“Será difícil o time sair do buraco sem recurso financeiro”, diz presidente do ECPP Conquista

Após passar 15 anos na primeira divisão do Campeonato Baiano, o time foi rebaixado em 2022 e agora enfrenta dificuldades financeiras 2 de outubro de 2025 Lázaro Oliveira e Luan Pereira*

Nascido em Belo Horizonte, o ex-jogador de futebol profissional Ederlane Amorim fundou em Vitória da Conquista, no ano de 2001, o projeto social “Primeiro Passo”, que durante cerca de três anos ensinou o futebol para adolescentes em situação de vulnerabilidade. Em 2005, o sucesso da iniciativa impulsionou a criação do time profissional, que recebeu o nome de Esporte Clube Primeiro Passo Vitória da Conquista (ECPP).

Um ano depois da fundação do clube, em 2006, o ECPP, conhecido como “Bode Alviverde”, conquistou a segunda divisão do Campeonato Baiano. O time finalizou a competição invicto após 14 partidas. Ao longo da sua história, a equipe também acumulou vitórias na Copa Governador do Estado da Bahia, vencendo por três anos consecutivos, nos anos de 2010, 2011 e 2012.

Por 15 anos o “Bode” se manteve na primeira divisão do Campeonato Baiano e marcou presença em competições nacionais como Série C e D do Campeonato Brasileiro, Copa do Nordeste, Copa do Brasil, além de disputas nas categorias de base. Em 2022, a situação mudou quando o time foi rebaixado no Baianão. 

Com 20 anos de existência, o clube enfrenta hoje um dos momentos mais difíceis da sua trajetória. A situação financeira é o principal fator que dificulta o retorno do time à elite do campeonato baiano. “A realidade é que, entra ano e sai ano, a gente termina o calendário e não sabe o que teremos de recurso para investir”, afirma o atual presidente do ECPP, Ederlane Amorim.

Na segunda divisão do Campeonato Baiano, o clube não tem acesso aos recursos da televisão e da Confederação Brasileira de Futebol. Diante dos problemas que vem se agravando nos últimos três anos, Ederlane cogita a possibilidade da equipe profissional não entrar em campo em 2026. Segundo ele, essa é a primeira vez na história do ECPP que o time vai encerrar a temporada em déficit financeiro.

“Nós já tivemos orçamento de até R$3 milhões, mas esse ano não chegou nem a R$300 mil, valor que, em anos anteriores, a gente gastava em três meses”, explica Ederlane. De acordo com ele, para pagamento dos jogadores, o valor total “não chegou nem a R$25 mil”.

Em entrevista ao site Avoador, o presidente do ECPP falou sobre como tem lidado com as limitações do clube, os planos para o desenvolvimento da categoria de base e os momentos mais marcantes da história do time ao longo dos 20 anos.

Avoador-  O Esporte Clube Primeiro Passo Vitória da Conquista tem mais de 20 anos de trajetória no futebol, marcada por vitórias e derrotas. Quais são as principais dificuldades que o time enfrenta atualmente?

Ederlane Amorim- Não é fácil. A gente lida com o futebol, que não é uma matemática exata. As principais dificuldades que enfrentamos como time do interior sempre foram as financeiras. Você tem um orçamento ano após ano para manter a competitividade. Às vezes o time tem sucesso em um ano, no outro precisa recomeçar do zero, aí já não consegue mais as mesmas receitas e tem que improvisar na gestão, tanto administrativa como esportiva. A gente não tem um fundo como os grandes clubes, que já sabem que vão ter como jogar no próximo ano. A realidade do nosso clube é que, entra ano e sai ano, a gente termina o calendário e não sabe o que teremos para investir. Então, temos que desfazer o elenco, liberar jogadores e voltar a construir do zero. Todo ano é um novo recomeço exatamente por essa dificuldade. A parte esportiva está diretamente ligada à parte financeira por causa da sazonalidade do nosso calendário. Se você joga três vezes em um ano e no outro joga oito, não tem como elaborar um planejamento mais robusto. Então, a realidade do nosso time é difícil por essas questões.

A realidade do nosso clube é que, entra ano e sai ano, a gente termina o calendário e não sabe o que teremos para investir.

Avoador- Ao longo desses 20 anos, quais foram os momentos mais memoráveis para o clube, na sua opinião?

Ederlane Amorim- O primeiro foi a fundação do clube. Nós começamos como uma escolinha de futebol filantrópica chamada “Primeiro Passo”, em 2001. Quando eu parei de jogar futebol profissional, cheguei na cidade e não sabia exatamente o que fazer, então decidi criar um projeto começando com a base. Ele era voltado principalmente para garotos mais pobres e funcionou por cerca de três anos. Depois, surgiu a Associação Desportiva Primeiro Passo, com diretoria, estatuto e uma formação mais sólida. Isso deu tão certo que resolvemos criar o time de futebol profissional, em 21 de janeiro de 2005. Até então se chamava apenas “Sport Clube Primeiro Passo”. Mas na busca por uma aproximação maior com a população local, nós agregamos o nome “Vitória da Conquista” ao ECPP. Foi nesse momento que veio a primeira frustração porque não conseguimos disputar nenhuma competição até 2006. Isso porque, apesar da fundação do time, nós não conseguimos o registro na CBF. Na época, o regulamento só permitia que houvesse um time a cada 100 mil habitantes, e Conquista tinha 300 mil e três times registrados, então nós ficamos de fora. Foi um balde de água fria, ficamos um ano inativos, mas o trabalho com a base continuou. Em 2006, na gestão de Edinaldo Rodrigues, conseguimos inscrever o time e conquistamos o título da segunda divisão profissional de forma invicta. Foram 14 jogos, sete vitórias e sete empates. Então, esse foi mais um momento inesquecível. As competições na Copa do Brasil também foram marcantes. Foi importante trazer o Palmeiras para jogar na nossa cidade, em 2015. As finais das competições, os cinco títulos da Copa Governador do Estado da Bahia, os jovens formados em nossa base que ascenderam para clubes maiores, como André Henrique, atualmente no Grêmio, e Rodrigo, do Fortaleza. Tudo isso são conquistas que nos orgulham. No final das contas, foram vários momentos de alegria, mas também de frustração, porque o esporte é assim. 

O time ganhou por três anos consecutivos a Copa Governador do Estado da Bahia. Foto: Lázaro Oliveira.

Nessa situação, você não tem visibilidade para atrair um patrocínio maior. O empresário não investe muito em times da segunda divisão. 

Avoador- O clube passou grande parte da sua história na série A, na elite do Campeonato Baiano. E recentemente, em 2022, foi rebaixado e até o momento não conseguiu esse retorno. Quais são os planos para mudar esse cenário?

Ederlane Amorim- Na verdade, eu não tenho essa receita. Pensei que fosse ser mais fácil depois de ter construído uma marca tão sólida. Até 2022, entre os times do interior baiano, nós éramos o que tinha disputado a série D do Campeonato Brasileiro e a Copa do Brasil mais vezes. Nós éramos também o time mais presente nas semifinais do Campeonato Baiano. Então, a gente estava sempre brigando na parte de cima da tabela, muitas vezes reconhecido como a terceira força da Bahia. Já em 2021, nós tivemos dificuldades e sofremos com essa possibilidade de rebaixamento, porque ficamos em penúltimo lugar, já com orçamento muito inferior ao de 2020. Diminuiu muito o número de empresas patrocinadoras, algumas reduziram o valor, outras saíram. Nós nunca tivemos o Poder Público municipal como um grande parceiro na parte financeira, como é o caso de outros times. Acredito que a minha candidatura para presidente da Federação Baiana também contribuiu um pouco para o desgaste de relacionamentos entre clubes e com a própria federação. Mas no campo, desportivamente, nós começamos a descer a ladeira e nos atolamos nessa areia movediça de 2021 para cá. Nós não caímos em 2021, nos salvamos na última rodada, já com o orçamento bem baixo, porque naquele ano ainda caía apenas uma equipe. Em 2022, mudou-se o regulamento, exatamente quando eu lancei minha candidatura. Na verdade, tentei, mas não consegui o registro. Os clubes resolveram votar para que caíssem dois times a partir de 2022. Isso foi votação e a maioria concordou. Infelizmente, naquele ano, nós fomos os penúltimos de novo e fomos rebaixados. A partir daí surgiram mais dificuldades porque de cara você perde um aporte que consegue quando está na primeira divisão. Então, de um orçamento que já é bem diminuto, você tira 350 mil e começa a disputar uma segunda divisão por três anos seguidos: 2023, 2024 e 2025. São três anos praticamente sem orçamento algum batendo na porta, mendigando, vendendo rifa, camisas. São coisas que o clube nunca tinha feito até então. Nessa situação, você não tem visibilidade para atrair um patrocínio maior. O empresário não investe muito em times da segunda divisão. E como a gente sobrevive do que arrecadamos, não temos um fundo, um orçamento específico para as competições ano após ano. Então, esses últimos anos foram difíceis e 2025 está sendo. Se eu fosse menos teimoso não teria nem disputado esse ano. Por pouco nós não chegamos no G4 por conta de um W.O. na última rodada. A questão é que aquilo que o torcedor vê no estádio é só a pontinha do iceberg. O que acontece nos bastidores é muito custoso em todos os aspectos: salários, logística, burocracia. O custo é muito alto e a gente está lidando hoje com equipes mais estruturadas, que se tornaram SAFs (Sociedades Anônimas de Futebol), como é o caso do Fluminense Feira. Há três anos o time se transformou em SAF, o que deu pra eles um orçamento três vezes maior do que todos os outros clubes da segunda divisão, mas ainda assim não conseguiram subir. Diante disso, você vê que, mesmo com recurso, às vezes não dá certo. Então não temos uma receita para mudar o cenário, só obra divina. Só Deus vai definir isso. Em relação ao financeiro, equipes como Fluminense de Feira, Bahia de Feira, Barcelona, ADJ e Jacuipense estão muito na nossa frente. Mas os nossos esforços estão sendo sobre-humanos, dentro das nossas limitações, para que a gente pelo menos possa competir de igual para igual com esses times que estão em uma situação financeira melhor. 

Normalmente os times do interior sobrevivem de um aporte municipal. Não é obrigação da Prefeitura, mas culturalmente isso acontece, inclusive com nossos adversários. Não é o nosso caso.

Avoador- Além da situação financeira do clube, existem outras dificuldades que afetam diretamente a sobrevivência do ECPP? Quais são as fontes de receita?

Ederlane Amorim- Nossa principal dificuldade é mesmo o financiamento. Pela primeira vez na história do clube, temos um déficit muito grande. Temos receita zero. Normalmente os times do interior sobrevivem de um aporte municipal. Não é obrigação da Prefeitura, mas culturalmente isso acontece, inclusive com nossos adversários. Mas aqui em Conquista não é assim. Nunca tivemos o governo municipal como o principal patrocinador. Mas sabemos da importância do futebol para a cidade. Não agora com o time nessa situação, mas em anos anteriores a equipe trouxe entretenimento, circulação de pessoas, fortalecimento do nome do município. E sobre receita, eu às vezes pergunto para as pessoas de onde elas acham que vem o dinheiro de um time de futebol. Com bilheteria não podemos contar porque o torcedor só aparece quando o time está bem. Se o time responde, ótimo, se não, ninguém vai para os jogos, é prejuízo. Hoje cada jogo aqui custa no mínimo de 12 a 15 mil reais, ou seja, se você não tiver mil pagantes, já teve déficit. Se forem mil pessoas, você não tem lucro. Além disso, tem o sócio torcedor, que é aquele que contribui com pagamentos mensais em troca de benefícios. Nós até temos essas pessoas, umas cinquenta, mas não temos muito o que oferecer de volta e o valor arrecadado é de cerca de 2 mil reais, o que ajuda, mas é muito pouco em relação à dimensão da realidade do clube. Já os patrocinadores que têm os nomes e marcas nas camisas, que são o nosso principal aporte, não nos abandonaram, mesmo depois de praticamente quatro anos na segunda divisão. Mas esse valor paga apenas a logística. Para a folha de pagamento, a gente precisa ter no final do mês de 100 a 150 mil. E esse dinheiro, que é a principal fonte de apoio de qualquer time, viria da televisão. É a televisão que compra e vende os campeonatos para os patrocinadores e o clube tem as suas cotas, mas como estamos na segunda divisão, nós não recebemos nada e isso é uma dificuldade. As receitas são essas: Prefeitura, sócio torcedor, bilheteria ou patrocínio. Não tem outro tipo de receita. 

A sede do clube fica localizada na Rua Edmundo Santos, 65 , no Centro. Foto: Luan Pereira.

A SAF seria a única solução para o clube. Com esse dinheiro, você pode fazer um elenco mais competitivo. Sem isso, eu não vejo outra alternativa.

Avoador- A criação de uma Sociedade Anônima do Futebol (SAF) seria uma solução para a situação financeira do time?

Ederlane Amorim- Sim, essa seria a única solução para o clube. Desde 2023, a gente está tentando fazer isso acontecer. Já recebemos várias visitas de possíveis parceiros, mas até agora não tem dado certo por motivos diversos. Mas é importante dizer que a SAF não significa que o time vai ter sucesso desportivo, ela vai resolver um problema financeiro. O Fluminense de Feira, por exemplo, está há dois anos como SAF, com investimento muito alto, mas não subiu de posição. Eles já estão há seis anos na segunda divisão. E não podemos dizer que o planejamento foi errado, foi uma questão do futebol mesmo. Mas é claro que com o financiamento que vem da SAF é possível melhorar a estrutura de treinamento, alimentação, suplementação, transporte e salário. Com esse dinheiro, você pode fazer um elenco mais competitivo. Sem isso, eu não vejo outra alternativa. Neste ano, o apoio da Prefeitura foi menor que há três anos atrás. Mas as dificuldades e os preços de tudo vão aumentando. Para virar o jogo, tem que ser uma SAF mesmo, alguém que chegue e ajude no trabalho de reconstruir o clube.

Mesmo com dificuldades, não pretendemos parar com o investimento na categoria de base. Se tivermos de parar no ano que vem, nós não vamos disputar o profissional, porque tem um custo infinitamente maior.

Avoador- Como está o desenvolvimento da categoria de base? 

Ederlane Amorim- É um projeto a médio e longo prazo. Como funciona a categoria de base? Quando você está na primeira divisão, é obrigado a disputar o campeonato Sub-20. Já na segunda, você disputa se quiser. Nos últimos três anos, nunca deixamos de disputar para o clube não parar. O Sub-20 começa em março e o profissional em abril, então aquele que se destaca no Sub-20, a gente automaticamente promove ao profissional. Desde 2020 a gente vem disputando o Sub-15 e o Sub-17. Por exemplo, disputamos com o Bahia. Nós saímos daqui à noite porque não temos estrutura para viajar no dia anterior. O bom senso manda isso: chegar no hotel um dia antes e descansar para jogar. Mas não temos condições de ficar em hotel. Nós saímos daqui 23 horas, chegamos lá depois de quase nove horas de viagem e o Sub-15 perdeu de 9 a 0, ou seja, é muito vergonhoso. Isso mancha o nome do clube. Já o Sub-17 foi um jogo mais disputado, perdeu de 2 a 1, mas esse resultado é muito atípico. Nessa situação é difícil até motivar os meninos. O principal ativo do clube nos últimos anos é o Vitinho. Ele estava no Vitória, ficou lá dois anos, dos 15 aos 17 anos de idade. Depois o Vitória o liberou e ele voltou. E assim vamos tentar formar novos Vitinhos para ver se uma hora dá certo, como deu com o André e com o Rodrigo. Então a gente vem tentando fazer esse investimento na base para não parar o trabalho. Mesmo com dificuldades, não pretendemos parar com a categoria de base. Se tivermos de parar no ano que vem, nós não vamos disputar o profissional, porque tem um custo infinitamente maior já que envolve salários, e na base não, os salários são apenas para comissão técnica, os jogadores não são assalariados. O custo é só de logística. Hoje nós temos na cidade o Conquista Futebol Clube, o azul e branco, que faz um trabalho muito forte na base e tem uma estrutura muito superior. Tem também o Serrano, que voltou a disputar. Então, a matéria-prima que antes era exclusiva nossa, hoje está sendo disputada por três clubes. Isso acaba enfraquecendo quem tem menos estrutura, que nesse caso somos nós. Então, para responder a sua pergunta, no ano que vem, se a gente tiver de parar com alguma competição, será o profissional, não a base. Nos últimos dez anos nós disputamos seis vezes a Copa São Paulo de Juniores. Você tem que ficar entre os quatro primeiros do Campeonato Baiano para ter acesso a essa vaga. Então participar seis vezes é uma média altíssima dentro da realidade de um time do interior. Infelizmente nós não conseguimos a classificação esse ano porque eu acabei tirando muitos jogadores da base e coloquei no profissional. Isso enfraqueceu a base e não foi o suficiente para classificar o profissional, então eu acabei matando as duas categorias. Mas nós estamos tentando, diante de todas as carências.

Fundado em 2005, o time começou o projeto como uma escolinha de futebol. Foto: Luan Pereira.

Vamos continuar o trabalho, mas falando como gestor, de forma prática, é muito difícil sair desse buraco sem um apoio financeiro substancial.

Avoador- Quais são os planos para o futuro do time profissional? 

Ederlane Amorim- Atualmente, não temos um elenco profissional porque não tem competição. Quando não tem um calendário de jogos, você faz contratos curtos por competição. Se você fizer um contrato mais longo, como vai pagar? O time deste ano foi diferente do que tivemos em 2024 e em 2023. É sempre um reinício. O profissional só volta para as competições em maio do ano que vem. Agora só estamos com Sub-15 e Sub-17 com o treinador Guilherme Lima. Sobre o futuro, para conseguir disputar uma competição nacional, eu tenho que obrigatoriamente ganhar a 2ª divisão em 2026. Nesse cenário, o time jogaria a 1ª divisão em 2027. Então, eu só vou ter um retorno financeiro em competições se conseguir ganhar tudo para ter uma porta aberta para a Copa do Nordeste ou para a Série D. É um cenário difícil. Não basta só disputar a segunda divisão no ano que vem, temos que ficar pelo menos em segundo lugar e, na primeira divisão, ganhar ou ficar entre os quatro primeiros para conseguir vagas nacionais e, assim, ter o subsídio de disputa. Como eu falei, tudo no tempo de Deus. Vamos continuar o trabalho, mas falando como gestor, de forma prática, é muito difícil sair desse buraco sem um apoio financeiro substancial.

Eu tenho as duas funções mais importantes de qualquer clube: presidente e diretor executivo de futebol. Todos os bons e maus resultados de elenco podem ser atribuídos a mim. 

Avoador- Além do senhor, quem mais compõe o quadro técnico-administrativo? 

Ederlane Amorim- Nós somos 51 dirigentes, mas alguns participam ativamente e outros estão mais afastados. No dia a dia, sou eu e mais quatro pessoas. Um deles era o José Roberto, que faleceu este ano. Nós temos contabilidade, serviços jurídicos e marketing por meio de parceiros. Já eu tenho as duas funções mais importantes de qualquer clube: presidente, responsável pela gestão administrativa e orçamento, e diretor executivo de futebol, que cuida de contratação e demissão. Nós nunca contratamos um diretor de futebol. Eu sempre exerci essa função, então todos os bons e maus resultados de elenco podem ser atribuídos a mim. 

Já tivemos orçamento de até R$3 milhões, mas esse ano não chegou nem a R$300 mil, valor que, em anos anteriores, a gente gastava em três meses.

Avoador- Qual é a média salarial dos jogadores atualmente?

Ederlane Amorim- Isso depende muito da receita do clube. Já tivemos anos em que jogadores receberam de 15 a 20 mil por mês. Mas na realidade de hoje não passa de um salário mínimo. Nós também aproveitamos muitos jogadores da base para jogar no profissional. Dessa forma, você não tem aquela obrigação financeira. É permitido ter cinco jogadores do Sub-20 jogando no profissional. Então a gente aproveitou ao máximo essa possibilidade. Em 2008, Danilo Cruz foi o jogador mais bem pago da história do clube, chegando a ganhar 15 mil reais. Hoje, com 15 mil, eu pagaria praticamente 10 jogadores. Infelizmente é uma receita que a gente não tem mais. Em 2015, com cerca de 1 a 2 milhões, quando nós disputamos a primeira divisão na Copa do Brasil e na Copa do Nordeste, a gente tinha dois elencos, um disputando uma competição e o outro disputando outra. Naquela época, nós não tínhamos problemas financeiros. Mas hoje, apesar da situação difícil, nunca atrasamos o salário de ninguém. Nós nos adequamos de acordo com a situação. É dessa maneira que a gente vem fazendo. Só que esses recursos somente podem ser aplicados na divisão de base. Não posso usar no elenco profissional. Qual foi o faturamento do clube nos últimos 20 anos? De 2015 a 2016, nós chegamos a arrecadar por ano quase R$ 3 milhões. Nunca passamos disso. Mas naquela época tínhamos o estádio sempre cheio. Em 2008, chegamos a vender dois atletas: um para o São Caetano, que foi o Tatu, e outro para o Vitória, que foi o Rafael Granja. Fizemos isso por R$600 mil. Nós estamos falando de 17 anos atrás, quando essa quantia era considerada alta. Mas hoje a gente não consegue nem negociar jogadores e nem ter bilheteria. E eu não posso culpar o torcedor. Ele é muito importante pra gente, é quem torce, gosta e respeita o nosso clube mesmo nos momentos ruins. A gente entende as críticas, mas para construir um time à altura precisamos do recurso financeiro para fazer contratações. Sem isso, eu preciso esperar os outros times da divisão compor os seus elencos porque, se eu buscar o mesmo jogador que o Bahia de Feira ou o Fluminense, a gente não vai ter condições de concorrer financeiramente. Então, como eu disse, já tivemos anos atrás orçamento de até R$3 milhões, mas esse ano não chegou nem a R$300 mil, valor que, em anos anteriores, a gente gastava em três meses. Em relação aos jogadores, neste ano, a minha folha de pagamento todinha não chegou a R$25 mil. É um desnível muito grande. E isso reflete no campo. Hoje dificilmente a gente tem vencido os jogos aqui em Conquista. Não tem mais nomes como Tatu, Rafael Grande, Silvio, Edmar, jogadores que fizeram história aqui. Em 2006, já tivemos quase 20 mil pessoas no estádio, a torcida tinha fome de um time profissional na cidade. Hoje nós terminamos a segunda divisão com cerca de 500 pagantes.

Neste momento, não sei se eu falaria em falência, é uma palavra muito dura. Nós não devemos nada a ninguém, mas também não temos recursos.

Avoador- Diante de tantas dificuldades, o senhor teme que o clube declare falência?

Ederlane Amorim- Eu já temi mais. Hoje eu não temo porque a minha vida está entregue ao senhor. Se eu não pensasse assim, já teria perdido a cabeça nesses últimos três anos. Se você observar os presidentes de outros clubes, todos têm um suporte financeiro por trás. Eles são deputados ou donos de empresas. Eu não tenho nada, o que eu tenho é só a força do trabalho. Nós tínhamos um gerente executivo que era meu braço direito, mas, infelizmente, ele faleceu no dia 13 de abril deste ano. Desde 2020, eu falava com ele: “Zé, o time está falido, a gente não pode vender camisa para sobreviver, sabe? Nós temos uma marca, não deveríamos ter chegado nesse momento.” Mas aconteceu porque sempre arrecadamos muito pouco em relação ao que era necessário aplicar. Então, neste momento, não sei se eu falaria em falência, é uma palavra muito dura. Nós não devemos nada a ninguém, mas também não temos recursos. Talvez no ano que vem a gente não consiga disputar o profissional. Não sei se isso é falência, mas é um momento realmente muito preocupante.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *