Grupos de proteção, Uesb e adotantes lutam pela dignidade dos animais abandonados

Enquanto cresce o número de animais abandonados, falta uma política pública municipal, como um Centro de Zoonoses, para cuidar dessa população de seres vivos 9 de dezembro de 2020 Jamile Duarte, Mariana Aragão, Valéria Marina

“Eu estava passando Avenida Lauro de Freitas em Vitória da Conquista quando avistei alguns cachorrinhos em uma caixa para adoção do projeto Associação Amigos dos Animais (AMA). Eles tinham sido resgatados da rua. Fui então saber como era o processo de adoção, pois meu filho queria muio um cachorro”, relembrou a agente Comunitária de Saúde, Sônia Silva, que adotou há 11 anos um cachorro.

“As pessoas deveriam ter consciência e ter um olhar diferente para esses animais abandonados para vir a adotá-los um dia”, enfatizou Sônia. Apesar de defender o cuidado as animais sem lar, ela disse não ter condições de adotar mais nenhum devido as despesas para manter a saúde e um lugar ideal para a moradia do seu cachorro.  “Não adianta adotar um animal e não cuidar.”  

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o número de animais abandonados no Brasil chega a 30 milhões. Entre eles, 20 milhões são cachorros. Em Vitória da Conquista, segundo estimativa de especialista, existiam 30 mil animais abandonados na cidade em dezembro de 2019, conforme publicação do Avoador realizada na época. Durante a pandemia, esse problema aumentou ainda mais e é fácil entrar cães em bandos nas esquinas e ruas. Esses animais estão em situação de vulnerabilidade pelo abandono em que se encontram, sem cuidados nenhum. Não há na Prefeitura um programa ou política pública para cuidar deles de forma contínua e planejada. Na falta do poder do estado, grupos independentes tem assumido o papel de cuidar desses animais sem lar.

Em Conquista existem várias organizações e grupos de pessoas de proteção aos animais que atuam na cidade de

Grupo Olhar Pet Solidário indo para uma ação.

Grupo Olhar Pet Solidário indo para uma ação.

forma independente, que contam apenas com o auxílio de voluntários e doadores, sem a ajuda do governo ou de empresas. Criado há dois anos Olhar Pet Solidário (OPS) é um exemplo, já ajudou 667 animais terem melhores condições de vida. Entre as ações promovidas pela OPS, estão castrações, ações educativas para o bem-estar dos animais, intermediação de adoção e somente alguns resgates, pois não tem lugar adequado para manter esses animais nem recursos para mantê-los. Segundo Haiana Galvão, uma das idealizadoras do projeto, em 2018, o grupo pediu apoio à Prefeitura para a realização de um evento de castração de animais na cidade, mas não houve nenhuma resposta.

Hallana Andrade leva Bruce para sua nova casa.

Hallana Andrade leva Bruce para sua nova casa.

Outro grupo que atua na cidade em prol dos animais é o “SOS Amor VCA”. O trabalho de cuidados começou quando uma das responsáveis, Hallana Andrade, fazia a distribuição de sopas para moradores de rua e encontrou uma cadela recém-parida. Ela e os demais amigos da causa não dão conta de atender a quantidade de casos de abandono e maus-tratos de animais que recebem. “Não temos nenhuma fonte financeira que nos assegure e nos dê cobertura para isso”, desabafou Hallana.

Embora faltem recursos para atender a todos os animais, o cuidado e o zelo com cada um fazem parte da rotina do grupo, especialmente em relação ao processo de adoção dos animais resgatados. “Eu faço uma entrevista, vejo se realmente o perfil do animal combina com o perfil de vida da pessoa. Eu acompanho tudo. Normalmente não faço isso pelo Instagram, acho que tem que ser uma coisa pessoal”, relatou Hallana. O acompanhamento é realizado ainda depois da ação, quando o adotante precisa enviar fotos e vídeos do animal. “Costumo dizer que a gente não salva vidas para entregar nas mãos de quem não vai fazer aquela vida feliz.”

Os animais e a universidade 

Na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb),  Gabriele Marisco, bióloga e professora do curso de Biologia, desenvolve há dois anos um programa de Ações Educativas Sobre o Cuidado com os Animais Domésticos e de Rua. O trabalho é voltado para os estudantes da educação básica, principalmente nas escolas municipais de bairros periféricos e a comunidade onde elas estão inseridas. 

 Nesse período de existência, o programa, que atualmente não se enquadra mais em projeto de extensão da Uesb devido à pandemia da covid-19, já realizou mutirão de castração, ações educativas nas escolas, além de ações veterinárias do tipo vermifugação e vacinação contra a raiva.

“No primeiro ano [do projeto], houve uma parceria com a Secretaria Municipal de Saúde com a doação de vacinas da raiva e com o curso de Medicina Veterinária da FTC em que professores e alunos ficaram responsáveis pela parte clínica”, recordou a professora. Ela também identificou, nesse período, que os animais necessitavam de consultas com veterinários, mas não conseguir realizar uma parceria com as clínicas veterinárias da cidade.

Já o segundo ano do projeto foi voltado para a castração em parceria com um médico veterinário de São Paulo que possuía um castra móvel e os equipamentos exigidos para o procedimento. Por conta desse trabalho, cerca de mil animais foram castrados por preços populares. No entanto, em uma das ações que ocorreria na Uesb, não foi liberado o alvará da Prefeitura para acontecer as castrações em outubro de 2019. Então, por pressão da universidade e do contexto em que muitas pessoas aguardavam pelo procedimento com seus animais, clínicas veterinárias da cidade fizeram algumas castrações gratuitas.

O projeto foi realizado durante dois anos com os recursos dos editais de extensão da universidade, um investimento limitado que não dá conta de atender a todos os animais que precisam de ajuda. Na universidade, há também animais que são abandonados e que contam com o cuidado de professores do curso de Biologia e outras áreas e dos estudantes. Eles se revezam para comprar a alimentação e garantir um lugar confortável e afetuoso para esses animais. 

De acordo com Gabriela, em uma cidade como Conquista, terceira maior do interior da Bahia, há a necessidade urgente de um  Centro de Controle de Zoonoses e de uma clínica especializada com preços acessíveis à comunidade. Em geral, um Centro de Controle de Zoonoses municipal é o setor responsável pela prevenção e controle de doenças que atingem os animais, como a raiva que pode ser transmitida aos seres humanos pela mordida dos animais. Para isso, a vacinação frequentes dos animais ajudaria a resolver possíveis prolemas de doenças. Esse setor também realiza medidas de controle populacional de animais por meio da castração. Além disso, a educação da população  sobre a importância dos cuidados com os animais, o resgata dos bichos abandonados e o encaminhamento para o processo de adoção estão sob sua responsabilidade.

Prefeitura 

Em 2016, no plano de governo do então candidato e atual prefeito reeleito, Herzem Gusmão, havia um série de ações voltadas aos animais da cidade, como castração de cães e gatos, além de estudos para a implementação do Centro de Zoonoses. Durante o seu mandato, não foram realizadas ações significativas em relação à questão. Somente em 2020, período de eleições, foi realizada uma campanha de vacinação antirrábica de gatos e cachorros nos meses de setembro e outubro, na cidade e na zonal rural. Durante o debate, na véspera da votação, dia 27 novembro, o prefeito citou a existência do Centro de Zoonoses, cujo funcionamento não foi confirmado.  A  Prefeitura foi procurada pela equipe do Avoador para se pronunciar sobre os animais abandonados e a implantação do Centro de Zoonoses em Conquista. No entanto, até a data de publicação desta reportagem não houve uma resposta. 

Fotos: Hallana Andrade/Olhar Pet Solidário

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