Dia Mundial da Conscientização do Autismo; Confira histórias de discriminação e diagnóstico
Caso de discriminação e desafios no diagnóstico reforçam a necessidade de mais informação e preparo da população em geral 2 de abril de 2025 Pedro Meireles, Nanda Deda e Clara FilippoNeste 2 de abril, celebra-se o Dia Mundial da Conscientização do Autismo, conhecido como Abril Azul, cor que simboliza calma, equilíbrio e acolhimento. A data marca um momento importante para reforçar o respeito, a escuta e a inclusão de pessoas autistas na sociedade. Além da data, os demais dias do mês de abril são dedicados à conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), com ações que buscam informar, combater o preconceito e dar visibilidade às diversas vivências de pessoas autistas , crianças, jovens e adultos.
Apesar do avanço nas discussões sobre o tema, episódios de desrespeito e exclusão ainda são frequentes. No dia 18 de março, um caso de discriminação ganhou repercussão em Vitória da Conquista, por meio de matéria na TV Sudoeste. Nesse caso, uma mãe, a Jaqueline Ferreira, e sua filha autista, Cecília Ferreira, de 9 anos, foram impedidas de embarcar pela porta do meio de um ônibus, mesmo após explicarem a condição da criança, que se agita ao passar pela catraca. A negativa da cobradora gerou uma discussão com mãe que terminou no Disep (Distrito Integrado de Segurança Pública), expondo a falta de preparo dos profissionais para lidar com pessoas no espectro.
Diagnóstico do autismo

Nina Maria Jorge: “Tomava remédios que não faziam sentido. Me sentia exausta por coisas simples. Achava que tinha algo muito errado comigo”.
Muitas pessoas só descobrem que são autistas na vida adulta, após anos lidando com dificuldades invisíveis. Segundo um estudo do Center for Disease Control and Prevention dos Estados Unidos (CDC), aproximadamente 1% da população mundial adulta está no espectro autista. É o caso da dançarina e professora de dança Nina Maria Jorge, de 24 anos, que recebeu o diagnóstico aos 23. “Eu era uma criança diferente. Mas ninguém sabia por quê”, conta. Antes disso, acumulou diagnósticos equivocados como TOC, ansiedade, transtorno bipolar e borderline. “Tomava remédios que não faziam sentido. Me sentia exausta por coisas simples. Achava que tinha algo muito errado comigo.”
Desde pequena, Nina apresentava sinais como hiperfocos, sensibilidade sensorial, empatia intensa e necessidade de rotina. “A gente aprende a se mascarar tanto que começa a duvidar da própria vivência. Já me perguntei se sou ‘autista o suficiente’ para ter acesso a direitos.”
O diagnóstico foi um divisor de águas. “Não é bom saber que você é autista. Mas é bom entender. Explica, acalma, acalenta. Acalenta a criança que foi chamada de estranha, que só precisava de um olhar diferente”, segundo Nina, a inclusão não é tratar todo mundo igual, mas garantir que as diferenças sejam acolhidas. “Autismo não tem cara. Não é frescura. E não é moda. É identidade.”
Para a psicóloga especialista em Psicanálise Lacaniana e em Docência Universitária, Marisa Fernandes Seixas, um dos primeiros sinais do autismo a ser observado na infância é quando a criança, a partir dos seis meses, não responde ao seu nome. A falta de contato visual e sensibilidade a sons, texturas e luzes, além do hiperfoco em determinados objetos, também se configuram como indicadores do diagnóstico. Ela explicou que o termo “espectro autista” serve para incorporar a diversidade de manifestações do TEA e seus diferentes níveis de suporte. O nível 1 indica a necessidade de apoio significativo para lidar com desafios na comunicação social e na adaptação a mudanças. O nível 2 envolve um grau mais elevado de suporte, com dificuldades mais evidentes no convívio e na flexibilidade de comportamentos. Já o nível 3 representa um nível severo, em que é necessário um suporte intensivo e contínuo no dia a dia. Independentemente do grau, é fundamental que a família busque acompanhamento psicológico especializado para ajudá-lo a desenvolver sua autonomia, com o intuito de trabalhar a sua interação social e regular o seu emocional.
A neuropsicóloga Maria Heloísa Silveira ressaltou o impacto que o diagnóstico do TEA pode causar na vida de uma família, e por isso é fundamental compreender sobre o transtorno e não negligenciar a busca por profissionais capacitados, para que haja maior compreensão da pessoa autista. “É imprescindível que os familiares estabeleçam rotinas flexíveis e se adaptem às mudanças, além de apresentarem maior fluidez relacionada às expectativas”, explicou.
Em Conquista, a busca por atendimento ainda enfrenta obstáculos. A cidade conta com uma unidade da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE), que oferece suporte com mais de 40 profissionais, incluindo psicólogos, neurologistas, fonoaudiólogos e fisioterapeutas. O acesso aos atendimentos exige apresentação de laudo médico e avaliação prévia da instituição. Atualmente, cerca de 200 pessoas com TEA estão em acompanhamento, outras 300 aguardam na fila de espera.
Informações falsas sobre o autismo
No Brasil, o número concreto de pessoas autistas ainda não é conhecido. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e a Organização Mundial da Saúde (OMS) estimam que atualmente cerca de dois milhões de brasileiros têm espectro autista.
As informações falsas sobre o autismo cresceram significativamente nos últimos anos, cerca de 15.000%. Segundo estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) em parceria com a Autistas Brasil, o Brasil lidera o ranking de conteúdos conspiratórios sobre o tema na América Latina e no Caribe.
Nesta quarta-feira 02/04,) no Dia Mundial de Conscientização do Autismo, o Avoador desmente 15 informações falsas sobre as curas do autismo. Entre elas o consumo de cafeína, o uso excessivo de telas e a aplicação de vacinas.