A narrativa de quem ensina a contar histórias

Professora e pesquisadora Élica Paiva conta o percurso de construção do livro "Narrativas de histórias de vida como formação de si", resultado de sua tese de doutorado 10 de maio de 2018

Um livro de leitura leve, divertida e emocionante, onde uma pesquisadora curiosa entrelaça sua vida com o cotidiano de adolescentes moradores do povoado Maracujá, localizado na cidade de Conceição do Coité. A sua busca é pela história dessa comunidade e de seu povo. Os relatos descritos na obra “Narrativas de Histórias de vida como formação de si: um jogo com adolescentes no povoado do Maracujá” contam com palavras regadas a amor e delicadeza, o desafiador e emocionante processo de descoberta da biografia de um local, através da experiência de vida de jovens e velhos que vivem a dura realidade do sertão nordestino.  .

O Avoador conversou com a professora Élica Luiza Paiva, autora do livro, fruto de sua tese de doutorado. A entrevista, que mais pareceu uma “desentrevista”, como ela mesmo nos disse, revelou mais do que um aprofundamento acerca do livro, cuidadoso em quesitos que vão desde à escrita até a edição e a capa. Foi possível mergulhar em histórias, memórias e passados transformadores do presente.

Paiva é jornalista e mestre em Comunicação pela Universidade de Marília (UNIMAR). Tem doutorado em Educação pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e, atualmente, é professora adjunta do curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), onde ministra as aulas das disciplinas Narrativas Jornalísticas, Gêneros Jornalísticos e Semiótica.  Também é coordenadora do Grupo de Pesquisa e Estudos Narrativas, Formação e Experiência (Naforme). Essa é Élica, e ela nos contou um pouco sobre esse projeto tão especial, desde a produção até o lançamento.

O livro “Narrativas de Histórias de vida como formação de si: um jogo com adolescentes no povoado do Maracujá” é a sua tese de doutorado, poderia nos contar como foi o processo de escrita deste livro/tese?

O processo de escrita começa assim que você se interessa em entrar para o doutorado. Escreve seu projeto de pesquisa, passa por uma seleção, faz umas disciplinas no início e depois só fica escrevendo. São quatros anos de doutorado e você fica dois anos só para pesquisar e escrever. No meu caso, eu mudei o meu projeto no meio do doutorado, então foi complicado porque eu não tinha ido ainda a campo. A minha pesquisa foi no povoado do Maracujá, e eu não conhecia as pessoas que seriam pesquisadas, não conhecia o lugar. Tinha intenções de pesquisa, mas não sabia como aquilo ia se desenvolver junto às pessoas. Por conta disso, foi um processo difícil. Só depois eu tive acesso ao Maracujá, então surgiram algumas  questões: a insegurança da pesquisa; a insegurança sobre o método que se está utilizando; o como  se portar em campo, porque era a primeira vez que eu pesquisava gente. Quando fui a campo, foi um processo de aprendizagem meu, e todo processo de aprendizagem é difícil. No início, estava com bloqueio de escrita, continuei lendo, lendo e lendo, depois entrei num processo depressivo. Eu pedi para uma amiga digitar para mim, ela digitou 80% do texto da tese. Eu ficava deitada e ditando para ela, porque lembrava do que havialido e sabia aonde estava nos livros também, então os deixava por perto e ia ditando. Quando o texto já estava adiantado, eu consegui ir para o computador e fui fazendo a revisão, organizando e a narrativa tomando forma. A parte final fui eu mesma que digitei. Então, foi um processo de autoconhecimento e de autoformação, mais do que a intenção de formar o outro.

Ao transformar a tese em livro, houve alguma mudança?

Poucas alterações. No texto da tese tinha a questão do tempo, então só organizei o tempo cronológico dos acontecimentos. Os agradecimentos tiveram que ser diminuídos, porque na tese eles eram extensos. Não teve alteração de texto, de conteúdo.

Élica durante entrevista com o Avoador. Foto: Avoador.

Qual foi sua maior aprendizagem no Projeto Maracujá?

Eu acho que a aprendizagem de sempre, aprender a lidar com gente. É se debater na questão de saber lidar com o outro, de saber lidar com que o outro reflete na gente. Porque quando você está com uma equipe de pesquisadores, não é diferente do que vocês passam quando vão fazer trabalho juntos, a diferença é que as pessoas têm títulos, mas continuam sendo gente, tendo dificuldade de convivência. Outra coisa que aprendi também é que pesquisar pessoas, situações e lugares é muito mais envolvente e interessante do que pesquisar produtos de mídia. Acho que quanto mais eu estiver próxima de quem eu sou, dos meus sentimentos, mais tenho a possibilidade de escrever com atenção e com a compreensão de quem o outro é, isso foi um aprendizado pra mim também. Às vezes eu ficava esperando estar bem para fazer qualquer coisa, e eu não preciso estar necessariamente bem para fazer qualquer coisa, e isso é um aprendizado.

“Pesquisar pessoas, situações e lugares é muito mais envolvente e interessante do que você pesquisar produtos de mídia”

Como surgiu a ideia do projeto Maracujá? E por que da escolha do povoado Maracujá?

A ideia do projeto e o local não são meus. O Projeto Maracujá foi coordenado pela professora doutora Rosane Meire Viera de Jesus, da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), de Conceição do Coité.  Ela fez esse projeto em formato de pesquisa e extensão, chamado por nós de Projeto Maracujá. A intenção desse projeto era trabalhar com cultura, com as memórias e a história do povoado. Era um projeto bem amplo de pesquisa que envolvia equipes, não só de pesquisadores, mas muitas outras pessoas. Minha pesquisa surgiu dele, mas minha parte, enquanto pesquisadora do Projeto, era mobilizar os adolescentes a se interessarem pelas memórias dos velhos do lugar e, depois, transformá-las em narrativas para documentários. A ideia inicial era produzir documentários, só que depois que fomos a campo essa possibilidade se tornou inviável. O produto final do Projeto Maracujá foi um docudrama.

Houve alguma dificuldade em lidar com as pessoas?

Não. Eles são muitos queridos. A questão de lidar com o outro é no sentido de, quando você chega num doutorado, a ideia que se tem é a de que você sabe muita coisa, que você tem domínio sobre o método, sobre os autores, e então o seu entorno olha para você como se já tivesse esse domínio ou a obrigação de ter. Se não é assim, eu me sentia dessa forma, vigiada, e isso me incomodava. Eu era uma pessoa que precisava de ajuda, não no sentido de que fizessem o trabalho para mim, mas de orientação. Orientação de livros, de ter alguém para discutir comigo sobre alguns temas. Era como se alguém dissesse: “poxa, você não sabe ainda isso, você ainda não entendeu essas coisas”…. É essa a dificuldade que tive de lidar, internamente, com o outro: o que não me ajuda a me formar. E foi uma dificuldade que levei até o dia da minha defesa.

Como foi o processo de pesquisa com as histórias de vida como dispositivo de formação?

Falando objetivamente, fui a campo sem saber como e o que fazer. Quando comecei a conhecer mais as pessoas pesquisadas e saber o que elas gostavam de fazer, a maneira como elas olhavam as coisas, se elas ouviam ou não as histórias dos velhos, se elas sabiam ou não a história do Maracujá foi quando também começamos a olhar pra mim e a me questionar: se eu fosse maracujaense, como iria ficar interessada em saber histórias dos meus antepassados. Agora, esse exercício não foi pensado só por mim, mas pela equipe do projeto. Então, o planejamento das atividades com intenções formativas foi feito a partir dessas possíveis respostas. Eu olhava para o outro que estava em campo e, depois, olhava para mim e pensava em o que planejar e organizar para levar ao campo, de novo. Então, essa foi a ideia do jogo jogado e do jogo planejado. Íamos para o Maracujá, observávamos, conhecíamos, voltávamos, planejávamos (Jogo planejado). Retornávamos ao povoado com o planejamento, fazíamos as atividades, verificávamos o que dava certo e o que não dava (jogo jogado)… Voltávamos de novo para um novo planejamento considerando os não acontecimentos das propostas….

O livro foi lançado no dia 3 de abril no Teatro Glauber Rocha. Foto: Avoador.

No lançamento do livro, você disse que “livro é como uma vida”. O que isso significa?

Porque a escrita da gente é como a vida. A gente traz tudo que a gente aprendeu para o texto, e não aprendemos nada sozinhos. A gente não vive sozinho, a gente vive sempre com os outros, a gente só tem a ideia que vive porque a gente vê a vida por meio dos outros. Então, o livro é como uma vida, porque a gente leva para ele todas as experiências vivenciais, seja um livro falando sobre situações reais, como também um de pesquisa. Até os livros inventados advém da vida que a gente vê, do mundo que a gente vê.

“Porque a escrita da gente é como a vida. A gente traz tudo que aprendeu”

O que é uma pesquisa-formação heterobiográfica? E por que você a escolheu?

A metodologia da pesquisa-formação heterobiográfica é uma junção de duas metodologias de autoras distintas. Pesquisa-formação é de Marie Christine Josso e heterobiografia é de Christine Delory-Momberger. Ambas as metodologias trazem as experiências de vida como base de e para a formação. Então, a pesquisa-formação foi utilizada nas intenções dos planejamentos das atividades que levamos para os adolescentes, porque queríamos que eles se formassem, que aprendessem a fazer um filme, que soubessem sobre a história do lugar em que moram. E ao se mobilizarem para ouvir as narrativas de vida dos velhos e se perceberem conhecedores e partícipes dessas histórias, aconteceu a heterobiografia. Logo, a heterobiografia é quando as suas experiências de vida se deparam com as experiências de vida de uma outra pessoa que conta a você sobre o que viveu. Quando você se reconhece na história que o outro conta, acontece a heterobiografia: que é a interpretação de si por meio das narrativas experienciais de uma outra pessoa.

Por que você escolheu nomes de flores da caatinga para identificar os adolescentes?

Quando a gente faz pesquisa com criança/adolescente não pode expor o nome deles. Tem gente que enumera, adolescente 1, adolescente 2, ou adolescente A, adolescente B. Eu não queria fazer isso, porque eles são pessoas. Eu pensei primeiro em nomes de passarinhos, mas os nomes têm essa ideia de masculino e feminino. Depois pesquisei sobre flores da caatinga e encontrei um catálogo de todas as espécies encontradas na caatinga brasileira, e os seus nomes fogem da dimensão marcada de masculino e feminino. Levei a proposta para a minha orientadora e ela aprovou. Cuidei para que cada adolescente recebesse o nome de uma flor que condizesse com a forma com que eu o via.

Por que a escolha da Editora Chiado?

Eu não sei dizer por que. Primeiro, tem a parte que eu mandei o texto para várias editoras. A Chiado foi uma das que me respondeu, não sei se foi a única ou uma delas. Eu mandei no final de 2015, não lembro direito. E escolhi a Chiado porque eu acho que o Maracujá poderia ser conhecido lá fora também, poderia ter escolhido uma editora daqui, mas aqui eu poderia falar do Maracujá e lá fora, não sei, imagino que não. E como ela é de Portugal, um país que fala nossa língua, seria a possibilidade dessa pesquisa ser conhecida geograficamente mais distante daqui, também foi por isso. Além disso, a Chiado teve interesse em publicar.

Qual a relação que você tem hoje com as pessoas da comunidade?

Eu mantenho contato com eles. Têm dois que estão morando em São Paulo. Um deles já tem uma menininha. Três já têm filhos.  Converso com eles pelo WhatsApp e pelo inbox do Facebook.

O que você espera que as pessoas levem para a vida delas por meio do seu livro?

Eu não espero nada, na verdade. Eu nem sei se vão parar para ler. Eu acho que eu queria que elas percebessem que o não saber não é um coisa ruim, se você faz dele uma vontade de aprender. É disso que o livro fala também, do meu não saber o que fazer em determinadas situações de pesquisa. E que são essas incertezas que fazem a pesquisa ser chamada de pesquisa, é o que leva a gente fazer ciência.

Por que que escrever é tão aterrorizante?

Talvez mais aterrorizante pra quem tenha baixa estima, não sei. Porque as pessoas vão conhecer o que você pensa, tem coisa mais aterrorizante que isso? Quando as pessoas sabem o que você pensa, elas podem te julgar, e às vezes você pode não saber lidar com esse julgamento, e não estou falando só do julgamento negativo. Mas o medo de não saber lidar com isso, ou não querer lidar com isso.

A capa foi você mesma que escolheu?

A partir do conteúdo e do título, a editora faz a arte da capa e envia para a gente. No meu caso eu aprovei a primeira que me mandaram. O quebra-cabeça de uma imagem de cabeça traz a ideia de (auto)formação, conhecimento de si, de jogo. É uma boa representação para o texto. Além disso, a capa com fundo branco e sem muita informação me agradou.

Qual o maior aprendizado que você leva do livro?

Que a gente sempre precisa dos outros, sempre. Que as relações que a gente constrói nos ajuda a atravessar a vida. Se não fosse minha família e meus amigos, que participaram ativamente desse processo do doutorado, eu possivelmente não teria chegado até o final dele. Por inúmeras questões, existenciais mesmo. Então o que eu levo é isso: não dá para gente passar pela vida sozinho, e que é uma necessidade nossa construir e cuidar daquela oportunidade que nos aparece no caminhar, no cotidiano, no dia a dia. E que também as coisas têm um fim, tudo tem um fim. Esse foi o maior aprendizado. Meu pai sempre diz: “Ainda bem que tudo tem um fim”, e isso é fato. O livro já acabou. Para mim, já terminou. Se não fosse a necessidade de tornar público e passar por esse ritual de lançamento, eu não teria feito lançamento. Porque no dia que eu o mandei para editora, para mim, acabou ali. O livro acabou ali, não faz mais sentido eu ficar nele, já acabou, agora ele é outra coisa.

“(…) não dá pra gente passar pela vida sozinho. É uma necessidade nossa construir e cuidar daquela oportunidade que nos aparece no caminhar, no cotidiano, no dia a dia”

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