Quem canta, a ditatura espanta

As músicas de protesto fazem parte da história brasileira, e não foi diferente na Ditadura Militar 4 de outubro de 2018

No Brasil, certos períodos históricos estão mais marcados em nossa memória pela associação que fazemos com determinadas músicas. Desde as primeiras décadas da República, passando pela época de JK e pela Ditadura Militar até o período após a redemocratização, existiram melodias que até hoje são lembradas como a trilha musical daquele momento.

O “Corte da jaca”, de Chiquinha Gonzaga, por exemplo, embalou o governo do oitavo presidente do país, Hermes da Fonseca (1910 – 1914), quando a então primeira-dama Nair de Tefé, amiga de Chiquinha, tocou ao violão a música em uma recepção no Palácio do Catete, residência oficial do presidente da República. A Bossa Nova chegou a apelidar o governo de Juscelino Kubitschek (1956 – 1961), que ficou conhecido como como o “presidente Bossa Nova”, por seu espírito jovem e empreendedor. Nos tempos de José Sarney (1985-1990), predominaram as guitarras e baterias das bandas de do rock, como Legião Urbana, com o hit  “Que país e esse?”, e Cazuza, com a canção “Brasil! / Mostra tua cara”, tema de abertura da novela Vale Tudo, da Rede Globo. Sobre o governo de Collor (1990 -1992), o violão de Chitãozinho e Xororó chorou as canções românticas do sertanejo.

Mas foi no período da Ditadura Militar no Brasil (1964 – 1985) que os compositores, cronistas do seu tempo, ligados especialmente às ideias de esquerda, se mobilizaram para produzir músicas que, nas entrelinhas, protestavam contra a repressão instalada pelos generais e intensificada pelo AI – 5 (Ato Institucional número 5). Esse decreto foi assinado pelo presidente general Artur Costa e Silva, que deu um golpe dentro do golpe, passando a ter poder absoluto que o permitiu fechar o Congresso Nacional e iniciar uma censura ao jornais, artistas e obras do país.

Para o professor do Departamento de História (DH) da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), Carlos Alberto Pereira, a mesma classe média que apoiou o golpe de 1964 começou a contestá-lo quando o tal “milagre econômico” propagado pelos militares entrou em crise e houve uma diminuição do ritmo do crescimento da economia.  É nesse processo que entra a contestação dos artistas filhos da classe média, que eram estudantes universitários e tinham acesso ao conhecimento e à informação.

A chamada canção de protesto foi a primeira tentativa dos compositores de se mobilizarem contra a ditadura. Saía de cena o erudito da Bossa Nova e entrava no palco as canções de denúncia como uma forma de resistência. Segundo Carlos Alberto, “o que predominou nessa década de 1970 foram as músicas que questionavam o poder dos militares e defendiam a liberdade do povo brasileiro”.

O também professor do curso do DH, José Dias, diz que as músicas de protestos tiveram um papel importante para deter a ditatura. O seu sentido poético foi um dos elementos que lhes possibilitou serem assimiladas e difundidas de forma rápida entre o público.  “Ao cantarem as músicas de protesto, as pessoas fixavam na sociedade brasileira o seu desejo de rompimento com a Ditatura”, completa.

Cantores da MPB como Caetano Veloso encabeçaram o movimento conhecido como Tropicália. Foto: Cultura Brasil.

Grandes nomes da MPB (Música Popular Brasileira) que fazem sucesso até hoje, como Milton Nascimento, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Ivan Lins, eram compositores e interpretes que iniciaram suas carreiras naquela época. Eles eram os cantores favoritos da classe média e suas canções traziam questões relacionadas ao sumiço de pessoas, à morte de amigos, à suspensão da liberdade, ao exílio e outros tipos de violências da Ditatura Militar. “Eles protestavam contra a forma autoritária do governo militar, sendo uma forma de denúncia, apesar da censura”, explica.  São por essas canções poéticas que a história daquela época pode ser conhecida para ser jamais esquecida.

O amor e o poder

Enquanto a classe média ouvia a MPB nos anos de 1970, no quartinho dos fundos, os empregados, a classe mais pobre, ouviam e admiravam as músicas bregas. À sua maneira, eles também questionavam a ordem estabelecida com músicas que traziam crítica social e comportamental.

“A música popular cafona, ou a chamada música brega, como as canções compostas por Waldick Soriano, Odair José, Luiz Rajão, tocavam em temas comportamentais que inquietavam os interesses dos militares”, explica Carlos Alberto.

No período do “milagre econômico”, o próprio presidente, o general Emílio Garrastazu Médici, admitiu em seu discurso oficial: “se a economia vai bem, a maioria do povo vai mal”. E foi para aqueles que estavam sofrendo do bolso e de coração partido que Waldick Soriano cantou: “Eu não sou cachorro, não / Para ser tão humilhado / Eu não sou cachorro, não / Para viver tão desprezado”, canção esta que até hoje é cantada, e que se tornou um clássico popular da música brega brasileira.

Músico Odair José tecia críticas à ditadura em suas músicas românticas. Foto: Memórias da Ditadura.

Enquanto a ditadura patrocinava uma campanha de controle de natalidade por meio de cartazes que diziam “Tome a pílula com muito amor”, do outro lado do rádio, as mulheres ouviam Odair José confrontar a campanha cantando: “Pare de tomar a pílula / Pare de tomar a pílula / Porque ela não deixa o nosso filho nascer”. Com a ditadura matando, torturando e sumindo com pessoas e censurando as palavras em canções, Waldick Soriano fez a música intitulada “Torturas de amor”, cuja letra dizia: “Hoje que a noite está calma / E que minh’alma esperava por ti /Apareceste afinal /Torturando este ser que te adora/”. Apesar de proibida de ser tocada nas rádios, ela alcançou o sucesso entre o público.

Se a simples menção da palavra tortura que remetia aos porões da ditatura era vedada, falar então das pessoas que desapareceram estava fora de cogitação. Foi isso que motivou o veto à canção “Meu pequeno amigo”, que trata do sequestro do menino Carlos Ramires da Costa, no Rio de Janeiro em 1973. “Não adianta procurar / Quem viu não vai falar / E o sonho terminou / Digam pra mim / Digam pra mim onde está / E o que foi que fizeram / Com o meu pequeno amigo”, diz a letra. Por não mencionar o nome do menino na canção, os censores entenderam que a obra poderia dar margens a outras interpretações, já que remetia ao sofrimento de familiares e amigos de tantas outras pessoas que estavam desparecidas. O autor só conseguiu a liberação após colocar um subtítulo: “Tributo a Carlinhos”.

Entre as famosas expressões populares brasileiras, há: “Quem canta, seus males espanta”, e durante a Ditadura Militar,  as canções mostraram a sua força como obra artística e como maneira de resistir à violência do período e lutar pelo reestabelecimento da democracia.

Foto de capa: Historiando.

 

 

 

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