Estudante de Engenharia Florestal sofre bullying na Uesb

Ao saber dessa situação, o Colegiado do curso buscou resolver o caso com reflexões e ações entre os alunos e professores sobre práticas que provocam sofrimento no ambiente universitário 30 de outubro de 2019

Quando ingressou no curso de Engenharia Florestal da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), campus de Vitória da Conquista, no primeiro semestre letivo de 2018, o estudante que pediu anonimato* não imaginava que pudesse passar por  tanta dor por ser quem é em uma instituição pública de ensino superior. Ele chegou ansioso pelo aprendizado acadêmico, por conviver em um ambiente considerado de alto nível. No entanto, a expectativa positiva se transformou em decepção: alguns colegas de turma começaram a imitar sua maneira de falar, algo que, além de deixá-lo constrangido, o fazia se sentir “um peixe fora d’água”. O bullying passou a fazer parte do seu cotidiano na universidade.

De acordo com a Lei nº 13.185/2015, instituída pelo Programa de Combate à Intimidação Sistemática, o bullying é: “Todo ato de violência física ou psicológica, intencional e repetitivo que ocorre sem motivação evidente, praticado por indivíduo ou grupo, contra uma ou mais pessoas, com o objetivo de intimidá-la ou agredi-la, causando dor e angústia à vítima, em uma relação de desequilíbrio de poder entre as partes envolvidas”.

O termo bullying é originário de bully, que traduzido do inglês quer dizer “valentão”. Então a ação de maltratar e violentar pessoas de maneira periódica significa praticar o bullying. Dados de 2015 da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), que ouviu 13 milhões de estudantes brasileiros, detectou que 47% das crianças e adolescentes já sofreram bullying, sendo a escola o local mais comum. Só que casos como o do estudante de Engenharia Florestal mostram que na universidade também acontecem casos de violências que geram desconforto, intimidação e até mesmo sérios problemas psicológicos nos estudantes, um grupo formado por jovens e adultos, que dela fazem parte.

Apesar de ter nascido em Conquista, ele morou a vida inteira na zona rural de Aracatu, localizada a 30 km de distância da cidade. Quando ingressou na Uesb, fez alguns amigos, mas logo acabou se afastando deles. O estudante contou ainda que “as pessoas aqui meio que tem um preconceito com negócio de região”, sobretudo com sotaques e gírias típicas. Seu jeito de falar do campo virou motivo de piada dos colegas.

Frequência com que alunos do 9º ano se sentiram humilhados, provocados ou sofreram bullying. Fonte: Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar 2015/scielo.

Em sala de aula, o rapaz também presenciou pessoas imitarem o jeito de andar de um de seus colegas. Inicialmente, não se importava muito com o que acontecia, acreditava que seria algo momentâneo. “Eu achei que era uma coisa normal”, disse. Ao perceber que era o principal alvo de piadas, o estudante continuou agindo como se isso fosse comum. Mas, quando saia do ambiente acadêmico, ele se perguntava se estava fazendo algo de errado. Pensou em mudar o seu jeito de ser e de se portar. Contudo, mesmo fazendo esforço para agradar aos colegas que o tratavam diferente, ele diz que: “ninguém mudou, continuou a mesma coisa”.

As piadas e risadas mal-intencionadas de alguns colegas enquanto tirava dúvidas com professores fez com que ele ficasse mais calado durante as aulas. “Meu histórico caiu, só foi despencando, porque eu não podia falar o que eu pensava. Tinha coisa que o professor perguntava na sala e eu sabia a resposta, só que eu não falava”, desabafou. As consequências dessa situação atingiram também o seu rendimento acadêmico: o estudante só passou em uma disciplina no primeiro semestre. “Cheguei a pagar banca por dois meses. Foi bem difícil pra mim”, relembrou.

Por um tempo, o estudante manteve em segredo o que acontecia, mas chegou o momento em que resolveu dividir o que sentia com o seu colega mais próximo. Foi assim que ficou sabendo que uma ex-aluna do curso de Engenharia Florestal também havia sofrido bullying e racismo e, por isso, desistiu da graduação. Segundo o que soube, ela não apenas sofria preconceito por ser negra como também se sentia constrangida por ser chamada de “lerda”, por demorar para compreender alguns conteúdos.

Ao saber disso, ele se negou a desistir do curso para “agradar aos outros”. O estudante contou o que estava vivendo para a família e pediu sigilo. Mas, após ter ouvido o seu relato, uma de suas prima, que é egressa do curso, mandou um e-mail para a coordenadora do Colegiado de Engenharia Florestal, a professora Daise Cardoso, explicando o que vinha acontecendo. Depois de tomar essa atitude, ela contou a ele sobre a mensagem, que, então, conversou com a coordenadora sobre a situação de constrangimento e humilhação que vivenciava. “Daise me falou que ia fazer um bate-papo [com os alunos e professores] e procurar resolver a situação. E depois que fez isso, melhorou um pouco. Estou me sentindo melhor. Eles pararam um pouco”.

De acordo com a coordenadora, quando os professores do curso se reuniram para discutir ações de combate ao bullying em sala de aula, eles perceberam que o caso do estudante de Engenharia Florestal não era o único. “Cada um (de nós) foi percebendo que isso é uma situação cotidiana que, muitas vezes, a gente não percebe como sendo violenta, porque todo mundo dá risada”.

Apesar da dificuldade que enfrentava, o rapaz achou que aquela situação era passageira e que era um problema específico dele. “Ainda falei para a Daise que não queria que ela fizesse nada, porque, na realidade, achava que o problema era eu. Eu queria que ela marcasse uma psicóloga para que eu pudesse me resolver”.

Como era um grupo específico de alunos que fazia o bullying em sala de aula, ele se matriculou em apenas três disciplinas no semestre letivo que cursa atualmente para evitar tê-los como colegas. Mas isso não lhe garantiu o que esperava. O estudante desenvolveu problemas psicológicos e físicos.

“Eu perdi peso. Muito mesmo! Eu voltei a engordar tem pouco tempo. Eu estava magro demais. Eu não comia. Quando ia estudar, ficava pensando o que iria fazer quando chegasse na aula. Como é que eu devia agir? Eu ficava planejando maneiras de não deixar eles fazerem isso e acabava não estudando. E, por mais que eu planejasse, acabava acontecendo”, contou.

Além da ajuda familiar e do Colegiado, ele também disse que foi extremamente importante a mudança de atitude dos professores em sala de aula. O estudante chegou a falar sobre a situação com um dos docentes, que lhe disse que poderia ficar à vontade para se expressar em suas aulas. “Ainda tem uma coisinha ou outra, mas os professores consertam. Eles pedem para não fazer. Acho que foi uma das melhores atitudes que poderiam ter tido”.

Efeitos do bullying e a ajuda necessária

Na maioria dos casos de bullying, as palavras são as principais armas do agressor, devido ao teor pejorativo e sádico que elas podem adquirir ao serem direcionadas a um determinado sujeito. “A palavra em si, qualquer que seja, é apenas um algoritmo solto. Por mais agressiva que ela seja, tem uma conotação geral na cultura, mas não significa uma palavra de bullying se não toca alguém, se não encontra um sujeito para acolhê-la como tal. Você pode ver, por exemplo, pessoas que são apelidadas e não são tocadas. Se machuca é porque ele associa essa palavra a algo que ele já traz na sua vida”, explicou o psicanalista, Pedro Ivo das Neves.

A palavra é lançada, o tempo passa e o agressor pode até se esquecer ou não se dar conta da violência que cometeu, mas os efeitos do bullying sobre a vítima podem se estender a longo prazo. “Pode ser que o agredido se sinta em uma inibição muito forte, encolhido nas relações. O seu humor começa a abaixar e ele passa a se desinteressar por coisas que fazem parte de uma determinada circunstância de convivência social, como os estudos em sala de aula, e pode ser que mais tarde isso ainda seja constante em sua vida”, disse o psicanalista.

Crises de ansiedade, depressão e até tendências ao suicídio são alguns agravantes do bullying. “A pessoa pode até dizer ‘não, está tudo bem comigo, aquilo não me tocou!’, mas na forma de dizer você encontra muito mais do que no dito em si. É na entonação, não na palavra. É na enunciação, ao invés de ser no enunciado. São nessas entrelinhas que podemos observar que o sofrimento está presente”, destacou o profissional.

Além de analisar a maneira como a vítima de bullying se expressa, prestar atenção em seu comportamento também é importante. Mudanças no humor, irritabilidade, queda no rendimento escolar, sentimento de culpa, baixa autoestima, entre outros fatores, podem indicar que ela precisa de ajuda. Pedro ressalta, porém, que o agressor, assim como a vítima, também necessita de atenção e cuidado.

“Se alguém precisa se dirigir ao outro de forma agressiva para se sentir valorizado, há aí um problema muito grande, e a gente precisa se dar conta disso”. Por isso, para o psicanalista, somente punir o agressor não ajuda a acabar com o problema. “Os espaços acadêmicos já estão se abrindo para pessoas que trabalham com isso, que somos nós, da área da psicanálise, e também os psicólogos. Nós procuramos trabalhar principalmente com a fala, abrindo possibilidades de conversação. E nós temos dinâmicas e técnicas próprias que podem traçar uma abordagem para essa questão, tanto de um lado quanto de outro, para que, de alguma maneira, possamos ver como emergem essas debilidades do sujeito, seja daquele que sofre, seja daquele que pratica”, concluiu.

Para o estudante de Engenharia Florestal, a dor vivenciada não deve ser omitida, é essencial buscar ajuda. “Não fique pensando que aquilo vai passar, que vai se resolver, que o problema é você. O problema, você pode achar que é você, mas, na maioria das vezes, pode nem ser. Pode ser a outra pessoa. Eu guardei e sofri as consequências e, hoje, me arrependo por ter feito isso, porque se eu tivesse falado mais desde o começo, talvez eu não passasse por tudo que passei”.

Roda de conversa sobre bullying 

A coordenadora do Colegiado de Engenharia Florestal, Daise Cardoso, resolveu procurar ajuda no curso de Psicologia, que foi fundamental para intermediar a roda de conversa entre os alunos e professores. “Na roda de conversa ficou muito claro que as pessoas que fazem essas piadas também não se dão conta do quanto isso pode ser violento. Foi uma catarse. Todo mundo saiu de lá muito abalado, muita gente chorou”, destacou.

A roda de conversa entre alunos e professores do curso de Engenharia Florestal foi realizada com o apoio do co núcleo de Psicologia da Uesb. Foto: Daise Cardoso

A atividade contou com a presença do psicólogo Pedro Ivo, que realizou uma dinâmica com os alunos sobre ofensas e apelidos. Para o estudante Roberto*, a ação foi bastante positiva. “Eu gostei porque percebi que algumas pessoas que costumam rir de outras pessoas se sentiram incomodadas. Acho que elas caíram na real”.

A professora Daise Cardoso reitera que, a partir de agora, o intuito do Colegiado é se aproximar ainda mais dos estudantes que sofrem ou já sofreram bullying no curso e também daqueles que tendem a praticar a ação. E, para isso, conta com a ajuda da universidade.

A Uesb oferece atendimento psicológico gratuito de segunda a sexta-feira, das 8h às 12h e das 14h às 18 h, em seu Núcleo de Práticas Psicológicas (NUPPSI), localizado na Travessa 13 de Maio, Centro de Vitória da Conquista. Além disso, a instituição realiza, também durante a semana, um plantão psicológico no Centro Universitário de Atenção à Saúde (Ceuas), que fica ao lado do Módulo de Medicina, no campus da universidade em Conquista.

Nota de repúdio do Centro Acadêmico de Engenharia Florestal 

O Centro Acadêmico de Engenharia Florestal (Caef) emitiu uma nota de repúdio ao bullying vivenciado pelo estudante em questão e outros alunos do curso. O documento foi divulgado nas redes sociais da entidade. Segundo Fabiano Pereira, coordenador do Caef, esse tipo de prática é inaceitável, “principalmente para nós que estamos em um ambiente universitário. Devíamos ter consciência disso. Somos contra qualquer tipo de violência moral, verbal, qualquer tipo de assédio, violência psicológica, física ou virtual”.

Para Fabiano, o bullying é resultado de inúmeros preconceitos e padrões que ainda circundam a sociedade. O coordenador disse ainda que “o Centro Acadêmico está de braços abertos para ajudar, apoiar e dar qualquer auxílio a alunos com relação a eventuais dificuldades que venham a enfrentar”. De acordo com ele, agora é realizado um café mensal com os estudantes do curso no qual são discutidas problemáticas como o bullying.

* Após a publicação da reportagem, o entrevistado entrou em contato com a redação do Avoador e disse que, apesar de ter previamente autorizado a divulgação do seu nome, não se sentiu mais confortável depois da distribuição do material. Ele, portanto, solicitou anonimato. O Avoador avaliou o pedido e respeitou a decisão do estudante. 

* Os nomes de alguns entrevistados foram alterados a fim de preservar a identidade dos personagens. 

Foto de capa: Pixabay

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