Da agulha ao tecido: os pontos que tecem histórias e conectam gerações
22 de maio de 2026Aos 11 anos, aprendi com o ponto cruz uma linguagem para transformar afeto em matéria. Comecei a bordar porque queria presentear um primo que iria nascer. Lembro que foi em um sábado à tarde, na casa da minha avó, que o aprendizado aconteceu. Estávamos sentadas no sofá, ela ao meu lado direito com uma revista no colo e nas mãos uma faixa de etamine e agulha. Ela me disse que me ensinaria da mesma forma que ensinou minha madrinha, começando pelo ponto básico, bordando um pequeno coração e um patinho.
Naquele final de semana, aprendi que o ponto cruz é a arte da precisão e da paciência. São pequenos ‘X’ que, sozinhos, parecem pouco, mas juntos formam memórias. O que eu não sabia, enquanto minha avó guiava meus dedos, era que aquele bordado seria o fio condutor de uma herança afetiva que compartilho com as mulheres da minha família. Minha avó, Mosália Andrade, e minha madrinha, Varlane Andrade, são artesãs que descobriram no ponto cruz uma forma de renda e cuidado.
A história de minha avó com o bordado começou cedo. Nascida no povoado de Lagoa de Juazeiro, na zona rural de Vitória da Conquista, aprendeu aos 12 anos os primeiros pontos com a prima, que ensinava utilizando qualquer tecido onde fosse possível visualizar e contar os fios, transformando panos simples em suporte para o aprendizado. Hoje, aos 77 anos, ela relembra sua trajetória com o artesanato e a dedicação em cada peça produzida. Havia bordados de diferentes tamanhos e níveis de complexidade. Alguns menores e mais rápidos de fazer, outros maiores, com muitas cores, detalhes e bordas que completavam o acabamento.
Por volta dos 21 anos, quando se aproximava de seu casamento, Mosália passou a bordar também para vender e juntar dinheiro. Os trabalhos eram encomendados por clientes, que forneciam o tecido e as linhas. O valor que recebia era apenas pela mão de obra e tinha um destino específico, ajudar a comprar o próprio enxoval de casamento. Como o pai era muito rigoroso e exigia o dinheiro que ela ganhava, ela passou a bordar escondido. “O bordado era feito à noite, como não tinha energia naquela época, fazia o bordado à luz de um candeeiro de querosene, em silêncio”, explica, ao recordar que aqueles bordados também foram um caminho para construir seu futuro.
Após o casamento, Mosália não deixou o bordado de lado. Entre as tarefas de cuidar da casa, dos filhos e do marido, encontrava pequenos momentos para continuar fazendo ponto cruz, geralmente aos fins de semana. Além do trabalho doméstico, ela também trabalhava na lavoura e aproveitava os intervalos do dia para bordar. “Naquele tempo, a gente não tinha saco de plástico. Eu pegava uns panos bem limpinhos, que não molhavam, para levar e fazer os pontos”, conta. Durante as duas horas de almoço, enquanto descansava, ela retirava o pano cuidadosamente para não sujar e aproveitava o tempo para bordar antes de retornar às atividades na roça.
Em 1993, após o falecimento do esposo, Mosália comprou uma casa. Quatro anos depois, em 1997, mudou-se para a zona urbana, onde os filhos já moravam. Na época, ainda não era aposentada e tinha apenas a pensão, o que fez com que retomasse o bordado como forma de complementar a renda. Foi nesse período que passou a comprar o próprio material e produzir peças para vender. “Nesse tempo eu comprava pano de saco e a linha, fazia paninho de cozinha pra vender. Vendi muito”, relembra. A partir dessa fase, ensinou a técnica à filha caçula, Varlane, que ainda era pré-adolescente e passou a ajudá-la na produção de peças como sousplats, toalhas, entre outros.
Varlane, hoje com 40 anos, conta que tinha cerca de 12 anos quando a mãe a ensinou os primeiros pontos. A lembrança começa em uma tarde comum dentro de casa. Na pequena sala, próxima à máquina de costura, sua mãe bordava enquanto ela brincava e observava o movimento da agulha atravessando o tecido. Em determinado momento, a mãe perguntou se ela gostaria de aprender. A resposta foi imediata: “sim”. Foi então que recebeu a agulha e uma linha, junto com uma tarefa, desenhar um pequeno coração. Era um coração simples, apenas o contorno, sem preenchimento. “O coração era bem pequenino, fiquei quase uma hora pra conseguir fazer”, lembra.

Aos 12 anos, Varlene aprendeu a bordar com a mãe e passou a ajudá-la na produção das peças. Foto: Maria Luiza Andrade
Com o passar do tempo, a prática tornou-se cada vez mais frequente, surgindo encomendas. O primeiro pedido veio de uma vizinha. Pelo trabalho, Varlane cobrou um valor simbólico, praticamente apenas o custo da linha. Ainda assim, o resultado foi bastante elogiado, gesto que serviu como incentivo para que continuasse bordando. Grande parte do trabalho era voltado para a personalização de nomes em peças do dia a dia. Toalhas de banho, de rosto e infantis estavam entre os itens mais produzidos. Apesar das encomendas ocasionais, o bordado nunca foi, para ela, uma atividade movida principalmente pelo retorno financeiro. Ao longo dos anos, a maior parte das peças foi feita para presentear familiares, amigos e pessoas próximas.
O bordado também passou a ocupar um lugar importante como forma de expressão artística na vida de Varlane. Para ela, o ponto cruz permite que muitas pessoas transformem imagens em arte mesmo sem dominar o desenho. “Sempre tive vontade de aprender a desenhar, só que nunca tive essa habilidade e também nunca tive a oportunidade de fazer um curso para aprender. Mas no bordado eu consigo.” Segundo ela, os gráficos funcionam como um guia que torna possível construir imagens com linha e agulha. Cada pequeno quadrado corresponde a um ponto, e, pouco a pouco, as formas ganham contorno até se transformarem em figuras completas. Dessa forma, o bordado se torna não apenas um trabalho manual, mas também uma maneira de criar imagens e contar histórias.
Bordado como cuidado
Em um cotidiano marcado pela pressa e pelo excesso de estímulos, algumas pessoas encontram nas atividades manuais uma forma de desacelerar, como aconteceu com a psicóloga Cida Moreira, que encontrou no bordado um caminho de cuidado e reconexão consigo mesma. O bordado sempre esteve presente em sua família. Ela cresceu observando a avó e as tias costurarem e fazerem ponto cruz, mas nunca chegou a aprender quando era criança. “Eu sempre estive ali vendo elas fazendo as costuras e queria muito aprender. Mas eu era criança e elas diziam: ‘quando você crescer, a gente te ensina a mexer na máquina, porque é perigoso’”, lembra.
Com o tempo, a rotina da família mudou, a tia deixou de bordar por causa das demandas do dia a dia, e a avó desenvolveu Alzheimer. “Eu tinha uns 13 ou 14 anos e comecei a cuidar dela junto com essa minha tia que fazia bordado. Acabou que eu não aprendi com ela porque não tive esse tempo”, conta. Anos depois, já formada e trabalhando, Cida percebeu que precisava diminuir o ritmo. “Estava fazendo tudo muito no automático e comecei a me sentir afetada pelo excesso de tela”, complementa. Foi então que uma prima, que borda ponto cruz, a incentivou a começar. Foi nesse processo que o bordado passou a ocupar um novo espaço em sua rotina, não como uma atividade voltada à técnica ou à perfeição, mas como um momento de pausa.

A psicóloga Cida Moreira, que encontrou no bordado um caminho de cuidado e reconexão. Foto: Arquivo Pessoal
“Eu não tenho muita experiência. Mas não queria que isso se tornasse uma coisa perfeccionista, uma coisa rígida. Eu queria criar algo pra mim, sem pressa, sem rigidez e sem uma cobrança de que isso se tornasse algo idealizado demais”, explica. Segundo Cida, a experiência pessoal dialoga com questões que aparecem com frequência em seu trabalho clínico. Ela explica que muitas pessoas chegam à terapia com dificuldades de se conectar com os próprios sentimentos e também com outras pessoas. Nesse sentido, práticas artísticas podem se tornar caminhos possíveis para acessar emoções. “A arteterapia acaba sendo um caminho para isso. E o bordado está incluso ali como a arte. Você produz alguma coisa, passa pelo processo, cria.”
Hoje, quando borda, Cida diz que o gesto evoca a memória da avó. “Quando eu estou bordando, fico pensando em como seria se ela ainda estivesse viva. Se a gente faria isso juntas.” Ao revisitar essas memórias, a psicóloga reconhece que o bordado também se tornou uma forma de lidar com o processo do luto. “Eu não nego que no início tinha um pouco de culpa, porque hoje, com o que eu sei, acho que poderia ter colocado mais atividades manuais para ela lidar com o Alzheimer. Mas também é um acolhimento, de pensar ‘você não sabia antes, você sabe agora.’”
Arte que vira renda
Para quem se dedica ao bordado, cada ponto pode representar um caminho diferente de criação. A psicóloga e artesã Raveni Joazeiro destaca que no bordado livre, o tecido liso abre espaço para explorar formas, tamanhos e composições. “No ponto cruz, seguimos uma grade de quadradinhos. No bordado livre, o tecido é liso, o que permite mais liberdade. É possível criar pontos maiores ou menores e experimentar outras formas de composição”, explica. Para ela, o bordado começou ainda na infância, de forma natural e presente no cotidiano familiar. Ela cresceu cercada por peças artesanais, como toalhinhas bordadas que as crianças levavam para a escola, toalhas de casal e roupinhas de bebê feitas à mão.
Com o passar dos anos, no entanto, o bordado acabou ficando em segundo plano. Quando entrou na faculdade, Raveni se afastou da prática por algum tempo e só voltou a bordar por volta de 2016, quando surgiu em Vitória da Conquista um curso de bordado livre. Em 2017, ela produziu um bordado para presentear uma pessoa próxima e, ao ver o trabalho, uma amiga sugeriu que ela começasse a vender as peças. Até então, ela produzia bordados por conta própria, mas sem a intenção de transformá-los em fonte de renda. A sugestão serviu como incentivo para que Raveni abrisse um pequeno ateliê, o Phora Ateliê. No início, suas criações eram inspiradas principalmente em temáticas da cultura pop.
Após um período em que precisou pausar as atividades do ateliê por demandas da faculdade, Raveni voltou a se dedicar ao bordado em um novo momento da vida. Já formada e com a rotina profissional mais organizada, ela retomou a prática com outra proposta, explorando mais o bordado livre e ampliando as possibilidades de experimentação. Nesse processo, passou a utilizar materiais diferentes, como pedrarias, além de misturar técnicas, como a pintura em aquarela associada ao bordado, o que representou uma expansão criativa significativa em sua produção. O ateliê permaneceu ativo por algum tempo, mas, com o aumento das demandas da sua profissão, tornou-se difícil conciliar as duas atividades, levando-a a desacelerar novamente a produção. Atualmente, Raveni ainda aceita algumas encomendas, embora o bordado também tenha assumido um lugar de hobby em sua rotina.
Outra trajetória que evidencia o bordado como espaço de criação e aprendizagem é a da pedagoga, especialista em arteterapia e professora de bordado, Isabela Reis. Ela começou a bordar em 2017, após se inscrever em um curso que despertou o interesse pela técnica. Naquele período, ela participava de eventos culturais, como saraus e feiras de arte. O bordado ainda era apenas um hobby, e os trabalhos eram apresentados ao público sem a intenção de venda. Com o tempo, as encomendas começaram a surgir de forma espontânea, principalmente a partir de peças que ela costumava presentear a amigos. Por volta de 2022, passou a vender os bordados e, em 2024, começou a oferecer oficinas e cursos. Atualmente, concilia a produção de encomendas com o ensino do bordado livre.
A ideia de oferecer cursos surgiu de forma planejada. Desde que começou a vender bordados, Isabela já tinha o desejo de ensinar a técnica. A oportunidade de iniciar as aulas surgiu quando a Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), por meio do Festival Universitário Intercampi de Cultura e Arte (Fuica), abriu um edital para projetos culturais que incluíam a realização de oficinas. Ela inscreveu uma proposta de oficina de bordado e foi contemplada. A partir dessa experiência, passou a buscar outros espaços na cidade para continuar oferecendo cursos. Atualmente, oferece cursos para adultos e crianças.
Segundo a pedagoga, o interesse pelo curso infantil parte tanto das próprias crianças quanto dos pais, que procuram atividades manuais como forma de reduzir o tempo de uso de telas. O bordado contribui para o desenvolvimento da atenção, memória, coordenação motora e criatividade. “Ensino de uma forma lúdica, deixando as crianças desenharem o que elas quiserem, e aí a gente faz o bordado em cima desses detalhes”, explica. Já nas turmas de adultos, o processo tende a ser mais técnico. Isabela observa que muitos alunos procuram o bordado por indicação de profissionais de saúde, como psicólogos e psiquiatras, especialmente para auxiliar no controle da ansiedade.
“O bordado é uma arte praticamente meditativa, começa bordando, entra no movimento repetitivo do ponto, que o tempo vai passando e você realmente vai se acalmando”, conta Isabela. Além do aprendizado da técnica, as aulas se tornam espaços de convivência e troca entre os participantes. Muitas alunas, especialmente mulheres entre 40 e 50 anos, procuram o curso justamente por esse momento de encontro e socialização. As atividades são oferecidas em dois formatos, oficinas de curta duração, geralmente realizadas ao longo de dois finais de semana, e cursos com duração média de dois meses, com encontros semanais de cerca de duas horas.
Trabalhar com artesanato, porém, também envolve desafios. Quando começou a vender bordados, por volta de 2021, a atividade representava apenas uma renda extra, Segundo Isabela, um dos principais obstáculos era a desvalorização do trabalho manual. “Muitas pessoas não percebem o tempo e o cuidado envolvidos na produção de uma peça artesanal”, afirma. No início, ela também enfrentava dificuldades para precificar as peças. “Acho que isso acontece com muitas pessoas que trabalham com artesanato. Com o tempo fui aprendendo a valorizar mais o meu trabalho”, explica. Atualmente, grande parte da sua renda vem das oficinas e cursos que ministra. Embora receba um número significativo de encomendas, viver exclusivamente da venda dos bordados ainda é difícil.
Apesar disso, Isabela percebe uma mudança recente na forma como o artesanato tem sido valorizado. “Nos últimos anos houve um crescimento no interesse por trabalhos manuais, especialmente nas áreas de moda e decoração”, observa. Muitas encomendas, segundo ela, estão ligadas a momentos importantes da vida das pessoas, como portas de maternidade e porta-alianças. “Já aconteceu de eu bordar a roupa de aniversário de uma criança para quem eu tinha feito o porta-maternidade”, conta. Mesmo com a satisfação do trabalho, ela reconhece que transformar o bordado em profissão também pode gerar pressão. “Quando há muitas encomendas ou prazos apertados, o processo pode ficar estressante”, relata. Por isso, além das encomendas, Isabela procura manter também projetos autorais.
O esforço por trás de cada ponto
A atividade artesanal pode ter diferentes significados para quem a pratica. Em alguns casos, ela tem um caráter recreativo ou terapêutico. Em outros, representa uma fonte de renda. Mas, ainda assim, o excesso de trabalho pode causar danos à saúde. De acordo com a fisioterapeuta Rosangela Lessa, que possui mestrado na área de Saúde do Trabalhador e doutorado em Ciência da Saúde, é preciso compreender o contexto em que a atividade é realizada para analisar seus efeitos sobre o corpo.
“Mesmo quando há repetição de movimentos, o impacto sobre a saúde pode variar. Um fator importante é o nível de ansiedade. Isso mostra como o componente emocional também interfere no processo de adoecimento relacionado às atividades manuais”, explica Rosangela. Segundo a fisioterapeuta, os primeiros sinais de sobrecarga geralmente incluem dor, formigamento, dormência ou perda de força nas mãos. Muitas vezes, esses sintomas começam de forma leve e são ignorados por quem realiza o trabalho diariamente.
Reconhecer esses sinais precocemente é essencial para evitar o agravamento das lesões. “É fundamental adotar medidas preventivas. A principal delas é fazer pausas durante a atividade. Se a pessoa passa muito tempo realizando movimentos repetitivos, é importante interromper o trabalho para alongar os músculos, mudar a postura e permitir que o corpo se reorganize”, explica a especialista. Práticas como automassagem nas mãos e antebraços podem ajudar a melhorar a circulação sanguínea e reduzir a tensão muscular. Além disso, dormir bem, manter uma alimentação equilibrada e beber água são fatores que contribuem para o funcionamento adequado do organismo.
A prática regular de atividade física também é necessária para evitar lesões. Exercícios que promovem fortalecimento muscular e mobilidade articular ajudam a preparar o corpo para lidar melhor com as exigências das atividades manuais. A profissional recomenda pilates, yoga e exercícios de fortalecimento do core, conjunto de músculos responsáveis por sustentar a postura do corpo. “O ideal é buscar equilíbrio entre atividade, descanso e cuidados com o corpo, permitindo que a pessoa continue exercendo sua criatividade e seu trabalho sem comprometer a própria saúde” ressalta Rosangela.

