Um olhar para as escrevivências femininas em Vitória da Conquista

Neste 25 de julho, data em que celebramos o Dia Nacional do Escritor, voltamos o olhar para as vozes femininas no cenário literário do Sertão da Ressaca 25 de julho de 2025 Ane Xavier*

Neste 25 de julho, o Brasil celebra o Dia Nacional do Escritor. A data, oficializada em 1960, surgiu após o I Festival do Escritor Brasileiro, no Rio de Janeiro. Escrevo este artigo inspirada nessa homenagem à literatura e no termo escrevivência, criado por Conceição Evaristo para designar a criação literária a partir das experiências de mulheres pretas. Aqui uso o termo expandindo o olhar para as vozes femininas em geral, especialmente para aquelas inseridas no cenário literário do Sertão da Ressaca, em Vitória da Conquista.

Este movimento, que me interessa enquanto estudante de Jornalismo e entusiasta da literatura, revela algo que vale destacar: o ato de escrever a partir de uma experiência feminina carrega especificidades e maneiras de resiliência indissociáveis das questões de gênero. Como observou Elena Ferrante em sua obra “As margens e o ditado”, de 2022, “a pura e simples união do eu feminino à História muda a História”, uma verdade que ganha forma no cenário conquistense.

Em Vitória da Conquista, no Sudoeste da Bahia, o fazer literário feminino é, antes de tudo, um esforço em grupo, alimentado pela troca entre elas e pela força de suas próprias histórias. Neste Dia do Escritor, esse movimento ganha um sentido ainda mais forte, pois a resistência que ele carrega não fica só nos livros, mas começa a mudar a cultura da cidade.

No município, a Comunidade Palavrilhas, idealizada pelas escritoras noi soul e Ybeane Moreira, é um exemplo dessa articulação feminina que se manifesta através de diversas ações culturais. Seu clube de leitura reúne nove autoras conquistenses para ler, resenhar e divulgar obras literárias, especialmente as de mulheres, nas redes sociais. A dinâmica do clube incentiva que a leitura não seja apenas um ato individual, mas uma prática coletiva de propagação da palavra.

A comunidade também expande sua atuação por meio de oficinas literárias realizadas em feiras e eventos culturais, como a oficina “Palavrilhar” na Feira Literária de Poções. Nessas atividades, o grupo compartilha processos criativos e promove exercícios de escrita e leitura sensível. Além disso, realiza intervenções artísticas como o “Pote Palavrilhas” e “Sussurros Poéticos”, quando poemas de autoras da cidade são distribuídos em diferentes locais, a exemplo da Clínica Sensi, focada no tratamento da saúde mental.

O Palavrilhas também lançará uma antologia que carrega o mesmo nome do projeto, que contará com mais de 30 mulheres conquistenses, algumas delas publicando pela primeira vez. A comunidade fará o lançamento dessa obra no evento literário FliConquista, marcado para os dias 24 a 28 de setembro no Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima. 

Outra manifestação dessa efervescência coletiva são os Saraus Elas in Versos, coordenados por Nádja Leite, Fernanda Quadros, Ana Luz, Ybeane Moreira e noi soul. Surgidos da união de mulheres escritoras e artistas que se interessam pela palavra e a transformação social, esses saraus se propõem a serem espaços de escuta, acolhimento e resistência. Eles ocupam diversos espaços culturais da cidade e participam de feiras literárias em outras localidades, como Malhada de Pedras, Itapetinga e Mucugê.

O Elas in Versos visa o fortalecimento coletivo feminino, oferecendo um palco para vozes que historicamente foram silenciadas ou marginalizadas. Em suas edições, o sarau reúne poesias autorais, músicas, performances e partilhas sensíveis que revelam a potência criativa das mulheres da região. De acordo com suas idealizadoras em entrevista para a Mega Rádio, a importância desse projeto está na afirmação identitária, no incentivo à leitura e escrita para meninas e mulheres jovens, e na ocupação simbólica e política do espaço público, que seria uma semente para a reconfiguração da paisagem cultural local. 

Ao se inscreverem na tradição literária, escritoras não apenas narram suas experiências, mas fazem algo potente: elas reconfiguram as possibilidades de representação. Nesse sentido, a escrita das mulheres não deve ser vista apenas como uma contribuição à literatura, mas como um gesto político e histórico de inserção e transformação a partir da palavra.

O cenário literário nacional reflete a urgência de termos mulheres ocupando os espaços de escrita. Uma pesquisa da Câmara Brasileira do Livro (CBL), divulgada em fevereiro de 2025, aponta que mais de 60% dos compradores de livros nos últimos 12 meses no Brasil são mulheres. Contudo, quando pensamos no perfil dos escritores, um estudo da Universidade de Brasília revela que, de obras nacionais lançadas entre 1965 e 2014, mais de 70% foram escritos por homens, sendo 90% por autores brancos, e pelo menos metade deles oriundos do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Diante desse cenário, é possível afirmar que escrever sendo mulher e nordestina constitui um ato de rebeldia. Em Vitória da Conquista, a publicação dessas vozes, como as que emergem em obras como “As abelhas sabem que horas são”, de Ana Luz , “Eu, tu, ela, nós, mulheres”, de Ybeane Moreira, “descompassos”, de noi soul, “Outros tragos”, de Fernanda Quadros, “Cartas para a minha avó”, de Nadja Leite , “Agulha de marear”, de Cristina Leilane, e “9 vidas”, de Chirles Oliveira, consolida uma força coletiva que segue abrindo caminhos.

A escrita das mulheres em Vitória da Conquista transcende a mera contribuição literária. É um gesto político e histórico de inserção e transformação a partir da palavra. Ao observar essas autoras publicando e criando espaços, percebo em mim uma tranquilidade otimista: mesmo com os desafios, a literatura feita por mulheres segue abrindo caminhos. Há quem escreva, organize, sustente e celebre essa produção não apenas com iniciativas, mas com a potência inegociável da palavra. Este movimento consolidado reforça o chamado à valorização e celebração contínua da literatura feminina local. Que possamos ler, ouvir, divulgar e celebrar as mulheres.

*Ane Xavier é estudante de Jornalismo na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb). Atua na redação da Mega Rádio, onde assina a coluna Entre Linhas, seção dedicada à literatura. Interessa-se especialmente pelas intersecções entre jornalismo e linguagem literária. 

Foto de capa: Freepik.

Uma resposta para “Um olhar para as escrevivências femininas em Vitória da Conquista”

  1. […] Vitória da Conquista (BA), o Avoador publicou uma reflexão sobre a potência das escrevivências femininas e projetos que mostram que a leitura não é só um ato […]

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