A vida de quem deixou tudo para trás: os desafios dos estudantes universitários longe de casa
Ao migrar em busca do sonho do ensino superior, jovens enfentam a solidão, as expectativas sobre o futuro e as dificuldades financeiras de permanecer na universidade 18 de maio de 2026 Bruna da GuardaAs mudanças vêm acompanhadas de novas sensações e sentimentos. Para alguns, é o entusiasmo diante do novo. Para outros, o apego ao que ficou. Na minha vida, esse processo começou cedo, quando deixei minha cidade natal, Itiruçu, aos 14 anos, para cursar o ensino médio em Jequié. Anos depois, veio outra mudança. Desta vez, o destino foi Vitória da Conquista, para ingressar no ensino superior. Mais do que me adaptar à universidade, o desafio foi recomeçar, construir uma nova rotina e novos vínculos.
No início, tudo parece descoberta. A curiosidade, a vontade de explorar a cidade e a sensação de liberdade. Mas, com o passar do tempo, o entusiasmo dá lugar a outro sentimento mais perturbador: a solidão. E essa sensação está longe de ser individual.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, em 2022, cerca de 3,8 milhões de brasileiros se deslocaram para outro município em busca de instituições de ensino. Desse total, 45% são estudantes do ensino superior. Na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), pessoas de cerca de 200 municípios do estado e do Norte de Minas Gerais compõem a comunidade acadêmica. Ao todo, no ano de 2026, são mais de 6,5 mil alunos distribuídos entre os campi de Itapetinga, Jequié e Vitória da Conquista.
Por trás desses números, existem histórias atravessadas por distância, adaptação e determinação. Histórias de quem deixa tudo para trás em busca de um futuro possível. Gosto muito de um trecho do livro “Meus desacontecimentos”, da jornalista Eliane Brum, que diz: “de certo modo, sou uma moradora de rua com casas temporárias, carregando pela vida uma bagagem da qual não consigo ou não quero me livrar”. Em muitos momentos, é assim que me sinto. E, como eu, outros estudantes também vivem esse deslocamento, físico e emocional, todos os dias.
Sarah Andrade Silveira, de 22 anos, saiu de Itapetinga para cursar Jornalismo na Uesb, em Conquista. Antes mesmo da graduação, o deslocamento já fazia parte da sua rotina. Durante dois anos, ela viajava semanalmente para a cidade onde cursava gastronomia. O trajeto constante, no entanto, teve consequências. Com o tempo, o medo começou a acompanhar cada viagem.

Sarah saiu de Itapetinga para cursar Jornalismo na Uesb, em Vitória da Conquista. Foto: Acervo Pessoal.
“Eu ficava pensando que alguma coisa ia acontecer. Já peguei muita chuva, já vi acidente”, lembra a estudante. Para ela, entrar no ônibus deixou de ser um gesto automático e se tornou um gatilho. As viagens, repetidas semana após semana, acabaram desencadeando crises de pânico. Hoje, Sarah conta com apoio psicológico, o que torna o percurso mais leve.
Mas os desafios não se limitam ao trajeto. Para muitos estudantes, a mudança de cidade também significa lidar com expectativas, próprias e dos outros. O discente de Geografia, Hugo Chaves Santana, de 20 anos, saiu de Itaobim, no interior de Minas Gerais, para estudar em Vitória da Conquista, a cerca de 230 quilômetros. Justamente por causa da distância, ele se quetionou se deveria cursar Farmácia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) ou ingressar na Uesb. Mas no final, seu coração o direcionou para a licenciatura. E mesmo vindo de uma família de professores, a decisão não foi bem recebida no início.
Essa pressão externa também está presente na trajetória da estudante de Pedagogia, Damara Vitória Silva Santos, de 20 anos. Natural de Tanhaçu, ela não enfrentou resistência direta da família, mas ouviu questionamentos constantes de outras pessoas. A escolha por um curso de licenciatura, muitas vezes, é vista como um caminho “de menos prestígio”. “Muitas pessoas falaram que não sairiam de lá para fazer licenciatura em Pedagogia, porque é um curso desvalorizado”, relatou a estudante.
Sarah viveu algo semelhante. Embora os pais tenham apoiado sua decisão, o curso de Jornalismo não foi recebido com o mesmo entusiasmo por outros familiares. Pequenos comentários, olhares e dúvidas reforçam uma sensação comum entre estudantes, a necessidade constante de justificar suas escolhas. Essa pressão social, além de fatores econômicos, afetam diretamente a saúde metal de estudantes universitários, podendo desencadear ou agravar quadros de ansiedade e sofrimento emocional.
O começo que ninguém conta
Se a decisão de ir já é difícil, o começo costuma ser ainda mais. Nos primeiros meses, a ausência de vínculos pesa. Mesmo sendo extrovertido, Hugo lembra que não foi fácil construir relações logo no início. Os finais de semana, sem atividades ou projetos, eram preenchidos por um silêncio incômodo e tempos de ócio. “Eu adiantava as coisas da faculdade na semana e nos finais de semana ficava bem à toa, assim, ficava no ócio e meio só”, relatou.
A psicóloga Janaína Silva Oliveira, que atua no Programa de Assistência Estudantil (Prae) da Uesb, explica que essa sensação é recorrente. Segundo ela, a maioria dos estudantes até possui uma rede de apoio, mas ela nem sempre é suficiente, ou está distante. Em alguns casos também há conflitos com essa rede de apoio.

Segundo a psicóloga Janaína Oliveira, as principais queixas dos estudantes universitários envolvem ansiedade, dificuldades de adaptação e sobrecarga. Foto: Acervo Pessoal.
Para quem vem de fora, cada trajetória tem seus próprios contornos. Geovanna Pereira de Souza, de 24 anos, saiu de Pedra Azul, no norte de Minas Gerais, para estudar Economia. Filha de pais que não concluíram os estudos e a única entre os irmãos a ingressar no ensino superior, ela carrega uma experiência inédita dentro da própria família. Vir para a universidade foi, como ela mesma define, “tentar a sorte”. Mas essa realidade não é isolada. Dados do IBGE indicam que cerca de 70% dos estudantes de universidades públicas no país são os primeiros de suas famílias a chegar ao ensino superior, os chamados estudantes de “primeira geração”.
No início, a adaptação parecia mais simples para Geovanna. Com o tempo, no entanto, a distância ganhou outro significado. As visitas para casa passaram a carregar um sentimento de tempo perdido. “Quando eu vou ver meus pais, eu vejo que eles estão envelhecendo e eu não estou acompanhando”, diz. Não é apenas saudade. É a sensação de estar distante de quem você ama, de estar ausente em momentos simples e corriqueiros.
A experiência universitária também foi atravessada por perdas. Ainda no primeiro semestre, Geovanna perdeu a avó, que morava em Pedra Azul e era sua principal referência. A ausência abalou sua estrutura justamente no momento em que tudo ainda era novo. “No meu primeiro ano de faculdade eu perdi minha avó para o câncer. A gente descobriu de uma forma muito rápida. E aí abalou mais ainda minha estrutura”. Ao lembrar, mantém a voz firme, mas a pausa entre as palavras revela o peso daquele momento.
Um estudo de pesquisadores da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), da Uesb e da Universidade Federal do Triângulo Mineiro indica que os chamados Transtornos Mentais Comuns (TMC) apresentam índices elevados no Brasil e em países da América Latina, atingindo cerca de 20% a 26% da população. Esses transtornos incluem quadros de ansiedade, depressão não psicótica e outros sintomas que afetam diretamente o bem-estar cotidiano, como fadiga, dificuldade de concentração, insônia e irritabilidade.
No contexto universitário, especialmente entre estudantes que enfrentam mudanças bruscas de rotina, distância da família, perdas e sobrecarga de responsabilidades, esses sintomas podem se intensificar, impactando não apenas a saúde mental, mas também o desempenho acadêmico e a adaptação à vida fora de casa.
O peso de partir
Sair de casa para estudar é, antes de tudo, um rompimento. Segundo a psicóloga Janaína Oliveira, os principais desafios enfrentados por estudantes de outras cidades estão ligados à distância, ao cansaço do deslocamento e à falta de apoio cotidiano. A saudade da família e a dificuldade de se manter financeiramente aparecem com frequência nos atendimentos.
Em muitos casos, a ida para a universidade também carrega sonhos que não são apenas individuais. Sarah conta que, ao escolher seguir os estudos, também sente que está realizando um desejo antigo do pai. Ao falar do pai, a voz de Sarah oscila e ela se emociona. Ele é trabalhador rural e não teve a oportunidade de concluir os estudos. “Ele fala que, se fosse mais novo, tentaria cursar Direito. Mas ele também celebra o fato de ter conseguido colocar os três filhos na universidade.”
Geovanna vive algo parecido. Filha caçula de pais que não concluíram os estudos e irmãos que optaram por não ingressar no ensino superior, carrega consigo não apenas o próprio projeto de vida, mas também o incentivo e, de certa forma, a história da família. “Meu pai desistiu dos estudos. Ele não quis estudar. Até hoje ele fala que se arrepende. Por isso que ele me incentiva muito”, relata.

Geovanna Pereira de Souza, de 24 anos, saiu de Pedra Azul, no norte de Minas Gerais, para estudar Economia em Conquista. Foto: Acervo Pessoal.
Damara, por sua vez, precisou lidar com outro tipo de questionamento ao decidir sair de sua cidade, já que no momento havia acabado de iniciar um relacionamento conjugal. Ela ouviu muitos questionamentos sobre o que deixaria para trás, mas nunca sobre o que buscava construir. A decisão de ir, nesse caso, também foi um posicionamento. “Eu estava em um relacionamento, já tinha uns três anos, aí eu fui morar com ele. E aí todo mundo ficava pensando mais nele do que em mim. Tipo assim, ‘você vai embora e vai deixar ele aqui? O que você vai fazer?’”. Ela conta que hoje recebe apoio da mãe e do namorado, mas foi difícil lidar com a decisão de vir sob tantos olhares de julgamento.
Situações como essa não são isoladas. Muitas mulheres tendem a apresentar índices mais elevados de sofrimento psíquico, muitas vezes relacionados às pressões sociais e às dinâmicas de gênero que atravessam suas trajetórias. Em contextos de mudança, como o ingresso na universidade em outra cidade, essas cobranças podem se intensificar, especialmente quando suas escolhas são constantemente questionadas.
O suporte e a falta dele
Se mudar é difícil, porém permanecer na universidade pode ser ainda mais. Apesar das políticas de assistência, estudantes relatam dificuldades em acessar informações e benefícios sociais. Para Sarah, falta uma comunicação mais clara da Uesb sobre direitos e auxílios disponíveis. A sensação é de que cada aluno precisa “descobrir sozinho” como funciona o sistema.
Além disso, ela percebe uma fragmentação dentro do próprio curso, com pouca integração entre turmas. Mesmo eventos pensados para acolher acabam não atingindo todos os estudantes. “Teve a semana de integração, foi uma programação ótima, sim. Só que da minha sala ninguém foi. Por quê? Porque a programação foi feita pra quem tá chegando. Então, acaba que foi uma integração, mas não tem integração entre as turmas. Aí a turma que chegou, vai se isolando, sabe?”. Ela demonstra essa preocupação com o isolamento entre os colegas de curso e destaca como isso pode ser prejudicial para quem escolhe o Jornalismo como carreira.
Hugo também enfrentou obstáculos no início. Ao chegar na universidade, encontrou dificuldades para acessar programas como o Mais Futuro e o Prae, fundamentais para sua permanência. Durante um período, precisou arcar sozinho com custos básicos, como alimentação. “Quando eu cheguei, nenhum dos dois editais estavam abertos, o Mais Futuro demorou, mas o Prae demorou muito, hoje em dia já mudou, o Prae realmente já tá renovando todo semestre, mas quando eu cheguei não tinha isso, eu demorei muito tempo, então eu tinha que pegar marmita, isso pesava muito as contas”, relata.

O discente de Geografia, Hugo Chaves Santana, saiu de Itaobim, no interior de Minas Gerais, para estudar em Conquista, a cerca de 230 quilômetros. Foto: Acervo Pessoal.
A questão financeira é um dos principais desafios. Damara, por exemplo, divide apartamento com outras três estudantes para reduzir as despesas. Ainda assim, o valor dos auxílios não cobre todas as necessidades. Entre aluguel, alimentação e transporte, manter-se na universidade exige constantes adaptações. “Eu divido até quarto. Eu moro num apartamento com quatro meninas, e são dois quartos, e a gente resolveu dividir para ficar mais barato. Quando eu cheguei aqui era 600 [reais] o Mais Futuro, e quando aumentou para 800 eu falei, ‘tá bom’, mas não foi suficiente”, diz.
Para quem estuda à noite, a experiência pode ser ainda mais solitária. Geovanna observa que o ambiente noturno tende a ser mais silencioso e menos propício à convivência, já que muitos estudantes chegam cansados após o trabalho. Durante a entrevista, realizada à tarde, ela acompanhava com atenção o movimento ao redor, visivelmente animada ao ver a circulação de pessoas pelo campus, um contraste com a rotina que vivencia no turno da noite.
Nesse cenário, o apoio psicológico se torna essencial. A psicóloga Janaína Oliveira explica que os atendimentos na assistência estudantil são de curta duração, com foco em questões específicas, e que há alta demanda. Em alguns períodos, há lista de espera. As principais queixas envolvem ansiedade, dificuldades de adaptação e sobrecarga. De acordo com a profissional, esses fatores impactam diretamente o desempenho acadêmico, especialmente nos primeiros anos. Em casos mais graves, segundo ela, o sofrimento pode se intensificar e exigir encaminhamento para acompanhamento contínuo na rede de saúde.
Janaína reforça a importância do apoio psicológico durante a vida universitária, destacando que, em muitos casos, ele pode representar um alívio diante das pressões cotidianas. Entre os quatro estudantes entrevistados, apenas uma recebe esse tipo de acompanhamento. Outra relata a vontade de ter esse suporte, mas esbarra na falta de tempo. Ela já até buscou atendimento anteriormente, inclusive em um estágio que oferecia esse serviço, mas sente falta de um espaço contínuo de escuta. Para ela, poder conversar sobre a rotina exaustiva faria diferença, ainda que, na prática, isso nem sempre seja possível.
Embora a vivência universitária seja marcada por dificuldades e sobrecarga, a superação desses desafios também pode gerar crescimento pessoal e satisfação. No entanto, esse equilíbrio costuma ser frágil quando não há apoio adequado. Um estudo publicado na Revista Aracê, em 2025, destaca a importância de estratégias institucionais e familiares para promover ambientes mais saudáveis, além do papel fundamental da psicologia no acompanhamento dos estudantes. Por meio do suporte emocional e do fortalecimento de redes de apoio, profissionais da área contribuem para que os alunos consigam lidar melhor com as múltiplas exigências da vida acadêmica.
Quando tudo depende de você
Para além da universidade, existe uma outra rotina determinante. Morar sozinho significa assumir responsabilidades que antes eram compartilhadas, como limpar a casa, cozinhar, pagar contas, organizar o tempo. Para Hugo, esse acúmulo interfere diretamente na vida acadêmica. Em alguns momentos, surge a dúvida: cuidar da casa ou estudar?
Janaína reforça que essa sobrecarga é comum e pode levar ao esgotamento emocional. Segundo ela, os estudantes “[…] além de verbalizar que estão sentindo cansaço, entram em quadro depressivo por conta disso, se sentem tristes, angustiados, porque estão longe da família, porque tem que conciliar estudo, trabalho, afazeres domésticos e ainda passam por dificuldades financeiras”, relata a psicóloga.
A diferença entre quem mora sozinho e quem vive com a família também é perceptível. Para Geovanna, ter apoio cotidiano faz toda a diferença na rotina e no rendimento. “Lógico que a gente não tem que ficar comparando a nossa rotina com a de ninguém. Mas eu acho que com certeza a rotina de uma pessoa que mora aqui em Conquista, com seus pais, que não precisa pagar aluguel, que não precisa se preocupar com nada de casa, é muito melhor”, afirma a estudante.
Sarah traduz essa experiência de forma direta: “você tem que se virar”. Sem a presença constante da família, até situações simples ganham outro peso. Ficar doente, chegar cansada ou precisar conversar deixam de ser momentos compartilhados. Com o tempo, ela aprendeu a lidar com a própria companhia. Mas a ausência de um apoio físico e emocional continua sendo um dos maiores desafios. “Chegar em casa e não ter ninguém para conversar. Para perguntar, ‘como é que você está? Como é que foi seu dia?’, sabe? Às vezes, eu sinto muita falta disso”.
Esse desgaste tende a se intensificar nos semestres finais. Estudantes em fases mais avançadas do curso apresentam níveis mais elevados de ansiedade, influenciados pelo acúmulo de atividades, estágios, trabalho de conclusão de curso e pelas incertezas em relação ao futuro profissional. Ao mesmo tempo, os primeiros períodos também exigem adaptação intensa, o que mostra que o sofrimento pode atravessar diferentes momentos da graduação.
Entre desistir e continuar
Diante de tantas dificuldades, pensar em desistir é quase inevitável. Damara reconhece que o medo já a fez recuar. O receio de não dar conta a afastou de oportunidades e experiências ao longo do curso. Ainda assim, permanecer também é uma escolha que se aprende.

Após finalizar a graduação em Pedagogia, Damara Vitória Silva Santos, de 20 anos, deseja retornar para Tanhaçu para trabalhar em comunidades quilombolas. Foto: Bruna da Guarda.
Para Sarah, continuar é quase um princípio. A frase que escuta da mãe se tornou uma espécie de guia: “É melhor você tentar. Porque, se você não tentar, você vai continuar não tendo nada”.
Geovanna também enfrentou momentos de ruptura, especialmente após a perda da avó. Em meio às dificuldades, questionou o próprio caminho. Mas, com o tempo, o peso da decisão se transformou em compromisso. Não apenas com ela, mas com a família que acompanha sua trajetória à distância. O sonho que começou individual passou a ser compartilhado com a família e isso se transformou em motivação.
Hugo reconhece o cansaço, principalmente nos finais de semestre, quando tudo se acumula. Mesmo assim, nunca viu a desistência como saída. Para ele, é uma fase intensa, mas passageira.
A psicóloga Janaína reforça a importância de buscar ajuda nesses momentos. “Essa é a minha orientação. Se não conseguir resolver sozinho, busque o nosso auxílio”.
Ficar, voltar ou seguir
No fim, a trajetória universitária também levanta outra pergunta: o que fazer depois? Para alguns, o desejo é voltar. Damara acredita na importância de levar o conhecimento adquirido de volta para sua comunidade. Para ela, sair não significa romper, mas ampliar possibilidades. “Às vezes o pessoal fala que aqui é grande, que a gente tem que sair e voar, levar nosso conhecimento pra fora, mas acredito muito que a gente pode levar o nosso conhecimento para nossa cidade, para nossa comunidade. Imagina se todo mundo, todos que têm interesse em estudar, saírem de lá e ir para outra cidade e nunca mais voltar?”
Damara também projeta esse retorno a partir de um compromisso pessoal. Interessada nas comunidades quilombolas de sua região, ela desenvolve seu trabalho de conclusão de curso voltado para essa temática. Para ela, voltar não é retroceder, mas aplicar o conhecimento onde ele pode fazer a diferença.
As respostas não são únicas. Alguns querem voltar. Outros preferem seguir. Há ainda quem permaneça em movimento, sem destino definitivo. Hugo pensa em retornar temporariamente à cidade de origem, onde vê oportunidades mais imediatas de trabalho. Ao mesmo tempo, planeja continuar os estudos em Vitória da Conquista no futuro. Já Sarah não se vê voltando. Para ela, cidades maiores oferecem mais oportunidades na sua área de atuação.
Para Hugo, voltar por um tempo faz sentido. Para Sarah, ficar é uma escolha. Para Damara, retornar pode ser uma forma de transformação. Entre idas e vindas, escolhas e incertezas, uma coisa é comum a todos, a mudança não termina quando se chega. Ela continua todos os dias, nas pequenas decisões, nos desafios cotidianos e na construção de um caminho próprio.
No fim, sair de casa para estudar nunca foi apenas sobre chegar a outro lugar. É sobre aprender a viver no deslocamento. Entre saudades e descobertas, esses estudantes constroem caminhos que não estavam prontos, e que seguem sendo desenhados todos os dias.
*Essa reportagem faz parte da série Narrativas Afetuosas, produzida na disciplina Jornalismo na Internet II, durante o período especial, por alunos do 8º semestre do curso de Jornalismo da Uesb.