Tecnologia e capacitação profissional: os pilares da qualidade do algodão baiano

Luís Eduardo Magalhães é o polo da produção do estado e sedia o maior laboratório de análise de algodão da América Latina 29 de agosto de 2026 < Letícia Vilasboas

Desde a safra de 2003/2004, a Bahia é o segundo maior produtor de algodão do Brasil, atrás apenas do Mato Grosso. Essa conquista tem uma relação com o trabalho realizado pelo Centro de Análise de Fibras de Algodão e pelo Centro de Treinamento e Tecnologia da Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa). Ambos unem tecnologia e capacitação profissional para garantir a qualidade da cotonicultura no estado.

Fundada em 2000, a Abapa está sediada em Luís Eduardo Magalhães, no Oeste da Bahia, consolidado como um dos principais polos do agronegócio no estado. É também na cidade que funciona o Centro de Análise de Fibras da entidade, considerado o maior laboratório de análise de algodão da América Latina. Em junho de 2026, o Centro ganhou um novo laboratório, inaugurado durante a Bahia Farm Show. Com a nova capacidade instalada, o laboratório pode analisar até 70 mil amostras por dia.

Nova sede do Centro de Análise de Fibras de Algodão da Abapa (Foto: Letícia Vilasboas)

É no laboratório que o algodão é analisado e a qualidade da pluma branca é garantida para os mercados internacionais. A estrutura possui equipamentos de tecnologia HVI (High Volume Instrument), a mais avançada para avaliação e classificação das características das fibras de algodão. Segundo o gerente do Centro de Análise da Abapa, Sérgio Brentano, o HVI é fundamental para garantir um produto diferenciado na superioridade. “A análise feita em equipamento de HVI atesta a qualidade da fibra. E para você agregar valor à fibra, tudo depende dessa qualidade”, explicou.

Para a presidente da Abapa, Alessandra Zanotto, o Centro de Análise de Fibras de Algodão da Abapa é o maior diferencial tecnológico da associação com investimentos acumulados em cerca de 120 milhões de reais ao longo dos anos, representando a inovação tecnológica promovida no Oeste da Bahia. “Para além disso [tecnologia e inovação], garante a credibilidade e a transparência do que a gente produz aqui”, disse.

Alessandra Zanotto: “Centro de Análise de Fibras é o laboratório mais tecnológico e inovador que a gente tem na América Latina”. (Foto: Abapa)

Segundo o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), Gustavo Piccoli, a nova estrutura reforça a posição alcançada pelo Brasil no mercado internacional. “É uma demonstração do compromisso dos produtores brasileiros com a qualidade que tornou o país um dos principais fornecedores e o maior exportador de algodão do mundo”, enfatizou.  

Além de atender à produção de toda a Bahia, o Centro de Análise de Fibras analisa as amostras de pluma de algodão produzidas nos demais estados da região Matopiba (Maranhão, Tocantins e Piauí). A partir da produção de aproximadamente 495 mil hectares na região, o laboratório está preparado para analisar as amostras de fibras de algodão de 130 produtores associados, 160 fazendas e 73 unidades de beneficiamento.  

Processo de análise da fibra

De acordo com a Abrapa, quando a amostra da fibra de algodão chega no laboratório, ela é analisada pelos equipamentos de tecnologia HVI que medem seu comprimento médio, finura, resistência, maturidade, grau de brilho e de branco, entre outras características intrínsecas e extrínsecas da fibra. Desde 2016, o laboratório da Abapa participa do Standard Brazil HVI (SBRHVI), programa implantado pela Abrapa para garantir a padronização da análise de fibras de algodão no Brasil.

Características da fibra medidas pela tecnologia HVI (Fonte: Abrapa)

Com expectativa de analisar cinco milhões de amostras da safra 2025/2026, o novo Centro de Análise de Fibras de Algodão da Abapa é equipado com máquinas HVI nos modelos Uster HVI-1000 e HVI Automic Q Pro. A capacidade de análise, com os novos equipamentos do laboratório, passou de 34 mil para 40 mil amostras diárias.

De acordo com Sérgio Brentano, a indústria têxtil necessita dos dados de qualidade que são identificados no laboratório para fabricar um fio. A agilidade da análise desse processo é também um dos destaques dessa tecnologia. “O HVI é um equipamento que consegue fazer análise em alto volume. Então ele é muito rápido e isso permite a gente fazer análise fardo a fardo”, explicou. 

Sérgio Brentano: “cada fardo produzido nas lavouras e prensado nas algodoeiras, a gente consegue ter a informação de qualidade” (Foto: Abapa)

Treinamento dos trabalhadores

A capacitação profissional é uma das demandas atendidas pela Abapa na missão de profissionalizar cada vez mais o trabalho na cotonicultura. O Centro de Treinamento & Tecnologia (CT) da instituição realiza a capacitação de trabalhadores que estão ligados direta ou indiretamente ao campo há 16 anos. Em 2025, foram realizados 948 treinamentos/palestras que atenderam 17.564 participantes de 139 fazendas diferentes. 

A estrutura física do CT conta com laboratórios de Eletro-Hidráulica, Motores de Transmissão de Máquinas Agrícolas, Tecnologia em Aeronaves Agrícolas, Veículos Rodoviários, entre outros setores de treinamento. De acordo com a Abapa, o CT, atualmente, é uma das prioridades da associação, expandindo o treinamento até à comunidade local e combatendo o estigma de que “quem não estuda vai trabalhar na roça”. 

Simulador de equipamento agrário no CT (Foto: Letícia Vilasboas)

Com treinamento didático, o Centro de Treinamento promove uma capacitação profissional que valoriza a educação, com materiais didáticos e lúdicos. O coordenador do CT, Deibi Soares, informou que o público-alvo são pessoas com mais de 50 anos sem escolaridade formal, como ensino fundamental, médio e superior. Segundo ele, muitos operam tratores há mais de 30 anos, mas necessitam de letramento para identificar as informações do monitor. “A gente trabalha sempre para mostrar para eles que vale a pena voltar a estudar”, pontuou Deibe.

Deibi Soares em ciclo de visitas técnicas da Abapa (Foto: Abapa)

O uso de plataformas digitais é outro elemento presente nos cursos do CT. A Operations Center da John Deere é uma das que é ministrada em treinamentos, a qual permite o monitoramento completo das atividades e dos equipamentos envolvidos no trabalho rural.  Segundo o instrutor técnico do CT, Renan Buriti: “são indispensáveis para o treinamento os equipamentos de agricultura de precisão com receptores e monitores que permitem trabalhar com GPS, gerar mapas de produtividade e monitorar as operações em tempo real”. 

Os cursos são organizados de acordo com a janela produtiva do algodão e as demandas dos associados em cada etapa do trabalho na lavoura. No período de plantio, por exemplo, são oferecidas capacitações para operação de plantadeiras; durante o manejo da cultura, os treinamentos incluem pulverização com aviões e drones; e, na etapa final do ciclo, são realizados cursos de manutenção de colheitadeiras para preparar as máquinas para a colheita. 

A sustentabilidade também faz parte da grade curricular dos cursos do CT. De acordo com Renan, são promovidas ações sustentáveis, como a otimização do uso de água, fertilizantes e defensivos agrícolas através de treinamentos em agricultura de precisão, além de realizar treinamento para gestão de resíduos. Os cursos de pulverização ainda reforçam a preservação ambiental. “A gente identifica onde tem os pontos, por exemplo, de abelha, que a gente sabe que são polinizadores, a gente não pode impactar também o meio ambiente. Então, tem todo esse cuidado sustentável na hora de fazer uma aplicação”, esclareceu Deibi.

Trabalho manual também é destaque

Equilíbrio é a palavra que define a relação entre o trabalho manual e a automação tecnológica no agronegócio na Abapa. Para a segunda secretária da Abapa, Ana Paula Franciosi, o melhor dos mundos é a articulação entre ferramentas e pessoas. O contato com a lavoura é indispensável: “a gente não vai deixar de sujar a botina, de ir pro campo, de sentir o solo”, enfatizou. 

Nessa cadeia produtiva, nem a tecnologia mais avançada é capaz de substituir funções exclusivas do trabalho humano manual. Quando a pluma é separada da semente na unidade de beneficiamento de algodão, suas amostras são encaminhadas para a avaliação em laboratório, mas também são analisadas a olho nu. 

De acordo com o classificador visual de amostras de fibra de algodão da Unidade de Beneficiamento da Zanotto Cotton, Leonardo de Araújo Carvalho, o trabalho se diferencia da classificação realizada no laboratório por identificar as características da fibra: o benefício, a cor, o grau de folha e os contaminantes. A análise em laboratório não é capaz de identificar os diferentes contaminantes presentes na fibra. “O laboratório não consegue fazer [diferenciação dos contaminantes], pra ele [laboratório], contaminante tudo é folha”, explicou.

Leonardo explica a diferença entre classificação visual e classificação em laboratório (Foto: Letícia Vilasboas)

Além disso, o segundo vice-presidente da Abapa, Douglas Orth, destacou que a natureza ainda está acima de tudo no trabalho rural e que a produção depende disso. “O trabalho no campo de passar o trator, vir com a plantadeira para jogar semente no chão, olhar para o céu, ver se chove, isso vai continuar, não muda”, ressaltou.

Ana Paula Franciosi e Douglas Orth falam sobre trabalho no campo (Foto: Abapa)

É assim, com o desenvolvimento tecnológico e capacitação profissional andando lado a lado, num caminho que valoriza o trabalho manual e a força da educação, que a qualidade da produção do Oeste da Bahia é garantida e se torna um destaque no cenário da cotonicultura brasileira.  Como destacou Alessandra: “a Bahia tem um potencial de crescimento muito grande. E isso está alinhado à inovação, à muita tecnologia embarcada”.

*Reportagem produzida para a 6ª edição do Prêmio ABAPA de Jornalismo pela estudante Letícia Vilasboas, do 4º semestre do curso de Jornalismo da Uesb.