Por que estudar português?
Estudar português é desvendar os perigos e os prazeres presentes naquilo que diferencia os seres humanos dos demais animais: a linguagem. 1 de agosto de 2025 Marcelo Júnior*Essa é uma pergunta que sempre ouço dos alunos nas minhas aulas. Contudo, neste ano, ela ressoou em mim de maneira mais acentuada. Está em meus pensamentos desde o primeiro dia do ano letivo, quando a ouvi de alguns discentes durante a dinâmica de apresentação. Em outro momento, eu responderia para eles: para um exercício pleno de cidadania, afinal é o que dispõe os documentos norteadores da educação básica. Mas, pensando no atual contexto social, cultural e econômico, percebo que essa resposta é vaga e incompleta.
Ler, hoje, requer expertise. Tem leitura para todos os gostos, idades, gêneros e opiniões. Precisamos apenas escolher o blog, o site, a rede social. É o melhor dos mundos: aumentou a possibilidade de leitura e a variedade de conteúdos disponíveis. Agora, não há como argumentar que não se lê por falta de grana para comprar livros, jornais e revistas, pois com apenas um clique se acessam infinitos assuntos.
Contudo, com esse aumento na possibilidade e na variedade de leitura, aumenta-se também a necessidade de atenção ao que se lê. Assim como antes era difícil o acesso, também era mais difícil a propagação de informações mentirosas, o que conhecemos atualmente como Fake News. Antes, para acessar as informações, era preciso ler os jornais, as revistas ou os livros disponíveis nas bibliotecas e/ou bancas de revistas. Era, para geração passada, a maneira prática e direta de manter a informação em dia.
Hoje, na era digital, existem vários meios de acesso à leitura e, consequentemente, à informação. Revistas digitais ou físicas. Blog de fofoca, política e economia. Páginas de notícias no Instagram, Tik Tok, rede X ou Facebook. Dessa maneira, as notícias se espalham e somem na mesma velocidade. Elas se tornam voláteis. O que ontem foi noticiado, hoje é esquecido. O que hoje é tido como tendência, amanhã será considerado fora de moda.
Há um trânsito intenso de informações circulando entre os sujeitos. As leituras são feitas no sentido literal, mecânico, rápido. O sentido dado às leituras é inconsistente e tendencioso, tendo em vista que uma leitura aligeirada produz um entendimento com escassez de criticidade e atenção à raiz do que está sendo lido. Há acesso instantâneo ao que acontece nos diferentes países, esse é o prazer propagado pelo mundo hiper-conectado.
Mas, junto com essa facilidade de acesso, chegou as campanhas de desinformação, as “milícias digitais do mal”, a guerra de informação. São essas questões que ligam os sujeitos às redes sociais, por isso, ler, no atual cenário, não é para amadores. As aulas de português ensinam, através da leitura de diferentes gêneros textuais, a interpretar as informações que chegam às pessoas. É através da linguagem que se espalha ou encerra os fluxos intensos de desinformações que provocam grandes danos à sociedade. É pela/na linguagem que se (des)constrói uma sociedade.
Estudar português é desvendar os perigos e os prazeres presentes naquilo que diferencia os seres humanos dos demais animais: a linguagem. É, através do letramento, atribuir sentido ao ato de ler e escrever no nosso cotidiano, de modo a contextualizar e valorizar os aspectos e interações históricas e socioculturais que envolvem o processo da comunicação oral e escrita.
Imagem: Hacemos Escuela
*Marcelo Queiroz Oliveira Júnior é mestrando em Letras: Cultura, Educação e Linguagens pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, campus Vitória da Conquista. É professor de língua portuguesa, literatura e redação. Estuda a língua(gem) nos pressupostos teóricos de Deleuze e Guattari, políticas linguísticas e direitos linguísticos.
Texto maravilhoso!!!