Um “Orelha” em cada esquina: cachorro é esfaqueado e casos de maus-tratos se acumulam em Conquista

No dia 21 de fevereiro, um animal foi alvo de golpes de faca no bairro Simão. O caso expõe a violência e o descaso com as vidas de animais nas ruas da cidade 3 de março de 2026 Rian Borges*

No dia 21 de fevereiro, no bairro Simão, um cachorro foi esfaqueado por um homem enquanto dormia na rua. As imagens do ataque brutal, registradas por câmeras de segurança, circularam nas redes sociais após denúncia do Grupo Quatro Patas, coordenado por Débora Almeida, que atua em defesa dos animais em Vitória da Conquista. O caso é um entre muitos que expõem a violência e o descaso com as vidas de animais nas ruas da cidade.

Segundo a protetora animal, o cachorro, batizado de Beethoven, é idoso e tem um tutor, mas estava nas ruas quando foi ferido. Ele foi resgatado quase uma semana depois do ataque e passou por um procedimento cirúrgico, mas, como sequela, está com uma paralisia do lado direito do corpo. Para voltar a andar sobre todas as quatro patas, precisa de medicamentos e fisioterapia. Para isso, a ONG pede doações via PIX (040.561.095-59).

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Após o esfaqueamento, Beethoven ficou com sequelas no corpo. Foto: Débora Almeida.

Assim como Beethoven, outros animais são atacados e abandonados na rua. A estudante de História da Uesb, Aline Rocha Santos, de 42 anos, também viu de perto essa crueldade. Ela descia uma rua próxima de sua casa, no bairro Brasil, quando ouviu um miado e, em seguida, viu um motoqueiro passar em alta velocidade. “Quando a gente chegou perto, nós percebemos que ele tinha passado por cima da gata. Ele não prestou socorro”, conta. Comovida com a situação, ela resgatou o animal e levou-o ao veterinário.

No consultório, a médica disse que nem uma cirurgia conseguiria corrigir a fratura causada pelo atropelamento. Desde então, a gata, que recebeu o nome de Mine, vive sem movimentar uma das patas. Há três anos, ela mora com Aline, ao lado dos gatos Diego, Poka, e os cachorros Pig e Bruce. “O plano era cuidar para a adoção, mas ela se tornou um pouco arisca, então a gente optou por ficar com ela”, diz.   

Assim como Mine, Poka, uma felina de cor laranja, foi resgatada de uma situação de abandono. Ainda filhote, a gata foi encontrada por Aline em um galpão de uma fábrica de colchões. “Eram dois filhotinhos, a Poka e um gatinho branco. Quando fui buscá-los, o proprietário alegou que matou a mãe porque ela pariu em cima dos colchões dele.” A estudante pensou em denunciá-lo, mas desistiu.

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Gata Mine (1ª imagem); Mine e Poka juntas (2ª imagem); e Poka e o gato Diego (3ª imagem). Fotos: Arquivo Pessoal.

Resgates voluntários 

Quando animais são violentados nas ruas, são pessoas como Débora e Aline que assumem a responsabilidade dos cuidados com a ajuda de doações e, muitas vezes, por conta própria. Foi o que aconteceu com a estudante de Psicologia Ellen Ranna, de 19 anos, que resgatou e cuidou temporariamente de Dalila, uma cadela que sofreu queimaduras na cabeça.

“Ela apareceu aqui na calçada de casa. Ficamos sabendo através dos vizinhos que ela tinha tido filhotes em um terreno baldio, e que provavelmente o dono do terreno havia jogado água quente nela”, conta Ellen. A violência aconteceu em 2021 e os filhotes de Dalila nunca foram encontrados. 

Segundo a estudante, sua família não tinha condições financeiras para pagar o tratamento do animal. A situação foi resolvida quando a mãe de Ellen entrou em contato com amigos e conhecidos. Eles levaram Dalila ao veterinário e ajudaram a custear os medicamentos. “Cuidamos por uns 3 meses. A cabeça dela ficou com uma cicatriz, que não cresceu mais pelos, mas mesmo assim ela ficou bem.” 

Atualmente, a família de Ellen não tem mais contato com Dalila. Durante sua recuperação, eles tentaram adotá-la, mas o animal não se adaptou ao ambiente que já contava com outros três cachorros. A cachorra acabou sendo adotada por uma família da zona rural. 

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Queimaduras na cabeça da cadela Dalila. Ela se recuperou e vive com uma família na zona rural. Fotos: Arquivo Pessoal.

A mesma sorte que acompanhou Dalila depois da violência também alcançou a cadela Isabela, atropelada por uma picape Hilux em dezembro de 2023. Na ocasião, Monique Fernandes Palles, coordenadora de RH de 38 anos, resgatou o animal com uma mulher que passava no local no momento do acidente. Elas levaram Isabela para uma clínica veterinária. 

A cadela teve que ser internada e o veterinário informou a Monique que o animal precisaria passar por cirurgia. “Eu não tinha condições financeiras de mantê-la internada nem de arcar com o procedimento naquele momento, fiz rifas para pagar o tratamento”, explica a coordenadora.  

Monique optou por levar Isabela para sua casa sem realizar o procedimento cirúrgico. Ela entrou em contato com um especialista, que a recomendou esperar 45 dias para analisar a evolução do animal. Durante esse período, ela procurou ajuda de uma Organização Não Governamental (ONG) de proteção animal, que lhe informou não ser possível ajudar no tratamento. 

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Isabela sofreu fraturas nas patas depois de ser atropelada por um carro. Recuperada e saudável, ela passou a viver com Monique. Fotos: Arquivo Pessoal.

Em conjunto com a mulher que a ajudou no resgate, Monique assumiu integralmente os cuidados de Isabela. De acordo com a coordenadora de RH, atualmente, a cadela está totalmente recuperada. Ao lado de outros três cachorros e uma gata, ela vive com Monique como um membro da família. 

“Me sinto grata, orgulhosa, feliz e realizada por conseguir salvar a vida dela e dar um lar a ela. É a prova de que o tempo e o amor cura tudo. Ela é apaixonada por mim, muito apegada”, relata Monique. “Já resgatei outros cães e consegui um lar para eles, é uma sensação de dever cumprido”, complementa. 

Leis de proteção

Para proteger animais como Dalila e Isabela, existem leis, mas, ainda assim, ativistas avaliam que o problema é invisibilizado. Para Débora Almeida, do Grupo Quatro Patas, é necessário que a causa animal seja levada a sério. “É necessário que o Poder Público dê mais atenção para essa questão e, principalmente, que a Polícia colabore, porque enfrentamos muita dificuldade para fazer denúncias.”

O crime de maus-tratos a animais no Brasil passou a existir em 1998, quando o então presidente Fernando Henrique Cardoso sancionou a Lei Nº 9.605/98, que previa detenção de três meses a um ano para quem maltratasse qualquer animal.  

Em 2020, o Congresso Nacional aprovou uma atualização da antiga lei, propondo aumentar a pena contra quem comete crimes de maus-tratos especificamente contra cães ou gatos. A Lei 14.064/2020 foi sancionada por Jair Bolsonaro no dia 29 de setembro do mesmo ano.  

A legislação vigente determina que o crime é cometido quando há abuso, ferimento, mutilação ou envenenamento; zoofilia; negligência ao não fornecer comida, água, higiene ou abrigo adequado; crueldade em treino ou exibições; provocar situações de estresse no animal, como brigas; negação de assistência veterinária; e abandono. 

Em janeiro de 2026, a prefeitura de Santos (SP) ampliou o entendimento sobre o crime e aprovou uma lei que aplica punição financeira para aqueles que deixam cães e gatos sozinhos em ambientes particulares por períodos superiores a 36 horas.  A medida determina que quem desrespeitar o tempo estabelecido em lei pode arcar com multa de até R$ 10 mil.

Além disso, atualmente, tramita no Congresso Federal um Projeto de Lei (PL) que trata especificamente do crime de atropelamento de cães e gatos. De autoria do Senador Jorge Kajuru (Cidadania-GO), o PL 4.786/2020 propõe uma alteração no Código de Trânsito Brasileiro (CTB) que passaria a responsabilizar o condutor envolvido no acidente.   

A proposta estima pena de seis meses a dois anos de prisão para o responsável, com suspensão ou proibição para dirigir. Casos em que o condutor estiver sob efeito de substâncias alcoólicas ou psicoativas; sem carteira de habilitação; e omitir socorro ao animal, a punição poderá aumentar. Quando houver a morte do animal, a pena passa a ser de dois a quatro anos de prisão.

Como denunciar maus-tratos

Em situações de flagrante, o primeiro passo para denunciar o crime de maus-tratos é ligar para a Polícia Militar por meio do 190. Caso a violência seja contínua, é possível telefonar para o Disque Denúncia (181) e, em ambas as situações, deve-se informar o endereço exato, a descrição do ocorrido, assim como as características físicas do responsável.  

O caminho formal também é recomendável. Para isso, é necessário dirigir-se a uma delegacia de polícia e registrar um Boletim de Ocorrência (BO) contendo provas, como endereço, mapas, fotos, vídeos, laudos ou atestados veterinários e relatos de testemunhas. 

É possível denunciar também ao órgão público competente de seu município, para o setor que responde aos trabalhos de vigilância sanitária, zoonoses ou meio ambiente. Outros canais de denúncias são o Ministério Público (MP), o Disque Linha Verde do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), principalmente quando se trata de animais selvagens, silvestres ou exóticos.           

Caso a denúncia seja em relação a animais que estão sendo utilizados para pesquisa ou ensino, o canal é a Comissão de Ética no Uso de Animais (Ceua) por meio do Sistema de Ouvidorias do Poder Executivo Federal. Profissionais da área, como médicos veterinários e zootecnistas, também podem ser denunciados em casos de violência. Além de registrar a denúncia nos órgãos competentes, é necessário encaminhá-la ao Conselho Regional de Medicina Veterinária (CRMV).   

Políticas em Conquista

Nos últimos quatro anos, a Prefeitura de Conquista anunciou três medidas relacionadas à causa animal: a criação do Centro de Apoio à Saúde Animal (Casa) em 2023; a implementação do programa Castramóvel em maio de 2024; e a adoção, em agosto de 2025, do sistema SinPatinhas, ferramenta criada pelo Governo Federal para registrar cães e gatos com uma carteira de identidade. 

Apesar de reconhecer os avanços, o ativista da causa animal e gestor público Vitor Quadros analisa que o cenário no município é preocupante. “Conquista é a única cidade média do Brasil que não tem centro de zoonoses e que, segundo a prefeita, não precisa. Não há conselho ativo, plano e fundo municipal específico”, destaca. 

A criação de um Conselho Municipal de Proteção Animal já foi proposta em diversas ocasiões por representantes da sociedade civil e do Legislativo municipal. Em 2022, o vereador Delegado Marcus Vinicius (PODEMOS) indicou à prefeita Sheila Lemos (União Brasil) a criação do Conselho dos Direitos Animalistas. 

No dia 31 de julho de 2025, a Prefeitura anunciou o envio à Câmara Municipal do Projeto de Lei nº 23/2025, que propõe a criação do Conselho Municipal do Bem-Estar Animal (Combeam). Também foi apresentada a proposta de construção do Centro de Reabilitação de Animais Especiais (Crae), com investimento de R$ 500 mil, a ser custeado pelo Fundo Municipal de Meio Ambiente.

De acordo com a gestão municipal, o conselho atuará como órgão colegiado na formulação da Política Municipal de Proteção e Defesa dos Animais. Já o Crae deve abrigar animais idosos, doentes ou fêmeas com filhotes, ampliando os serviços atualmente oferecidos pelo Centro de Apoio à Saúde Animal (Casa) e pelo Castramóvel. Mas até esta publicação, as propostas não tinham saído do papel.

Em 2025, a vereadora Gabriela Garrido (PV) e o ativista Vitor Quadros foram responsáveis por mobilizar a criação do Programa Proteção, Defesa, Bem-Estar e Direitos dos Animais, lançado em outubro na Câmara Municipal. O programa, que terá duração de oito meses, tem parceria com a Escola de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade Federal da Bahia (Ufba), encarregada por desempenhar as atividades técnicas.

A iniciativa, que está funcionando desde janeiro, conta com verba de R$ 1 milhão via emenda parlamentar do deputado federal Waldenor Pereira (PT). Entre as ações previstas, serão realizadas campanhas educativas sobre a guarda dos animais, prevenção de doenças, assim como mutirões de castração e vacinação. O programa ainda prevê a implantação de microchips em cerca de 3 mil cães e gatos.

Protetores independentes

Diante da ausência do Poder Público, os animais que sofrem maus-tratos ou são vítimas de acidentes são acolhidos por ONGs ou protetores independentes, como a assessora parlamentar e estudante de Medicina Veterinária, Hallana Andrade Araújo, de 39 anos. Em sua residência, ela cuida de 15 animais, 13 cachorros e dois gatos, todos resgatados das ruas.  

A história mais recente é a da cadela Jumma, que vivia na feira do bairro Alto Maron e, em dezembro de 2025, foi resgatada por Hallana. De acordo com a assessora, a cadela foi atropelada e teve fraturas na pata direita, o que levou a uma infecção no osso. “Nenhum grupo conseguiu pegar ela, e eu fiquei horas aguardando e consegui”, relembra.

Devido à infecção, Jumma teve que amputar a sua pata e a dívida com o tratamento da cadela, que também passou por uma castração, chegou a cerca de R$4 mil. A despesa foi paga com o auxílio de doações. Segundo Hallana, Jumma adquiriu traumas nas ruas que ainda precisam ser cuidados. “Todo dia tem um avanço, ela já me deixa fazer carinho sem tanto medo e aos poucos está mais segura aqui.”

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Jumma teve a pata direita amputada devido às complicações do acidente. Fotos: Arquivo Pessoal. 

Em 2018, a protetora também foi responsável pelo resgate do cão Bernardo, atropelado na saída para o município de Barra do Choça. Ela recorda que o condutor do veículo desceu do carro e pegou uma pedra para bater na cabeça do cachorro sob a justificativa de eliminar as dores do animal.

Hallana arrecadou dinheiro para realizar uma cirurgia em Bernardo, que teve as patas fraturadas. Devido ao estado do cão, o procedimento cirúrgico não pôde ser feito, então, ela utilizou o dinheiro para comprar uma cadeira de rodas, fraldas e realizar sessões de fisioterapia. O cachorro viveu sob os cuidados da assessora durante dois anos antes de falecer.

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Adotado por Hallana, o cão Bernardo não tinha os movimentos das patas traseiras. Fotos: Arquivo Pessoal.

Com o aumento de casos de maus-tratos em Conquista, ativistas como Débora Almeida defendem que é preciso mais consciência e empatia. “Conquista é uma cidade extremamente violenta com os animais. É preciso de atenção do Poder Público, consciência da população e dos agentes de segurança. Maus-tratos é crime e as pessoas que cometem precisam responder”, finaliza.

Relembre o caso Orelha 

O caso do cão comunitário Orelha, agredido no dia 4 de janeiro em Praia Brava, bairro turístico da cidade de Itajaí (SC), chamou a atenção do país para a violência contra os animais. Ele foi encontrado ferido e agonizando por pessoas que estavam no local, levado a uma clínica veterinária e, no dia seguinte, morreu devido à gravidade dos ferimentos.

Exames periciais da Polícia Científica apontaram que o cão foi atingido na cabeça com um objeto contundente, ou seja, sem ponta ou lâmina. Esse objeto usado na agressão ainda não foi localizado. Segundo a polícia, não há imagens do momento exato das agressões. 

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Orelha era tratado como um dos guardiões da Praia Brava, em Santa Catarina. Foto: Reprodução Internet.

Inicialmente, quatro adolescentes foram identificados como suspeitos de cometer o crime de maus-tratos contra o cão. Dois deles estavam em uma viagem escolar nos Estados Unidos quando a Polícia Civil cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços dos investigados. Os nomes e idades não foram divulgados, conforme prevê o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). 

No dia 3 de fevereiro, a polícia concluiu as investigações sobre a morte do cão Orelha e apontou apenas um adolescente como autor das agressões. Ele é um dos que estava nos Estados Unidos durante parte das investigações. À época, a polícia pediu a internação provisória do adolescente.

Depois de receber o relatório de conclusão das investigações, o Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) solicitou à Polícia Civil, no dia 10 de fevereiro, informações complementares sobre o caso, apontando que o material coletado apresentava lacunas. 

Entre os pedidos do MPSC, estava a exumação do corpo do cão Orelha, que foi realizada no dia seguinte ao pedido da Justiça. 15 dias depois, o laudo pericial da Polícia Científica de Santa Catarina não identificou a causa da morte do cachorro

Os peritos destacaram limitações para a realização do trabalho. O animal, por exemplo, já estava em fase de esqueletização, comprometendo a análise de tecidos moles.

*Rian Borges é bolsista do Programa de Extensão Jornalismo como Forma de Transformação Social no Combate à Desinformação.

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