Da dor ao silêncio confortável: o que separa solidão e solitude

“A solitude é quando o indivíduo escolhe estar consigo mesmo e encontra nisso conforto. Já a solidão é marcada pela ausência", aponta psicóloga 11 de maio de 2026 Fabiana Alves*

Eu tinha 12 anos quando percebi, pela primeira vez, que estar rodeada de pessoas não significa, necessariamente, estar acompanhada. Na escola, lembro do barulho da sala de aula, das conversas cruzadas, dos grupos já formados, como se existisse um mapa invisível indicando onde cada um pertencia. Havia risadas, trocas, pequenos códigos compartilhados que não me incluíam. Era como assistir à vida acontecer de um lugar deslocado, como se todos soubessem algo que eu ainda não tinha aprendido, a pertencer.

O tempo passou e, em meio às mudanças, aquela mesma sensação volta e meia reaparece como um eco da infância que insiste em atravessar os anos. O sentimento de solidão, de não pertencimento, se instala nas entrelinhas da rotina e nos silêncios que ninguém nota. Essa experiência, que parece íntima e individual, é, na verdade, coletiva. 

Nas redes sociais, um vídeo de um filhote de macaco japonês, chamado Punch, viralizou por representar simbolicamente a rejeição e a ideia de não pertencimento. Em um zoológico de Ichikawa, no Japão, o animal, rejeitado pela mãe e por seu grupo, passou a viver isolado. Para reduzir a ansiedade do primata, os funcionários do local deram a ele um brinquedo de pelúcia. Então, Punch começou a ser visto carregando o brinquedo por todos os cantos.

“Existe uma identificação imediata com a rejeição, mas também com as formas que encontramos para lidar com ela”, analisa a socióloga Ana Ribeiro. “O urso de pelúcia, nesse caso, pode ser lido como símbolo, todos nós temos ‘ursos’ invisíveis: hábitos, objetos, distrações ou até relações superficiais que tentam preencher as lacunas emocionais.”

Assim como aconteceu com Punch, nos humanos, o sentimento de solidão pode aparecer ainda na infância. “Lembro de começar a sentir isso na escola. É curioso porque ao longo dos anos isso se expandiu nas minhas relações, com amigos e até familiares. Busco participar, até tento encontrá-los, mas é como estar em todas as fotos e, ao mesmo tempo, não se sentir parte daquela memória”, conta a estudante universitária Lívia Santana, de 31 anos.  

Segundo a psicóloga Milena Lins, a percepção de pertencimento ou a ausência dele durante a infância e a adolescência pode moldar a forma como estabelecemos relações ao longo da vida. “O cérebro, nesse período, é especialmente sensível à aceitação social. Nessa construção, quando a pessoa se percebe como alguém “fora”, isso pode se transformar em um padrão interno”, explica. “Na vida adulta, a solidão nem sempre aparece como isolamento. Mas, muitas vezes, ela surge justamente nesses ambientes sociais”, complementa.

Os impactos na saúde

De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), a partir do relatório da Comissão de Conexão Social de 2025, a solidão afeta uma em cada seis pessoas no mundo, com maior incidência entre jovens e adultos, especialmente entre 13 e 29 anos, dos quais 17% a 21% se sentem solitários com frequência. Nesse contexto, o uso excessivo ou pouco consciente das tecnologias digitais reduz distâncias físicas ao mesmo tempo em que amplia a falta de conexão emocional.

“A solidão contemporânea não está necessariamente ligada ao isolamento físico, mas à desconexão emocional”, destaca a psicóloga Milena Lins. É dessa maneira que o gerente de vendas, Erick Borges, de 29 anos, se sente no dia a dia. “No ambiente de trabalho converso com muita gente, mas não sinto pontos de conexões e interesses verdadeiros. É estranho, porque não estou sozinho de fato, mesmo assim, parece que eu não faço parte.”

A psicologia e a filosofia explicam que não existe apenas um tipo de solidão. Para algumas pessoas, ela se manifesta como vazio físico, marcado pela ausência de contato social por longos períodos. Para outras, o vazio é emocional, quando alguém está cercado de pessoas, mas, ainda assim, não se sente visto e pertencente. Há também a solidão existencial, mais profunda, ligada ao sentido da própria vida. “Muitas vezes, ela está ligada a estruturas sociais, jornadas extensas, relações superficiais e até ao excesso de mediação tecnológica”, reforça a psicóloga Milena Lins.

Os impactos da solidão, segundo o relatório da OMS, vão além do emocional e se manifestam no corpo físico. O isolamento está associado ao aumento do risco de doenças cardiovasculares, como o Acidente Vascular Cerebral (AVC), diabetes e declínio cognitivo. Na saúde mental, os efeitos são ainda mais evidentes. Pessoas solitárias apresentam maior propensão à depressão, níveis elevados de ansiedade e até pensamentos suicidas.

Os impactos da solidão, segundo o relatório da OMS, vão além do emocional e se manifestam no corpo físico. Foto: Magnific.

Solidão x solitude: o limite invisível

Enquanto a solidão pode desencadear doenças físicas e mentais, a solitude se refere ao prazer de estar na sua própria companhia. “A solitude é quando o indivíduo escolhe estar consigo mesmo e encontra nisso conforto. Já a solidão é marcada pela ausência, é quando a pessoa gostaria de conexão, mas não consegue acessá-la”, explica Milena Lins.

De acordo com a profissional, a solitude pode ser saudável e até necessária. “É importante aprender a apreciar a própria companhia, olhar para as coisas de maneiras diferentes e encontrar o belo nelas. Você pode crescer aprendendo a gostar de si. Mas a sociedade nos cobra de ter alguém, de estar em grupos, é uma das angústias contemporâneas.”

Para a artista e estudante de Cinema, Fernanda Paiva, de 25 anos, o tempo que reserva para si é essencial. “Me identifico com a solitude, é muito chato ter que depender de alguém para fazer algo. Se eu não for a minha melhor companhia, estarei refém de estar sempre acompanhada. E a rotina pede isso, tenho meus altos e baixos, mas tudo tem sido um aprendizado”, desabafa. 

Reconhecer e nomear o sentimento de solidão é o início de um processo que pode abrir caminhos saudáveis. Investir em relações mais profundas, ainda que em menor quantidade, equilibrar a rotina diária com atividades como a escrita, arte ou exercícios físicos e buscar espaços de escuta especializados são maneiras de lidar com a solidão.

“Nem toda experiência de estar só é negativa, mas quando a solidão se prolonga, pode afetar autoestima, o sono, a motivação diária e até a saúde física, por isso, ela não deve ser romantizada”, finaliza a psicóloga Milena Lins.

Foto de capa: Imagem gerada por IA

*Essa reportagem faz parte da disciplina Jornalismo na Internet II, produzida durante o período especial, por alunos do 8º semestre do curso de Jornalismo da Uesb.

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