Secretaria de Esportes proíbe capoeiristas de treinar na quadra do Estádio Edvaldo Flores

A denúncia foi feita pela Associação de Capoeira Viva Conquista nesta quarta-feira (22/10). Até a publicação desta matéria, a Prefeitura não se posicionou sobre o assunto 23 de outubro de 2025 Lavínia Marinho*

Um comunicado assinado pelo secretário de Esportes de Vitória da Conquista, Francisco Estrela Dantas Filho, datado do dia 30 de setembro, proibiu a Associação de Capoeira Viva Conquista de realizar suas atividades na quadra poliesportiva do Estádio Municipal Edvaldo Flores, no bairro Alto Maron. Segundo denúncia dos capoeiristas, agora eles só podem dar aulas na área externa do equipamento. 

Em vídeo publicado no Instagram na quarta-feira (22/10), o mestre Acordeon disse que “desrespeito e desigualdade com a capoeira é racismo”. Ele também contou que o grupo já havia sido transferido da sala de artes marciais para a quadra. “E agora o senhor vem com esse ofício mandando a gente sair da quadra e praticar a capoeira lá fora, onde está chovendo e não é o lugar adequado”, afirmou.

Segundo a mestra Andrea Pellosini, a justificativa para a retirada do grupo da sala de artes marciais era de que as atividades danificam o tatame. Ela destacou ainda que foi prometido pela secretaria um espaço exclusivo para a capoeira, mas isso não aconteceu. 

Há mais de 25 anos atuando no município, o grupo realiza as rodas de capoeira toda terça e quinta, das 19h às 21h, no estádio. Para Andrea, a atitude do secretário é uma forma de discriminação. “Somos cultura e esporte. O mestre Acordeon realiza há anos um trabalho social na nossa cidade, abrangendo toda região e estado.”

Comunicado encaminhado pelo secretário Francisco Estrela ao mestre Acordeon, da Associação de Capoeira Viva Conquista.

Diante do ocorrido, a associação questionou a secretaria sobre o motivo da proibição, mas não obteve respostas. De acordo com Andrea, o grupo fez uma denúncia na Ouvidoria do município. “Sempre fomos jogados de um lado para o outro. Nós estamos pedindo por espaços públicos que precisam ser ocupados por nós, pela comunidade”, ressaltou a mestra.

Nesta quinta-feira (23/10), às 9h04, o Avoador questionou a Prefeitura sobre o motivo da proibição, via WhatsApp da Secretaria de Comunicação, mas não recebeu resposta até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto para manifestação do órgão. 

Repercussão 

Na quarta-feira (22/10), durante sessão ordinária da Câmara Municipal, o vereador Alexandre Xandó (PT) classificou a medida do secretário de Esportes como racismo institucional. “Se fosse qualquer outra arte marcial, como karatê, jiu-jitsu ou muay thai, jamais seria colocada para treinar no tempo. Mas a capoeira, que é coisa de preto, parece que pode ser colocada em qualquer lugar”, denunciou.

Na mesma sessão legislativa, o parlamentar Fernando Jacaré (PT) destacou que o impasse precisa ser resolvido com diálogo e respeito ao trabalho social e cultural promovido pela capoeira na cidade.

“Nos solidarizamos com o mestre Acordeon, uma lenda viva da capoeira no Brasil, que tem desenvolvido um trabalho gigante aqui em Vitória da Conquista. Já estamos em contato com o secretário para marcar uma reunião e buscar uma solução”, disse Jacaré.

Secretaria de Esportes 

A Secretaria de Esportes foi criada no início de 2025 e tem como seu primeiro titular o ex-vereador Francisco Estrela Dantas Filho, mais conhecido como Chico Estrela. Durante a cerimônia de posse, a prefeita Sheila Lemos destacou que o órgão foi criado para estimular a prática de atividades esportivas no município, sendo não somente uma forma de lazer, mas uma ferramenta de formação cidadã.

Entretanto, desde a criação da secretaria, essa não é a primeira vez que a pasta se envolve em um impasse com esportistas. Em julho, Chico Estrela falou em entrevista à Rádio Band FM sobre cobrar dos atletas amadores uma taxa para manutenção dos campos de futebol da cidade. “Foi decidido que, dentro da arrecadação dos babas, eles iriam separar R$100 por mês para ajudar na manutenção. Não é taxa, não é tarifa, não é imposto”, disse.

O vereador Andreson Ribeiro (PCdoB) se posicionou contra o projeto. “Toda e qualquer cobrança aí é ilegal, porque essas praças, quadras, campos, constituem bem de uso comum, sendo pacificado inclusive nos tribunais, na doutrina do direito administrativo, que não há previsão de se cobrar o uso de um espaço considerado de uso coletivo”, rebateu.

O ex-vereador Chico Estrela assumiu a Secretaria Municipal de Esportes em maio de 2025. Foto: Ascom/CMVC.

Em setembro, outro embate com esportistas. A secretaria limitou o uso da pista de skate do Ginásio Raul Ferraz até as 18h, o que gerou insatisfação entre os skatistas, que classificaram a medida como “seletiva, discriminatória e incoerente”.

Em entrevista ao Avoador, o skatista Ricardo Gusmão disse que a medida era segregativa e injusta. “Ao apagar as luzes da pista, o governo cria um verdadeiro toque de recolher, atingindo jovens trabalhadores, estudantes e crianças que só têm o período da noite para praticar esporte e lazer”, destacou.

Em protesto, os skatistas lançaram um abaixo-assinado para derrubar o toque de recolher, considerando que outras modalidades esportivas tinham até as 22h para usar o espaço.

Na ocasião, a Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Esportes, emitiu uma nota afirmando que não se tratava de um toque de recolher, mas sim de “uma orientação criada com o intuito de gerar inclusão, disciplina e incentivo ao esporte.”

*Lavínia Marinho é bolsista do Programa de Extensão Jornalismo como Forma de Transformação Social no Combate à Desinformação.

Foto de capa: Associação de Capoeira Viva Conquista

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