Sem solução à vista: população de Conquista enfrenta há décadas os impactos das chuvas

Em meio às mudanças climáticas, a falta e a ineficiência dos sistemas de drenagem, somada ao baixo investimento em arborização urbana, tem ampliado os estragos provocados pelos temporais. 1 de julho de 2025 Lavínia Marinho, Letícia Vilasboas, Pedro Meireles, Sofia Rezende, Arthur Vitor, Karina Costa e Carmen Carvalho

Em Vitória da Conquista, terceira maior cidade da Bahia, 1.620 pessoas vivem em áreas suscetíveis à ocorrência de deslizamentos, enxurradas, alagamentos e inundações. Os dados são de 2023 da Secretaria Especial de Articulação e Monitoramento da Presidência da República. Esses e outros problemas causados pelas chuvas não são recentes e já fazem parte do cotidiano de muitos moradores da cidade. Em meio às mudanças climáticas, a falta e a ineficiência dos sistemas de drenagem, somada ao baixo investimento em arborização urbana, tem ampliado os estragos provocados pelos temporais.

No mês de janeiro de 2025, o volume de água decorrente das chuvas chegou ao recorde de 210,84 mm. Na época, os prejuízos foram na infraestrutura urbana, com o desmoronamento do asfalto na Avenida Expedicionário e na principal avenida do loteamento Cidade Modelo, a abertura de rachaduras em um trecho da Avenida Perimetral e alagamentos nos distritos de José Gonçalves e Bate Pé.

Um estudo realizado pelos pesquisadores Meirilane Rodrigues Maia, da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), Josefa Eliane Santana, da Universidade Federal de Sergipe (UFS), e Espedito Lima, também da Uesb, registra deslizamentos, alagamentos e inundações no município desde a década de 1990. Dividido em duas etapas, a primeira fase do levantamento abarcou dados de 1995 a 2015, enquanto a segunda abrangeu informações de 2016 a 2023. 

Segundo o relatório, entre 2020 e 2023, os principais episódios registrados pela Defesa Civil ocorreram nos bairros Centro, Boa Vista, Alto Maron, Candeias, Jurema, Lagoa das Flores, Recreio, Felícia, Campinhos, Ibirapuera, Cidade Modelo, Panorama e Recanto dos Pássaros. Durante o período, foram 19 ocorrências de chuvas intensas.

Na Lagoa das Flores, comunidade situada a cerca de 9 km do Centro, há mais de 20 anos os moradores reivindicam melhorias para evitar alagamentos, que vão desde a pavimentação até a implementação da rede de esgoto. Em dezembro de 2021, quando toda a Bahia sofreu com as fortes chuvas, o bairro foi um dos mais afetados. Doze famílias ficaram desabrigadas, de acordo com a Prefeitura.

Em protesto, os moradores fecharam um trecho da BR-116. Quase três anos após a manifestação, as pessoas que vivem no local denunciaram novamente o descaso à imprensa. Em 2025, a região segue sem assistência efetiva após os danos causados pelos temporais. O caso da Lagoa das Flores não é uma exceção. Outros bairros mais afastados da região central da cidade também convivem com a inundação das ruas e avenidas em períodos chuvosos.

Problemas para a população 

O estudante do curso de Cinema da Uesb, Enzo Vinhático, morador do bairro Brasil, disse que por lá quando chove muito as ruas ficam alagadas. “É como se formasse um rio. Quando está chovendo forte, se você precisa atravessar a avenida, ou você se molha inteiro ou acaba sendo levado pela água”, disse. Ele relatou ainda que, em 2024, ficou preso dentro de um ônibus porque as portas estavam emperradas por conta do volume de água.

Moradora do bairro Vila América, a comerciante Fernanda Amorim também tem sofrido com as consequências das fortes chuvas no lugar onde mora. “Minha rua está em obras de novo. O canteiro cedeu, o asfalto afundou e ficou anos aberto”, descreveu. 

Alagamento na Avenida Frei Benjamin, no bairro Brasil, em 2023. Foto: Secom/PMVC.

Na zona rural do município, a residente do povoado São Sebastião, Rozimeire Souza, contou que são muitas as reclamações dos moradores em relação às chuvas, principalmente pela ocorrência de alagamentos nas ruas e nas casas. “É um problema, mas sempre que há a necessidade, a Prefeitura encaminha maquinários para amenizar a situação”, afirma.

Em comunidades quilombolas de Vitória da Conquista, também são frequentes os efeitos destrutivos das chuvas. No distrito do Pradoso, os moradores de Laranjeiras ficam ilhados quando o volume de água é muito grande. O caminho de terra que dá acesso ao povoado é cortado por três riachos. Por isso, nos períodos em que ocorrem fortes temporais, a estrada fica intransitável e os residentes isolados, o que inviabiliza o acesso a serviços básicos, como saúde e educação.

Falta de vontade política

De acordo com o arquiteto e urbanista Daniel Paes, a maioria das cidades brasileiras não estão preparadas para lidar com chuvas intensas, principalmente pelo uso de sistemas de drenagem ineficientes. “A implementação de drenagem de águas pluviais nas cidades constitui um fator essencial para garantir o funcionamento adequado das infraestruturas urbanas”, explica.

Os altos custos dos dispositivos de drenagem, escassez de recursos municipais e complexidade de implementação dos sistemas são alguns dos motivos que levam a não finalização ou realização das obras. Paes argumenta que há pouca ou nenhuma vontade política para melhorar a infraestrutura urbana que amenize os impactos das chuvas. “A maior parte do sistema está enterrado e dificilmente é percebido pelo eleitorado. É o tipo de obra que não dá voto”, salienta. 

No loteamento Alto do Panorama, desde 2022, está em andamento uma obra para implementar um sistema de drenagem na localidade, mas o processo segue sem finalização. Realizado pela Empresa Municipal de Urbanização (Emurc), o projeto visa captar e direcionar corretamente a água das chuvas com a escavação de uma bacia de detenção que contará com 1,9 km de tubulações e 8.800 m² de área. Em abril deste ano, a Prefeitura alegou que mais de 60% da escavação foi concluída. 

No loteamento Alto do Panorama, a Prefeitura realiza uma obra de drenagem desde 2022. Foto: Secom/PMVC.

Após a instalação de sistemas de drenagem, a manutenção deles é uma medida necessária para garantir uma infraestrutura urbana adequada. O engenheiro civil Airison Keoma enfatiza que o monitoramento é essencial para evitar entupimentos e transbordamentos. “A realização de inspeção com frequência permite identificar problemas antes que se tornem críticos”, ressalta.

Ele também esclarece a diferença entre a drenagem superficial e a subterrânea. A primeira direciona a água das chuvas para locais específicos através de canais abertos e sarjetas, sendo uma solução eficaz em terrenos menos urbanizados. Já a segunda é ideal para áreas altamente urbanizadas pois utiliza tubos instalados no solo, o que permite que a água seja escoada de forma mais eficiente. 

Para o coordenador e professor do curso de Engenharia Florestal da Uesb, Dalton Longue, o poder público tem a obrigação de garantir infraestrutura, especialmente em locais mais suscetíveis a alagamentos e enchentes. Porém, segundo ele, não é apenas a falta de infraestrutura que intensifica os estragos causados pelas chuvas. “Às vezes até tem o sistema, mas existem lugares sem acesso a coleta regular de lixo. Ou até tem a coleta, mas não ocorre o descarte correto”, explica.

Além do Centro, a zona rural do município também é muito afetada pelos impactos das chuvas. Registro de alagamento no distrito de José Gonçalves, em 2025. Foto: Secom/PMVC.

Mesmo com a pavimentação e o sistema de drenagem, o Centro de Conquista é o local que mais sofre com as fortes chuvas. O estudo de pesquisadores da Uesb e da UFS mostra que, em todos os anos contemplados pela análise, de 1995 a 2023, foram registrados prejuízos causados pelos temporais no bairro.

Para Longue, falta fiscalização do poder público para evitar o descarte irregular de lixo, responsável pelo entupimento de sistemas de drenagem. “Os moradores, os lojistas, os transeuntes jogam tudo pelo chão e quando chove vai tudo para as tubulações, as entupindo”, contou. 

Expansão urbana desordenada

Em meio às mudanças climáticas, a ausência de infraestrutura adequada, com sistemas de drenagem e redes de esgoto, aliada ao acúmulo de lixo e de poluição, contribui para o agravamento dos efeitos de chuvas intensas, como inundações e deslizamentos de terra. Mas antes de tudo isso, o processo de urbanização acelerado é um dos fatores responsáveis pelo desequilíbrio climático.

O pesquisador Espedito Lima explica que, em Vitória da Conquista, a incorporação de novos espaços foi feita de forma desorganizada e isso acarretou na fragilidade dos ambientes considerados de risco. De acordo com o professor, os problemas associados aos impactos pluviais intensos decorrem de três fatores históricos.

O primeiro foi a expansão desordenada entre 1980 e 1990, marcada pelo surgimento de loteamentos sem infraestrutura e impulsionada pela especulação imobiliária com apoio do governo municipal. Outro fator é a ocupação de terrenos vazios com verticalização das áreas. Além disso, segundo Espedito, houve o aumento da impermeabilização do solo, especialmente em bairros populares, devido ao asfaltamento com obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). 

O professor do curso de Geografia da Uesb, Rosalve Marcelino, destaca que a ocupação humana provoca a impermeabilização do solo, ou seja, faz com que o solo perca a capacidade de absorção da água. Isso é causado principalmente pelo calçamento de ruas e avenidas com asfalto. 

O calçamento de ruas e avenidas com asfalto também contribui para a impermeabilização do solo. Foto: Secom/PMVC.

Segundo ele, o aumento da impermeabilização do solo impacta negativamente a qualidade de vida da população. “Com menos água no subsolo, os rios diminuem o volume. Mesmo os lugares que não são asfaltados, passam os carros, que diminuem a infiltração. Essa água do subsolo é essencial, seja na agricultura, na pecuária, na alimentação e nos rios”, complementa.

A pavimentação asfáltica causa ainda um maior acúmulo de água nas regiões mais baixas da cidade, o que leva aos alagamentos, explica o engenheiro florestal Dalton Longue. A existência de áreas verdes ajuda a evitar a impermeabilização do solo e, consequentemente, o risco de enchentes. “Além de não inundar as regiões mais baixas, essa água consegue percorrer o solo e aflorar em outras áreas do município, formando nascentes”, analisa.

Arborização como parte da solução

Dados do Censo IBGE 2022 revelam que 47,89% da cidade de Vitória da Conquista não possui áreas verdes. A ausência de arborização deixa o município ainda mais vulnerável aos impactos pluviais. “Quando chove, se tiver muita arborização, isso aumenta a quantidade de água que é filtrada, o que é ótimo para o lugar. Menos árvores significa menos permeabilização e mais calor”, observa. 

Em qualquer cidade, quanto maior é a vegetação, melhor é a qualidade de vida da população, apontam especialistas. “As árvores propiciam sombra, embelezamento, captação de água, tudo que uma cidade grande precisa por causa da alta concentração de pessoas”, orienta o engenheiro Dalton Longue. 

Para tentar amenizar os efeitos das mudanças climáticas na cidade, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma) lançou em fevereiro deste ano o projeto “Conquista Mais Verde”. A proposta é arborizar áreas degradadas, praças públicas e outros espaços sugeridos pela população. A solicitação de plantio de mudas pode ser feita pelo telefone 3429 – 7906 ou presencialmente na Semma.

Apesar de importante, apenas a implementação de áreas verdes não é suficiente para solucionar todos os problemas. “É necessário que sejam adotados outros dispositivos de drenagem para atuarem como um sistema, onde um complementa o outro na gestão das águas pelas cidades”, sugere o arquiteto Daniel Paes.

Plantio de mudas do projeto “Conquista Mais Verde”. Foto: Secom/PMVC.

Além do projeto “Conquista Mais Verde”, outra ação da Prefeitura é a participação no programa Adapta Cidades, iniciativa do governo federal que busca capacitar estados e municípios para a elaboração de planos de adaptação às mudanças do clima. Neste ano, foram destinados R$20 bilhões para o programa. As cidades contempladas podem captar recursos para projetos que visam enfrentar os desafios relacionados às mudanças climáticas.

Em novembro de 2024, Conquista sediou a 1° Conferência Intermunicipal do Meio Ambiente, onde foram debatidos temas como a redução da emissão de gases do efeito estufa, justiça climática, transformação ecológica e educação ambiental. Já em 2025, representantes da Semma estiveram presentes na 5° Conferência Nacional do Meio Ambiente, em Brasília.

Ação Tapa-Buraco 

Desde 2017, a Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista (PMVC) realiza a Operação Tapa-Buraco, voltada à recuperação do asfalto em ruas esburacadas pelo excesso de água. Embora a ação busque reduzir os impactos das chuvas, trata-se de uma medida temporária, que não resolve de forma definitiva os problemas estruturais. Após a suspensão durante a pandemia, a operação foi retomada em 2022. 

O maior volume de intervenções da Operação Tapa-Buraco ocorreu em 2024, quando mais de 250 vias foram contempladas com serviços de manutenção, abrangendo bairros como Jurema, Patagônia, Brasil, Centro, Recreio e Alto Maron.

A reportagem entrou em contato com a PMVC e a Defesa Civil, mas até o momento da publicação desta reportagem não obteve retorno.

Como acionar a Defesa Civil 

Em casos de emergência, a Defesa Civil de Vitória da Conquista pode ser acionada pelos números: 199 e (77) 3422-5958, ou pelo WhatsApp (77) 98856-5070.

Os cidadãos podem buscar também o sistema “Defesa Civil Alerta” via SMS, WhatsApp ou aplicativo Telegram. Ao realizar o cadastro, a pessoa passa a receber alertas e recomendações de proteção em situações de emergência.

Para cadastro via SMS, basta enviar uma mensagem para o número 40199, com o CEP da área de interesse. No caso de uso pelo WhastApp, cadastre o número 61 2034-4611 ou clique em https://wa.me/556120344611, dê um “olá” para o robô e siga os passos da tela. No caso do Telegram, basta procurar o contato “Defesa Civil Alertas” e enviar um “olá” para ser redirecionado ao menu de opções.

*Lavínia Marinho, Letícia Vilasboas, Pedro Meireles, Sofia Rezende e Arthur Vitor são voluntários do Programa de Extensão Jornalismo como forma de Transformação Social no Combate à Desinformação.

3 respostas para “Sem solução à vista: população de Conquista enfrenta há décadas os impactos das chuvas”

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