Trajetórias criativas: como a arte acompanha a vida de quatro jovens

Jovens contam como as expressões artísticas os ajudam a lidar com os sentimentos e a estimular a criatividade em meio à rotina de estudos 11 de junho de 2026 Iasmin Araujo*

Para alguns, a arte é um talento. Para outros, uma forma de expressão. Para Ana Caroline Novais, Camilla Nascimento, Enzo Santana Macedo e João Gabriel Trindade, ela se tornou também um refúgio diante dos desafios da vida. Em linguagens diferentes, música, desenho, pintura, canto e escrita, os quatro jovens encontraram maneiras de transformar sentimentos, experiências e inquietações em criação. O que começou ainda na infância, entre cadernos rabiscados, histórias imaginadas e melodias observadas com admiração, permanece presente na vida adulta como parte de suas identidades.

Quando criança, Ana Caroline Novais observava encantada o pai tocar piano na igreja que a família frequentava. “Era uma coisa mágica”, conta. Cercada por melodias e notas musicais, ela cresceu e transformou a paixão pela música em profissão. Hoje, aos 22 anos, atua como professora de teoria musical, ensinando outras pessoas a tocar instrumentos.

O repertório da jovem inclui conhecimento sobre canto, guitarra, baixo elétrico, violino, teclado, violão, ukulelê e bateria, mas o seu instrumento favorito é o piano. Diagnosticada com dislexia, a música se tornou para Ana uma ferramenta para lidar com as dificuldades de leitura e escrita ao longo da vida.

Na escola, a inserção da música na sala de aula a ajudou a compreender desde a tabuada até as expressões da língua inglesa. “Consigo me expressar por meio do canto e da música, uma vez que por escrito nunca foi fácil. Nos anos escolares, foi uma ferramenta que me ajudou com o aprendizado em meio aos obstáculos.”

Inspirada pelo papel transformador da música no seu processo de formação, Ana Caroline deseja ajudar outras pessoas, especialmente crianças e adolescentes neurodivergentes, a partir da musicoterapia, prática que utiliza a música, os sons e os ritmos para promover saúde física e mental. 

“Acredito que todo mundo deveria aprender pelo menos um pouco sobre música para se sentir bem”, afirma a multi-instrumentista. Mais do que uma profissão, a música, para ela, é uma forma de expressar os seus sentimentos, se conectar com a sua essência e eternizar na memória momentos de alegria e também de tristeza.

Ana Caroline se apaixonou pela música observando o pai tocar piano na igreja. Foto: Iasmin Araujo

A trilha sonora do filme de animação “A Noiva Cadáver”, de 2005, é uma dessas obras que fazem Ana lembrar de um momento da sua vida. “É um dueto que uma amiga me desafiou a aprender para apresentarmos em um acampamento da igreja”, explica.

Apesar dos planos, a apresentação nunca aconteceu. No período em que as amigas deveriam se encontrar, veio a pandemia da covid-19 e a necessidade do isolamento social. “Depois disso, acabamos perdendo contato. Então essa música se tornou um lembrete da nossa amizade.”

Outra canção que comove Ana Caroline faz parte de um repertório mais clássico, é a famosa “Valsa do Minuto”, do pianista polonês Fréderic Chopin. “Enquanto a música de ‘Noiva Cadáver’ causa melancolia, tristeza e conexão, a obra de Chopin provoca muita animação. Ela começa com notas firmes, de repente, o ritmo diminui, como se fosse a euforia dele de chegar na sua terra natal. Então, você se acalma e começa a sentir o vento, olhar o céu, sentir o cheiro das árvores, e se agita novamente.”

Seja tocando um clássico como Chopin ou canções mais populares, para Ana, a música a leva a lugares inimagináveis e a faz se sentir livre. “O ser humano tem essa capacidade de criar, então é impossível imaginar um mundo sem arte. Sem arte, sem música, a gente tem um mundo sem história.”

Sentimentos em desenhos 

Quem também não consegue imaginar um mundo sem as expressões artísticas é Camilla Nascimento. Aos oito anos de idade, ela começou a aprimorar seus desenhos, inspirada pelas animações que gostava de assistir. Hoje, aos 21, estuda Psicologia, mas, entre uma aula e outra, mantém a sua criatividade ativa, transitando entre o desenho, a pintura e o canto.

Sob o nome artístico Ilumica, a jovem desenhista utiliza os traços e as cores para exteriorizar suas emoções. “Consegui me encontrar por causa da arte. Não é uma coisa separada [de mim]. Faz parte da minha personalidade, de quem eu sou. É a forma que encontrei de expressar algo que talvez não consiga verbalizar”, ressalta.

Quando ingressou no curso de Psicologia, Camilla decidiu que deveria abandonar sua arte para se dedicar integralmente aos estudos. Mas logo percebeu que, ao se afastar dos desenhos e pinturas, não se sentia mais como ela mesma. “Não conseguia fazer nada direito. Tudo parou de fazer sentido durante um ano inteiro. Quando voltei a desenhar, foi como se o mundo tivesse voltado a ter cores.”

Nos desenhos de Ilumica, tudo é um reflexo de si mesma. Segundo a estudante, suas criações são cartunescas, se afastando do realismo, mas carregam até as características físicas da autora, seja o piercing ou o corte de cabelo. Atualmente, paralelo às atividades da graduação, ela desenha para os amigos, para si própria e por encomenda.

Desde criança, Camilla utiliza os traços e as cores para exteriorizar suas emoções. Foto: Iasmin Araujo

A artista explica que o seu processo criativo parte do que ela chama de “bagunça completa”. “Começa com uma ideia que surge de repente”, descreve. Diante da inspiração, ela rabisca e rascunha até a sua criação tomar forma. Quando se vê tomada por um bloqueio, busca se inspirar na arte ao seu redor, uma música, série ou filme. 

Entre o futuro na Psicologia e as cores dos seus desenhos, a única certeza de Ilumica é que ela nunca mais quer deixar de fazer arte, lugar onde se sente livre. “Eu sei que pode demorar, mas desejo futuramente me introduzir no meio artístico profissional. Não quero parar só porque comecei um emprego novo ou outra coisa que pode surgir.”

Liberdade da escrita

Uma outra forma de arte, a escrita, é a válvula de escape do estudante de Direito, Enzo Santana Macedo, de 19 anos. Para ele, criar histórias por meio das palavras, a partir do que observa no cotidiano, é uma maneira de se desconectar dos seus problemas pessoais para mergulhar nos universos de seus personagens.

Como leitor voraz de histórias em quadrinhos e todo tipo de literatura, a paixão pela escrita foi um caminho natural. “Em todo momento difícil da minha vida, eu tinha um livro que servia como respiro. E hoje, escrever uma história que dê alívio para as pessoas ou até que cause desconforto é algo que me interessa muito”, afirma.

Além de escrever histórias, Enzo desenha, mas ele não se considera muito habilidoso nessa área, por isso quase não guarda as suas ilustrações. “Mas acho importante se permitir fazer uma coisa “ruim” em um mundo que exige tanto da gente.” 

Assim como Camilla e Ana Caroline, o estudante de Direito acredita que o mundo sem arte seria “muito pior”. É na literatura que ele encontra um estímulo à imaginação e um espaço de liberdade. “Quando a gente escreve, estamos diante de um papel que não nos julga”, destaca.

Quando escreve suas histórias, Enzo se sente livre para colocar, sem medo de julgamentos. Foto: Iasmin Araujo

Segundo Enzo, o seu processo criativo começa com uma ideia que, em um primeiro momento, apenas é desenvolvida mentalmente, sem ser anotada no papel. Depois, ele elabora um esqueleto dividido em tópicos. Todas as anotações são armazenadas, principalmente, em dois cadernos. Mas, nem sempre o processo acontece nessa ordem. “É inconstante e demorado, e eu falo isso sem problemas.”

O jovem também não tem receio em admitir que o bloqueio criativo faz parte do processo.  Quando isso acontece, prefere não forçar a criatividade. Ao invés disso, lê outros livros, pratica exercícios físicos ou sai com os amigos. “Eu posso até forçar para ver como fica, mas não funciona para mim. O resultado não é uma coisa boa e interessante.”

No futuro, Enzo não se vê como escritor em tempo integral. As dificuldades da profissão, especialmente financeiras, o afastam de seguir esse caminho, mas, apesar disso, não pretende deixar a escrita. “É onde podemos fazer exatamente o que a gente quer e sente”, conclui.

Arte que persiste

Estudante de Ciências da Computação, João Gabriel Trindade, de 20 anos, começou sua relação com a arte ainda na infância. Desde criança, com a criatividade aflorada, gostava de desenhar. Na vida adulta, a paixão pelos traços no papel continou, não apenas como passatempo, mas como uma ferramenta para lidar com as ansiedades e sentimentos do processo de amadurecimento.

“Eu sou uma pessoa introspectiva, que guardo meus sentimentos e também vivo com o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, o TDH. Como minha cabeça está sempre a mil, a arte é uma forma de colocar essas ideias no papel”, conta o jovem.

João Gabriel tem muitos desenhos, vários deles em um caderno, com diferentes personagens originais e outras ideias que lhe vêm à mente. Seus planos artísticos envolvem o desenvolvimento de um jogo virtual e de uma história em quadrinhos. Das suas criações, ele não consegue escolher apenas uma para representar a sua essência, mas, entre os seus favoritos, está o personagem Pierre.

Ele explica que o seu processo criativo começa a partir de situações inusitadas. “Tive a ideia de um jogo que estou criando com um amigo quando estava lavando o banheiro”, diz. Por causa do TDAH, segundo João, muitas vezes é difícil passar da fase de empolgação inicial e seguir adiante para concretizar um projeto. Mas, ainda assim, ele persiste com suas criações.

João defende que um robô jamais será capaz de produzir arte que provoca emoção. Foto: Iasmin Araujo

Em um período no qual o uso da Inteligência Artificial (IA) está em todos os campos, João defende que um robô jamais será capaz de produzir o que ele considera arte. “A gente perde a criatividade, a emoção. É triste que a IA hoje consiga roubar estilos de artistas para gerar algo sem emoção.” Independente do futuro da tecnologia, ele segue acreditando no poder da arte feita por humanos.

Embora sigam caminhos acadêmicos distintos, eles compartilham uma mesma relação com a arte: a capacidade de traduzir emoções, aliviar ansiedades e construir sentidos para o cotidiano. Seja nas teclas de um piano, nos traços de um desenho, nas páginas de uma história ou nas cores de uma pintura, cada um encontrou na criação artística um espaço de pertencimento e expressão. Em tempos marcados pela velocidade e pelas pressões da vida cotidiana, suas trajetórias revelam como a arte continua pode ser uma ferramenta de autoconhecimento, resistência e cuidado consigo mesmo.

As histórias de João, Ana Caroline, Camilla e Enzo se conectam também porque todos compartilham do sentimento de que a arte, em suas diferentes manifestações, proporciona conexão e transformação. Inspirada pelos relatos, durante o processo de produção desta reportagem, eu desenhei, ouvi música, cantei, dancei. E assim como os meus entrevistados, tive a certeza de que a arte é uma ponte para a liberdade

*Essa reportagem faz parte da série Narrativas Afetuosas, produzida na disciplina Jornalismo na Internet II, durante o período especial, por alunos do 8º semestre do curso de Jornalismo da Uesb.

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