Tranças afro fortalecem a autoestima e identidade da população negra no interior da Bahia

A profissão de trancista foi reconhecida pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) em junho de 2025 e incluída na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) 4 de dezembro de 2025 Lázaro Oliveira*

Aos 17 anos, Arlene Oliveira iniciava a sua história com as tranças, uma arte ancestral que permeia gerações de mulheres negras. Inicialmente, era apenas um passatempo. Ela trançava o próprio cabelo e o de suas amigas no tempo livre, até que surgiu a vontade de transformar a atividade de lazer em profissão.

Na época, a jovem conquistense trabalhava como atendente em uma padaria, mas decidiu deixar o emprego e dedicar-se às tranças. Hoje, aos 23, Arlene completa quatro anos atendendo a domicílio e dois desde que abriu seu próprio estúdio, no bairro Patagônia. Além disso, atua como professora do curso de tranças no Projeto Social Maria Nilza, que atende moradores da zona oeste de Vitória da Conquista.  

Mais do que cuidado estético, o ato de trançar é herança de uma história de resistência da população negra. Legado vivo há séculos, a profissão de trancista só foi reconhecida pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) em junho deste ano. A atividade foi incluída na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), sob o código 5161-65, colocando os trancistas no grupo de profissionais da beleza, ao lado de cabeleireiros, barbeiros, manicures e maquiadores. 

A profissão de trancista foi reconhecida pelo Ministério do Trabalho em junho deste ano. Foto: Dóris Vitória.

A inclusão na CBO reconhece formalmente a atividade exercida principalmente por mulheres negras no país. A regulamentação aconteceu após a mobilização de movimentos sociais e agentes políticos. Na Câmara dos Deputados, Rogéria Santos apresentou o PL nº 2831/2024, com o apoio da vereadora de Salvador, Ireuda Silva, ambas do partido Republicanos, solicitando o reconhecimento da profissão.

Com a formalização, os profissionais podem emitir notas fiscais, fazer contribuições previdenciárias e emitir certificados de cursos profissionalizantes. Para a trancista Dóris Vitória, a mudança representa mais valorização da profissão. “Acredito que isso muda o olhar das pessoas sobre nós. Agora vão ter que nos enxergar e valorizar por bem ou por mal”, afirma.

Símbolo de resistência 

Especialista em corte de cabelos com curvatura, Dóris começou a trançar em 2017. O seu envolvimento com essa arte ancestral se deu a partir da sua transição capilar. “Percebi que as tranças poderiam facilitar esse processo e comecei a querer aprender para fazer no meu próprio cabelo. Quando eu me dei conta, já estava trançando minhas amigas e as pessoas queriam me contratar”, conta.

Inicialmente, ela prestava serviços para salões de beleza ao mesmo tempo em que realizava atendimentos a domicílio. Hoje, trabalha no seu próprio salão, que funciona na sala da casa dos seus avós. No estúdio Afro Visagem, localizado no Centro de Vitória da Conquista, as tranças são a sua principal fonte de renda.

“Cobro valores justos, tenho meus clientes fixos e faço novos clientes por dia, ganho mais que um salário mínimo. Também trabalho com cortes e tratamentos de cabelos crespos e cacheados, permanente afro e vendo alguns acessórios para outras trancistas e para meus clientes”, relata.

Segundo a trancista, a parte mais difícil de montar o seu próprio negócio foi a precificação do serviço. “Não tive aulas de educação financeira, então foi complicado”, diz. Mas, apesar dos desafios, ela vê nas tranças uma forma de ajudar outras mulheres negras a elevar a autoestima e ganhar confiança.

Dóris Vitória: “muitas mulheres estão empreendendo neste ramo. Agora vão ter que nos valorizar.” Foto: Arquivo Pessoal.

“As pessoas não fazem ideia do quão importante é a profissão de quem cuida da cabeça do nosso povo preto. E não tem ideia de quantas mulheres negras só são emancipadas financeiramente porque reproduzimos essa ferramenta ancestral”, destacou Dóris em seu perfil no Instagram no Dia da Consciência Negra.

Natural de Ibicuí, município a cerca de 130 km de Conquista, o trancista Elizeu Laurencio também compreende que as tranças são símbolos da identidade e resistência negra. “Hoje as pessoas usam trança por estética, mas muitos não sabem o peso histórico que este penteado carrega, não sabem, por exemplo, que antigamente as tranças serviam para carregar alimentos.”

Com o reconhecimento oficial da profissão, ele espera que sejam criados outros mecanismos para a valorização do ofício. “Queremos políticas públicas e que a sociedade abrace e apoie a causa.” Dóris espera o mesmo, especialmente por entender que as tranças são também fonte de renda. “Muitas mulheres estão empreendendo neste ramo. Agora vão ter que nos valorizar”, afirma.

Elizeu: “as pessoas usam trança por estética, mas muitos não sabem o peso histórico deste penteado.” Foto: Arquivo Pessoal.

Projeto Maria Nilza

Em Vitória da Conquista, o Projeto Social Maria Nilza vem ao longo dos anos oferecendo espaço para trancistas da cidade. Criada em 2020 por Mãe Naza, a iniciativa atende moradores do Patagônia e bairros próximos, especialmente a população em situação de vulnerabilidade socioeconômica. 

Além de aulas para trancistas, o programa oferece oficinas gratuitas de percussão para jovens e adolescentes, atendimentos médicos e psicológicos, por meio de parcerias com a Universidade Federal da Bahia (Ufba), cozinha solidária, biblioteca comunitária, alfabetização de adultos, judô, ballet, capoeira, libras e cursos profissionalizantes de manicure.

A trancista Arlene Oliveira é uma das professoras do Maria Nilza. Ela conta que a formação foi integrada ao projeto em 2024 com o intuito de possibilitar aprendizado à comunidade que não tem condições de pagar cursos particulares. “Atualmente o programa conta com 11 alunas, todas mulheres. Foi criado também para que elas consigam alcançar a independência financeira trabalhando para si próprias.”

Como uma mulher que conquistou autonomia financeira por meio das tranças, Arlene compartilha seus conhecimentos para que outras possam trilhar o mesmo caminho. Ao longo dos séculos, as tranças passaram de forma de comunicação em meio ao processo de escravização a símbolo de empoderamento.

Arlene Oliveira com uma de suas turmas do curso de tranças do Projeto Social Maria Nilza. Foto: Arquivo Pessoal.

Histórico cultural

A historiadora e mestra em Memória pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), Géssica Maria Silva, explica que as tranças têm um papel essencial na resistência negra contra a escravidão. “Elas serviam como rota de fuga para os quilombos, eram usadas como meio de comunicação já que os escravizados não podiam se comunicar livremente entre eles”, destaca.

Pesquisas apontam que não há uma história única dos trançados. Os povos africanos escravizados na Colômbia utilizavam as tranças como mapa para chegar até os quilombos. Na África Antiga, na ausência de um idioma universal, os penteados funcionavam como uma linguagem em comum. Diversas tribos e etnias usavam as tranças para indicar o estado civil, a classe social, a religião e o status do indivíduo na comunidade. 

Mulher negra e de axé, Géssica decidiu se aprofundar neste tema por conta do próprio cabelo. “Eu queria entender mais o contexto do meu cabelo crespo. Tenho uma avó indígena que trançava muito o cabelo por conta da influência e da convivência com as pessoas negras”, conta. 

A historiadora reforça que o ato de trançar é uma herança cultural. De mapa para fuga de escravizados a símbolo da beleza negra, as tranças vêm sendo ressignificadas ao longo das décadas, se transformando num elemento estético de autoafirmação e cultivo do amor próprio, especialmente para mulheres negras. 

Géssica Maria: “as tranças serviam como rota de fuga para os quilombos.” Foto: Arquivo Pessoal.

O estudo “Cabelos Sem Limites, Como Nós”, realizado pela marca Seda em parceria com o Instituto Sumaúma e a agência RPretas, em 2024, revelou que 8 em cada 10 mulheres negras consideram seus cabelos crespos e cacheados uma forma de expressão. 

A pesquisa ouviu mais de mil mulheres pretas ou pardas de 18 a 50 anos em Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. O resultado apontou que 70% delas sentem a pressão social para alisar seus cabelos, reflexo de uma sociedade racista que considera a beleza negra “inferior”.

Diante dessa realidade, os homens e mulheres negros que trabalham com as tranças perpetuam a potência e a riqueza da cultura afro-brasileira. O reconhecimento da profissão pelo Ministério do Trabalho significa mais um passo para a valorização dessa tradição ancestral e o fortalecimento da autonomia financeira da população negra. 

*Lázaro Oliveira é bolsista do Programa de Extensão Jornalismo como forma de Transformação Social no combate à Desinformação. 

Foto de capa: Arquivo Pessoal dos entrevistados.

Uma resposta para “Tranças afro fortalecem a autoestima e identidade da população negra no interior da Bahia”

  1. […] Dando voz às mulheres e a à comunidade LGBTQIAPN+, a editoria Maria Maria foi responsável por expor denúncias, desigualdades e oportunidades para o público. A repercussão do caso Esaú Matos fez com que a Comissão dos Direitos das Mulheres se reunisse com a Fundação de Saúde. Apuramos que as mulheres pretas recebem em média 56% menos do que homens brancos em Conquista. Outra matéria de destaque foi sobre o trabalho das trancistas no fortalecimento da autoestima da população negra. […]

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