Quem é Bad Bunny, primeiro artista latino a se apresentar solo no Super Bowl
Trajetória do cantor porto-riquenho reúne ascensão musical, reconhecimento internacional, posicionamento político e valorização da cultura latina em apresentação histórica na NFL 11 de fevereiro de 2026 Sarah Andrade*Benito Antonio Martínez Ocasio, conhecido como Bad Bunny, tornou-se o primeiro artista latino a realizar uma apresentação solo no show do intervalo do Super Bowl, no último domingo (8), na Califórnia, nos Estados Unidos. A participação no principal evento esportivo norte-americano ocorreu em um momento marcado por manifestações públicas sobre imigração, identidade latina e a condição política de Porto Rico.
Natural de Vega Baja, município de Porto Rico, Bad Bunny é filho de uma professora de inglês e de um caminhoneiro, e demonstrou interesse pela música ainda na infância, fora dos circuitos tradicionais da indústria fonográfica. Antes da projeção internacional, cursava comunicação audiovisual na universidade e trabalhava como empacotador de supermercado.
Em 2016, ele passou a divulgar músicas de forma independente na plataforma SoundCloud, onde chamou atenção por uma sonoridade que mesclava trap latino, reggaeton, hip-hop e ritmos caribenhos.
A apresentação no Super Bowl marcou sua estreia como atração principal do evento, após participação em 2020 ao lado de Shakira e Jennifer Lopez. O anúncio do cantor como show do intervalo, feito em setembro de 2025, gerou reações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que criticou publicamente a escolha. Após a apresentação, Trump voltou a se manifestar contra o uso do espanhol no palco e contra a mensagem transmitida.
Ao reunir trajetória independente, recordes na indústria musical, presença cultural e posicionamento político, Bad Bunny amplia a presença da música latina em espaços centrais do entretenimento e do debate público internacional, tendo o Super Bowl como um dos principais marcos dessa trajetória.
Cultura latina e posicionamento político
Na música e fora dela, Benito mantém posicionamentos públicos relacionados à imigração latina e à condição política de Porto Rico. Em entrevista à revista I-D, em 2025, explicou a decisão de não realizar apresentações da atual turnê “Debí Tirar Más Fotos World Tour” nos Estados Unidos, citando preocupações com ações do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) e seus impactos sobre o público latino.
Durante discurso no Grammy, em 1º de fevereiro deste ano, o cantor voltou a abordar a situação dos imigrantes nos Estados Unidos, criticando ações do ICE e defendendo que o ódio não seja respondido com mais violência.
O álbum “DeBÍ TiRAR MáS FOToS”, de 2025, também aborda o status político de Porto Rico, território dos Estados Unidos desde o século XIX. Apesar da cidadania norte-americana, a população da ilha não possui direito ao voto presidencial nem representação plena no Congresso, que controla aspectos políticos e econômicos do território.
Reconhecimento internacional
Em 2018, Bad Bunny participou da canção “I Like It”, ao lado de Cardi B e J Balvin. A música foi indicada ao Grammy na categoria Gravação do Ano. Em 2020, lançou “Yo Hago Lo Que Me Da La Gana”, vencedor do Grammy de Melhor Álbum Latino Pop ou Urbano. No mesmo ano, publicou “Las Que No Iban a Salir” e, posteriormente, “El Último Tour del Mundo”, trabalho que lhe rendeu o Grammy de Melhor Álbum de Música Urbana em 2022 .
Em 2022, lançou “Un Verano Sin Ti”, que permaneceu 13 semanas na liderança da lista Billboard 200 e se tornou o álbum mais reproduzido da história do Spotify . O projeto também foi indicado ao prêmio de Álbum do Ano no Grammy. Bad Bunny foi o artista mais ouvido do mundo na plataforma Spotify nos anos de 2020, 2021, 2022 e 2025, superando outros nomes da música global como Drake e Taylor Swift.
No início de 2025, lançou o disco “DeBÍ TiRAR MáS FOToS”, que ultrapassou oito bilhões de reproduções no Spotify. O trabalho garantiu ao cantor 12 indicações ao Grammy Latino, com com vitórias nas categorias Álbum do Ano, Melhor Álbum de Música Urbana, Melhor Canção Urbana, Melhor Performance de Reggaeton e Melhor Interpretação Urbana/Fusão Urbana.
Na 68ª edição do Grammy, em fevereiro, Bad Bunny venceu três categorias das seis indicações totais, entre elas, Melhor Álbum de Música Urbana, Melhor Performance Musical Global por “EoO”, e Álbum do Ano, sendo o primeiro disco 100% em espanhol a ganhar a categoria mais importante da premiação.
O disco apresenta uma narrativa sobre a história e a cultura de Porto Rico, tratando de temas como colonização, diáspora e identidade cultural em faixas que utilizam metáforas para contextualizar o presente a partir de experiências passadas.
Super Bowl: performance e mensagens
Bad Bunny foi anunciado como atração principal do show do intervalo do Super Bowl LX em setembro de 2025, em evento promovido pela NFL, Apple Music e Roc Nation, destacando sua influência cultural e musical. O espetáculo, transmitido internacionalmente, contou com cerca de 13 minutos de apresentação, em que o artista apresentou seus principais sucessos e músicas de seu álbum mais recente.
No palco do intervalo, Bad Bunny construiu um espetáculo que incorporou referências à cultura latina e porto-riquenha. A cenografia trouxe réplicas de elementos culturais, como palmeiras e folhagens tropicais que remetiam ao ambiente de Porto Rico, além de símbolos como a casa tradicional da ilha, conhecida como La Casita.
Durante a apresentação, o cantor incorporou momentos simbólicos ao cantar seus sucessos como “Tití Me Preguntó e Yo Perreo Sola”, projetou imagens e sons que evocam tradições musicais latinas. Na apresentação, figuras hastearam bandeiras de países de toda a América enquanto Bad Bunny pronunciava os nomes das nações sob a mensagem de que “Juntos somos a América”, reforçando um sentido coletivo e de pertencimento continental, e ressignificando a tradicional frase estadunidense “Deus abençoe a América”.
A apresentação também contou com participações especiais, entre elas o cantor porto-riquenho Ricky Martin e a cantora americana Lady Gaga, que apresentou sua canção em ritmo de salsa, reforçando ligações culturais além da música em espanhol.
No encerramento, Bad Bunny entregou a uma criança um troféu similar ao do Grammy, simbolizando a transmissão de legado e memória, e concluiu sua participação com a faixa título do seu álbum “DtMF”, deixando uma mensagem final no telão do estádio “A única coisa mais poderosa que o ódio é o amor”.
A performance alcançou altos índices de audiência, com estimativas de mais de 135 milhões de telespectadores, recorde para uma apresentação no intervalo do Super Bowl.
*Sarah Andrade é bolsista do Programa de Extensão Jornalismo como forma de Transformação Social no combate à Desinformação.