Transição capilar: um reencontro de mulheres com a identidade
Diante da cobrança para que mulheres se encaixem em determinado "padrão de beleza", a valorização do cabelo natural se torna uma ferramenta de autoceitação e resistência 26 de maio de 2026 Driele Braga e Luíza Batista*Movida pelo desejo de retornar aos seus fios naturais e, assim, se reconhecer novamente no espelho, a influenciadora digital Linda Lis, de 30 anos, decidiu iniciar o processo de transição capilar. O fim de um relacionamento abusivo foi o pontapé que precisava para dar os primeiros passos. “Certa vez, ele me falou: ou você alisa o seu cabelo, ou a gente termina. E eu alisei”, conta. A partir do término, ela se libertou para trilhar um caminho de autoconhecimento e cura por meio dos seus cachos.
O fim da relação violenta e do alisamento marcaram o início do encontro consigo mesma, uma oportunidade de se conhecer por inteira. “Para mim, foi um processo de amadurecimento muito grande. Mudou a forma como eu me percebia. Hoje sou uma pessoa com muito mais certeza do que quero. Não só em relação ao cabelo, mas em tudo na vida”, explica.
A decisão por liberdade estética se desenrolou em autonomia financeira. Linda era pedagoga, mas nunca se encaixou completamente na profissão. Ao compartilhar sua vivência na internet, descobriu a paixão pela comunicação e há seis anos atua como influenciadora digital. “Agora, aos 30 anos e sendo mãe, eu voltei a estudar e estou fazendo publicidade, tudo por causa de uma transição capilar.”
Assim como um processo de cicatrização, a transição capilar exige tempo. Não existe fórmula pronta, a única constante é a paciência, seja com os fios ou com os sentimentos. É um caminho libertador, mas doloroso, que exige lidar com o julgamento alheio, além da própria insegurança. “É muito ruim você sair de uma prisão para entrar em outra. A decisão tem que ser sua de alisar, escovar, transacionar ou finalizar”, destaca a influenciadora.
Para Linda, o processo de transição durou 11 meses. A partir da sua experiência, ela deixa um conselho para outras mulheres que pensam em iniciar essa jornada: “Vai sem medo, sem tabus. Se jogue nos penteados, nas texturizações, e vá no seu tempo. A transição capilar é muito particular e só vai ser confortável se você esquecer tudo o que as outras pessoas falam. O cabelo é seu e você é livre para fazer o que quiser com ele. No fim, vale muito a pena”, conclui.
Pressão sobre as mulheres
Um estudo realizado pelo Instituto Beleza Natural em parceria com a Universidade de Brasília (UnB) revela que, assim como Linda Lis, cerca de 70% da população brasileira possui cabelos naturalmente ondulados, cacheados ou crespos. Ainda assim, alisar os fios desde a infância é uma realidade, especialmente para mulheres. Mais do que uma escolha estética, esse hábito expõe as marcas de uma sociedade que, por décadas, ensinou meninas a rejeitar os fios naturais e a se adequar a padrões impostos pela chamada “ditadura da beleza”.
Segundo a pesquisa, a pressão estética vai além da aparência, refletindo na identidade, autoestima e pertencimento. Desde cedo, há uma cobrança para que mulheres se adequem a determinadas características de corpo, estilo e cabelo. Esses estereótipos, amplamente reforçados pela mídia e pelas relações interpessoais, geram inseguranças na percepção de si. Assim, aquilo visto como fora dos padrões é frequentemente considerado inadequado e leva mulheres a recorrerem a procedimentos estéticos na tentativa de se encaixar e obter aceitação social.
Apesar disso, o movimento de autoaceitação entre mulheres tem crescido de maneira significativa. Dados divulgados pelo Google BrandLab, em 2017, apontam que a busca por cabelos com curvatura no Google superou as pesquisas por cabelos lisos. De acordo com o levantamento, houve um crescimento de 232% nas buscas por cabelos cacheados e 309% por cabelos afro. Em paralelo, o estudo constatou que uma em cada três mulheres foi vítima de preconceito relacionado ao cabelo, e quatro em cada 10 afirmaram já ter sentido vergonha dos seus cabelos cacheados.
É nesse contexto que surge a transição capilar, uma etapa de resgate de identidade e aceitação que ocorre quando se deixa de fazer processos químicos de alisamento e permite o cabelo natural crescer. Mais do que uma mudança de aparência, a transição representa um reencontro consigo mesma e um movimento de liberdade, mesmo que marcado por desafios.
Transição como escolha
A estudante Maria Eduarda Trancoso, de 18 anos, viveu na pele esse momento de transição. Para ela, a decisão de voltar aos cachos surgiu como uma necessidade. Há cerca de um ano, a jovem percebeu uma queda intensa dos fios, consequência do uso contínuo de produtos químicos alisantes. “Transição para mim é sinônimo de cabelo saudável.”
Para ela, o processo não tem sido tão difícil quanto costuma ser para outras mulheres. “Na verdade, não me afeta muito, mas sei que para a maioria das meninas é um processo terrível, no qual a autoestima vai por água abaixo. Como minha textura é mais ondulada, consigo disfarçar com mais destreza”, explica. Apesar de sua experiência pessoal não ter sido acompanhada de sofrimento, ela compreende que a transição é um caminho para o fortalecimento da confiança da mulher. “É uma transformação interna e externa”, ressalta a estudante.

Maria Eduarda iniciou o processo de transição capilar após sofrer com quedas de cabelo por causa do uso contínuo de produtos químicos alisantes. Fotos: Arquivo Pessoal
Para muitas mulheres, a ideia do cabelo liso como padrão de beleza é tão enraizada que a vontade de se encaixar surge ainda na infância. A estudante de Psicologia Paloma Neres, de 22 anos, sempre quis alisar os fios com uso de química, mas a sua mãe nunca permitiu. “Quando eu era criança, achava o máximo quando ela deixava eu escovar o cabelo. Lembro que, quando eu ia a lugares com muitas pessoas de cabelo liso, me sentia inferior. Achava que só pelo fato de a pessoa ter cabelo liso, ela já era mais bonita do que eu.”
Na adolescência, Paloma passou a cuidar dos próprios cabelos, mesmo sem saber exatamente como fazê-lo. Foi nesse momento que a sua percepção mudou. Ela passou a ter receio de alisar os fios, não gostar do resultado e precisar passar pelo processo de transição.
Hoje, a jovem compreende que os cachos são parte essencial da sua identidade. “Eu acho o máximo quando a pessoa, assim como eu, se identifica com os seus fios naturais, porque o cabelo é para a gente se sentir bem.” O cuidado com o cabelo então se tornou um momento terapêutico. “Amo lavar, finalizar e testar novas técnicas e produtos. E quando aliso o cabelo, sinto falta do volume dos cachos.”

Desde criança, Paloma Neres quis alisar os cabelos, mas era sua mãe quem não permitia. Fotos: Arquivo Pessoal
Aos 50 anos, Adriana Moreira já pensou em iniciar a transição capilar, mas ainda não se sente segura. Por enquanto, mantém uma relação de dependência com a progressiva. Ela começou a alisar os fios por volta dos 30 anos, até que se tornou um hábito. Mesmo antes da progressiva, já realizava escova com frequência. “Cabelo liso para mim é por praticidade”, explica.
Mesmo alisando os cabelos, a empresária compartilha do sentimento de Paloma de que o cabelo deve fazer a mulher se sentir bem e, por isso, a escolha de como mantê-lo deve ser individual. “Que as pessoas sejam felizes com qualquer tipo de cabelo”, afirma. “Ainda não tenho autoestima suficiente para passar pelo processo e ficar um longo período com o cabelo sem definição, mas acredito que cada um deve ter liberdade para fazer sua escolha”, complementa.

Adriana ainda não se sente segura para iniciar a transição capilar, mas compreende que a escolha de retornar aos fios naturais é individual. Fotos: Arquivo Pessoal
Histórias cruzadas (Luíza)
As histórias das mulheres entrevistadas até aqui se conectam com as vivências das autoras desta reportagem. Eu, Luíza Batista, fui uma criança vaidosa, apaixonada pela minha imagem, amava tirar fotos, desfilar, me apresentar e, principalmente, receber elogios. Minha “juba”, cacheada e longa, sempre foi minha principal característica. Por causa dos cabelos, minha avó materna carinhosamente me dedicava uma música sertaneja sobre uma menina com “os cabelos cor de ouro”. Meu cabelo era minha moldura, até deixar de ser.
Aos dez anos de idade, eu cometi o primeiro erro de uma menina cacheada: cortar o cabelo sem o devido cuidado. Ele perdeu toda a definição e a decisão de alisar foi antecipada. Filha de uma mãe de cabelos naturalmente lisos e cercada por mulheres de cabelo liso ou alisado, passei a acreditar que esse era um caminho inevitável.
Assim, alisei meu cabelo pela primeira vez antes de iniciar o Ensino Fundamental II. No salão, a dor foi inexplicável, mas, para mim, naquele momento, era um pequeno preço a se pagar pela realização de um novo sonho. A partir disso, passei a ficar obcecada pelo liso perfeito, alinhado, sem volume, sem personalidade.
Anos depois, em um sábado ocioso no mês de agosto de 2019, decidi que não alisaria mais meu cabelo. Eu não sabia ainda o que aquela decisão significava, mas fiz questão de comunicar aos amigos e familiares. Desde aquela tarde, eu experimentei uma nova maneira de existir no mundo, e por três anos e um mês, precisei reafirmar minha escolha diariamente.
Diante de críticas constantes, desistir da transição capilar parecia a única opção, mas optei por recusá-la. Voltei a ser um pouco criança e passei a fazer diversos penteados para domar as novas ondas que surgiam na raiz do meu cabelo. Aprendi a conviver com a curvatura, com o volume e até mesmo com o frizz. Já em 2020, o mundo foi atravessado pela pandemia da Covid-19, e na condição de quarentena, meu cabelo se tornou um desafio pessoal, aumentei os cuidados e passei a acompanhar meninas e mulheres com experiências similares para me inspirar.
É nesse ponto que as histórias das duas autoras se cruzam. Quando eu, Luíza, busquei outras mulheres para me auxiliar no processo de transição, encontrei Driele Braga.
Histórias cruzadas (Driele)
Eu, Driele Braga, sempre odiei o meu cabelo cacheado. Na escola, as mais “populares” tinham o cabelo liso, assim como as atrizes de novela, as crianças nas propagandas de televisão e as personagens dos desenhos animados. Por muitos anos, todos esses “modelos” de beleza ao meu redor fizeram com que eu não gostasse do que via no espelho.
Ainda na infância, fui levada por minha avó a um cabeleireiro. Ela tinha boas intenções, pediu para que ele fazer um tratamento para diminuir o volume. Não sei ao certo a idade que tinha, acredito que cerca de 11 anos. Na ocasião, o profissional aplicou uma química no meu cabelo. Eu não sabia o que era, não entendia, mas lembro de ter achado estranho o cheiro que ficou nos meus fios por alguns dias. Por sorte, não perdi os meus cachos. Eles resistiram.
Foi aos 14 anos, na adolescência, que pedi à minha mãe para me deixar alisar. Ela resistiu, disse que eu iria me arrepender e que meus cachos eram lindos, mas eu não acreditava. Não saía mais com o cabelo solto, usava coque em todos os momentos e ocasiões. Após muito insistir, ela deixou. Fomos a um salão próximo ao trabalho dela, lembro como se fosse hoje. O olho ardia, o couro cabeludo coçava, queimava e eu me tremia. Estar ali era terrível, mas pior ainda era viver sendo uma cacheada.

Ainda criança, pressionada pelos “modelos” de beleza ao seu redor, Driele alisou os cabelos pela primeira vez. Fotos: Arquivo Pessoal
A partir desse momento, as escovas e os alisamentos começaram a fazer parte da minha rotina. Eu não saía de casa sem que o meu cabelo estivesse totalmente liso e escorrido, não podia ter um fio fora do lugar, me sentia realizada. Pensando no futuro, eu imaginava me casar com um homem de cabelo liso para os meus filhos nascerem com o cabelo menos cacheado e volumoso que o meu. E assim vivi até os meus 18 anos.
Foi em 2019 que tudo mudou, fiz um long bob. O corte mais curto trouxe muita praticidade à minha rotina. Comecei a deixar os fios secarem naturalmente, o cabelo ficava muito mais cheiroso. Essa facilidade fez com que eu repensasse toda a minha jornada capilar, e foi aí que tomei a decisão mais importante de toda a minha vida: passar pela transição capilar.

Driele e Luíza se conheceram e se aproximaram quando as duas ingressaram no curso de Jornalismo da Uesb. Foto: Arquivo Pessoal
Decidida, logo comecei a pesquisar sobre o processo. Comprei um creme, fiz texturização, usei até uma peneira como difusor. Poucos meses depois, veio a pandemia. A Covid-19 obrigou todos a ficarem trancados em casa. Apesar do terror vivido, vi ali uma oportunidade de começar a compartilhar o meu processo de transição capilar nas redes sociais. Para a minha surpresa, muitas mulheres, assim como eu, estavam passando pela mesma situação. E assim, virei uma influenciadora.
Inicialmente, foi por meio das redes sociais que eu e Luíza nos conectamos. Ela virou minha seguidora. No Instagram, passou a acompanhar de longe o meu processo de transição capilar enquanto trilhava o mesmo caminho. Uma em Minas Gerais, e outra na Bahia, juntas, amadurecemos e entendemos que nossos cabelos cacheados nos deixavam ainda mais bonitas.
Já em 2022, com interesses em comum, nós duas fizemos o vestibular para o curso de Jornalismo na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), em Vitória da Conquista. Fomos aprovadas para a mesma turma. Por meio de um trabalho acadêmico, como esse, começamos uma aproximação. Construímos uma amizade, conectadas pelas linhas escritas e as curvas dos nossos cabelos. E assim, as nossas histórias se conectam com as de tantas outras mulheres que, apesar de terem sido moldadas desde cedo para se encaixarem em um “padrão de beleza”, encontraram na transição um caminho de aproximação consigo mesmas e elevação da autoestima.
*Essa reportagem faz parte da série Narrativas Afetuosas, produzida na disciplina Jornalismo na Internet II, durante o período especial, por alunos do 8º semestre do curso de Jornalismo da Uesb.


