economia pública e da qualidade do serviço.
Luta estudantil: resistência e desafios
Uma nova gestão do DCE foi eleita no dia 15 de outubro de 2025. Mas, antes disso, as melhorias para o RU já eram uma das reivindicações do movimento estudantil, até 2024, encabeçado pela Gestão Maria Felipa no campus de Vitória da Conquista.
Leticia Rodrigues, cientista social e ex-coordenadora geral do DCE, relembra que, desde o início da gestão da 2G2M, o diálogo com a Reitoria e a Proapa foi intenso, mas os resultados ficaram aquém do esperado. “Encaminhamos ofícios, participamos de reuniões, cobramos a instalação de toldos para proteger os estudantes do sol e da chuva na fila, mas nada foi resolvido de fato”, afirmou.
A criação de uma Comissão de Avaliação do RU foi uma sugestão do estudante Rafael Mota. “O grupo seria formado por alunos, funcionários e professores da Uesb, a fim de avaliar e escutar as sugestões das pessoas que fazem uso do restaurante universitário”, pontuou. A comissão está prevista em contrato desde a entrada da empresa terceirizada, mas nunca foi criada. “Cobramos isso insistentemente, mas a universidade ignorou”, disse Letícia Rodrigues.
Diante da lentidão institucional, o DCE partiu para ações diretas. A feijoada vendida por R$1,00, organizada há um ano, foi um ato simbólico para provar que alimentação de baixo custo é possível. “A 2G2M até liberou o espaço, mas a Proapa não moveu uma palha para mudar a realidade do RU”, ressaltou Letícia.

A empresa 2G2M atende os três campi da Uesb: Vitória da Conquista, Jequié e Itapetinga. Foto: Iuri Brito.
Em 12 de junho de 2025, estudantes da Uesb de Conquista paralisaram as atividades acadêmicas, entre as pautas estava a melhoria no serviço prestado pela empresa 2G2M. O Movimento Juventude Revolução, em 16 de abril, realizou uma plenária para discutir os problemas relacionados ao RU.
Para Letícia, existe uma questão estrutural: a terceirização do RU. “Quando você entrega um serviço essencial para uma empresa, o foco deixa de ser o estudante e passa a ser o lucro”, analisou. “Precisamos que mais gente entenda que essa luta é de todos”, concluiu a cientista social.
O que diz a Proapa
Em nota enviada à reportagem, a Proapa afirmou que “a composição nutricional e montagem do cardápio é realizada pela nutricionista da empresa […] e é fiscalizada pelo gestor de contrato” e que as denúncias enviadas por e-mail são “tratadas de imediato”.
A Uesb alegou ainda que “a empresa atual não teve nenhuma contravenção que fosse passível de sanções”. No entanto, para o estudante de História, Antonio Marcos, são vários os problemas que mostram o contrário. “O RU não comporta mais todos os estudantes do campus de Conquista e o resultado disso são as filas quilométricas e o fato de muitas vezes faltar comida para alguns alunos”, disse. Já as estudantes Alice Sampaio e Larissa Azevedo*, do 4º semestre do curso de Ciências Biológicas, relataram que por conta da desorganização das filas muitos universitários se atrasam para as aulas.
A reportagem também questionou a Proapa sobre os relatórios mensais de refeições comercializadas que a empresa 2G2M deveria enviar para a pró-reitoria. Uma das solicitações dos estudantes é que os documentos sejam disponibilizados para o público como forma de transparência da gestão. Em nota, a Ascom se restringiu a afirmar que a Proapa os recebe. Sobre a formação da comissão de acompanhamento com participação estudantil, a Uesb alegou que não aconteceu por “falta de adesão”.
A universidade disse ainda que está modernizando o espaço do RU, com reforma em andamento no campus de Itapetinga e planejamento para ampliação em Conquista.
Diante das denúncias de má qualidade da comida servida pela empresa, a reportagem também buscou contato com a nutricionista que trabalha com a 2G2M. Sua atribuição contratual inclui a elaboração da composição nutricional e a montagem do cardápio. No entanto, a profissional optou por não se pronunciar.
A visão da nutrição
Segundo os estudantes ouvidos pela reportagem, os ultraprocessados, como salsicha e outros embutidos, também são frequentes no cardápio do RU. A nutricionista Karina Viana explica que a ingestão desses alimentos causa consequências a longo prazo.
De acordo com ela, os ultraprocessados são produtos altamente industrializados que recebem a adição de uma série de ingredientes como sódio, açúcares, gorduras trans, aditivos químicos e corantes. Exemplos comuns incluem salgadinhos, bolachas recheadas, embutidos (como presunto, mortadela e salsicha), refrigerantes e sucos de caixinha.
A nutricionista aponta que os ultraprocessados estão associados ao desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis, como obesidade, diabetes e hipertensão. Além disso, o consumo regular pode prejudicar a concentração, a atividade cerebral e comprometer os mecanismos naturais do organismo.
Segundo Karina, há riscos de desenvolvimento de doenças como câncer, processos metabólicos desregulados, agravamento de doenças crônicas já existentes e impactos negativos na saúde mental e no envelhecimento. “É importante priorizar alimentos in natura e minimamente processados na alimentação diária. Alimentos processados devem ser usados com cautela e os ultraprocessados devem ser evitados como hábito alimentar.”

Estudantes utilizando o Restaurante Universitário durante o almoço. Foto: Luiza Boa Sorte.
*Foram usados nomes fictícios a pedido das pessoas entrevistadas.
**Esta reportagem foi produzida como atividade da disciplina Jornalismo na Internet II pelos estudantes Iuri Brito, Joanderson Santos, Laína Andrade, Luiza Boa Sorte, Maria Luiza Amorim. Contou ainda com contribuições dos bolsistas do Programa Jornalismo de Transformação Social Arthur Vitor, Giovanna Souza e Rian Borges.
Foto de capa: Avoador
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