Entre a dedicação e a sobrecarga: o trabalho invisível de mulheres que cuidam de outras pessoas

Na zona rural de Conquista, Maria Aparecida e Maria Lucia permaneceram em casa para cuidar dos pais idosos. Segundo o IBGE, mulheres dedicam, em média, 9,6 horas semanais a mais do que os homens em cuidados 20 de maio de 2026 Iasmin Oliveira

Na infância, entre brincadeiras de boneca e de casinha, nós, mulheres, somos incentivadas a acolher e proteger o outro. Crescemos aprendendo que cuidar é parte do que significa ser mulher e, com isso, somos condicionadas a exercer esse papel durante toda a vida. À medida que envelhecemos, esse cuidado deixa de ser simbólico e passa a ocupar um espaço grandioso na nossa rotina e, muitas vezes, exige a reorganização da nossa vida para sustentaremos a vida do outro.

Ao ver a minha mãe sair da casa onde vivíamos e abrir mão do próprio trabalho em prol do bem-estar da minha avó, entendi que essa escolha faz parte de uma lógica maior, que atravessa gerações. Ao passear pelo meu bairro, na zona rural de Vitória da Conquista, e perceber que muitas filhas abriram mão da própria vida para cuidar de seus pais idosos, entendi que essa experiência não faz parte de um contexto isolado. À medida que os pais envelhecem, são, em sua maioria, as mulheres que assumem esse papel de cuidado.

Essas atividades não remuneradas fazem parte do que sociólogos definem como economia do cuidado. Embora sejam atividades fundamentais para o funcionamento da sociedade, são vistas como uma obrigação natural das mulheres e, por isso, não são reconhecidas como parte da economia, o que contribui para as desigualdades de gênero.

Historicamente, o trabalho das mulheres para a manutenção da vida sempre foi invisibilizado. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 2022, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que mulheres dedicam, em média, 9,6 horas semanais a mais do que os homens em tarefas domésticas e cuidados, o que representa mais de mil horas por ano. 

De acordo com a psicóloga Isabela Santos, essa desigualdade é resultado de um processo social construído desde a infância. “Nós mulheres somos socializadas para o cuidado, desde as brincadeiras, falas, filmes e  livros que trazem isso como um atributo quase como que natural, enquanto os homens são criados para serem cuidados, e não para exercer o cuidado, seja com esposa, filhos ou pais”, explica.

“Nós mulheres somos socializadas para o cuidado, desde as brincadeiras, falas, filmes e  livros que trazem isso como um atributo quase como que natural”, afirma a psicóloga Isabela Santos. Foto: Arquivo pessoal

Essa lógica, construída desde os primeiros anos de vida, contribui diretamente para a manutenção da sobrecarga feminina, especialmente quando o cuidado envolve familiares dependentes. Em contextos rurais, onde o acesso a serviços e políticas públicas costuma ser mais limitado, os impactos físicos, financeiros e psicológicos tendem a ser ainda maiores. É o que mostram as histórias de mulheres que lidaram por anos com a responsabilidade do cuidado familiar. 

A história de Maria Aparecida

Natural do Povoado da Estiva, na zona rural de Conquista, Maria Aparecida Marinho, de 54 anos, trabalha como agente comunitária de saúde e teve grande parte da sua vida dedicada ao cuidado com os pais. Filha caçula entre oito irmãos, foi ela quem permaneceu na casa da família enquanto os demais constituíam seus próprios núcleos familiares. Sua trajetória de cuidados começou após a mãe sofrer dois Acidentes Vasculares Cerebrais (AVCs). “Depois do segundo AVC, ela teve depressão, e isso desencadeou uma tristeza muito grande, onde ela não fazia mais nada, só ficava no quarto”, conta.

Assim, sua rotina passou a ser dividida entre o trabalho durante o dia, os estudos à noite e as tarefas domésticas. Durante mais de uma década, Maria Aparecida conciliou todas essas funções, até a morte da mãe, aos 74 anos, vítima de um infarto. Com isso, o pai, também idoso, passou a depender dela. Mesmo após se casar, a rotina se manteve. “Meu esposo sabia que eu ia continuar morando com o meu pai, porque eu não podia deixar ele sozinho. Meus irmãos se afastaram, se casaram e tiveram suas famílias. Eu não podia casar com alguém que não aceitasse ele”, explica. 

Sem divisão das responsabilidades entre os irmãos, Maria Aparecida continuou como cuidadora principal. Ao longo dos anos, ela teve que adaptar a própria vida para garantir uma presença constante ao lado do pai, que faleceu em 2024, aos 98 anos. “Eu não viajava mais. Fiquei quase 15 anos sem ir em lugar nenhum, sem ir à praia. Eu fui conhecer a praia depois de 54 anos. Eu não conhecia o mar, porque comecei a cuidar deles com 17 anos, não tinha como eu ir e deixar ele sozinho.”

Maria Aparecida, que não quis aparecer, mostra a foto do pai, ao dizer que foi a única filha, de oito irmãos, que permaneceu na casa da família para cuidar dos pais. Foto: Iasmin Oliveira

Segundo ela, a rotina exigia atenção redobrada, principalmente com a alimentação, saúde e os hábitos do pai que, com o avanço da idade, precisou de cuidados cada vez mais específicos. A sobrecarga que Maria sentiu reflete uma tendência nacional. Um estudo conduzido por pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC/PR) aponta que 90% dos cuidadores informais no Brasil são mulheres, principalmente filhas, cônjuges e netas, com média de idade de 48 anos. 

Ao longo do processo, Maria Aparecida também enfrentou conflitos familiares. Ela tentou compartilhar os cuidados com os irmãos, mas não encontrou apoio. As justificativas envolviam desde a mudança de rotina até a dificuldade de adaptar a casa ou a convivência ao idoso. Os conflitos se intensificaram durante o processo de inventário dos bens da família. As disputas resultaram em um desgaste emocional, levando-a à desenvolver quadros de depressão. Para evitar novos conflitos, ela decidiu abrir mão da própria casa temporariamente, levando o pai para outro local. 

Situações como a vivida por Maria contrariam a legislação brasileira. O Artigo 229 da Constituição Federal de 1988 estabelece que “os pais têm o dever de assistir, criar e educar os filhos menores, e os filhos maiores têm o dever de ajudar e amparar os pais na velhice, carência ou enfermidade”. De acordo com a advogada Alana Queiroz, os custos e a responsabilidade com os pais idosos devem ser divididos entre todos os filhos, já que a obrigação é compartilhada.

Quando essa divisão não acontece, é possível recorrer à Justiça para garantir o compartilhamento das responsabilidades ou até o ressarcimento dos custos assumidos pelo responsável, por meio de uma ação de indenização ou medidas semelhantes. No caso de pessoas que precisaram deixar o trabalho para assumir o cuidado de um familiar dependente, também há possibilidade de respaldo jurídico. “É importante guardar documentos como o pedido de demissão, contracheques e qualquer outro comprovante que mostre que ela abriu mão da atividade profissional para prestar esse cuidado”, explica a advogada. 

“É importante guardar documentos que mostrem que a pessoa abriu mão da atividade profissional para prestar esse cuidado”, explica a advogada Alana Queiroz. Foto: Arquivo pessoal

Os cuidados de Maria Lucia 

Assim como Aparecida, Maria Lucia Gomes, de 50 anos, teve que assumir sozinha os cuidados com a mãe, no Povoado da Estiva. A matriarca perdeu a mobilidade em razão de uma doença degenerativa, por isso, a filha teve que deixar seu trabalho como empregada doméstica para se dedicar a uma rotina de cuidados em tempo integral. Mesmo casada e com uma filha, Lucia se mudou para a casa da mãe e passou a viver exclusivamente para essa função durante sete anos.

A rotina era marcada por exaustão física e emocional. “Eu não dormia, porque ela não dormia. Já cheguei a ficar cinco dias sem dormir direito”, relata. As consequências físicas e psicológicas permanecem mesmo após o falecimento da sua mãe, ocorrido em junho de 2025. Apesar de ter seis irmãos mais velhos, a responsabilidade recaiu exclusivamente sobre ela e as tentativas de dividir as tarefas geraram conflitos familiares e afastamentos.

“Cuidar da minha mãe foi uma escolha minha, mas eu achava que teria apoio dos meus irmãos. Não achava que ia ser uma jornada tão solitária, de domingo a domingo”, conta Lucia. Mesmo orientada a buscar apoio jurídico, optou por não fazer por acreditar que o desgaste emocional da situação já era suficiente. Durante esses sete anos, lazer e saúde foram colocados em segundo plano. Ao relembrar sua jornada e todos os desafios, ela não sente arrependimento. “Foi um momento muito difícil, mas eu faria tudo de novo”, afirma. 

Durante sete anos, Maria Lucia deixou de trabalhar fora de casa para cuidar exclusivamente da mãe idosa. Foto: Iasmin Oliveira

Aumento da expectativa de vida

Em 2022, o número de pessoas com mais de 60 anos no Brasil chegou a 32,1 milhões, registrando um crescimento de 56% em comparação aos 20,5 milhões registrados no Censo de 2010. A tendência é que esse número continue aumentando nas próximas décadas. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que a expectativa de vida do cidadão brasileiro subiu de 69,8 no início dos anos 2000 para 75,5 nos dias atuais. Na prática, os números mostram que o brasileiro tem mais tempo de vida, mas cresce também a demanda por cuidados no ambiente familiar.

Diante desse cenário, especialistas reforçam que o cuidado com pais idosos não se inicia apenas em fases de dependência ou vulnerabilidade, mas na forma como as famílias encaram o envelhecimento. De acordo com a psicóloga Isabela Santos, existem tabus e barreiras culturais que dificultam esse processo, como o receio de falar sobre o envelhecimento e sobre a morte. “É importante olhar e falar sobre esse fenômeno da vida com mais naturalidade, entender o que cada um deseja para esse momento final da vida e escutar, porque muitos idosos começam a falar sobre isso e a família não dá conta de escutar”, explica. 

A profissional também destaca que esses diálogos podem revelar informações essenciais para o cuidado na velhice. “Nessas falas podem aparecer observações sobre como o idoso quer que as coisas sejam feitas, desejos, necessidades de reconciliação ou restauração de algum vínculo”, diz. Além da preparação emocional, segundo ela, é importante conversar sobre elementos práticos, como burocracias e finanças.

Por trás das necessidades dos idosos, existem histórias de abandono das pessoas, especialmente mulheres, que assumem sozinhas os papéis de cuidadoras. Ao passo que a expectativa de vida aumenta, cresce o número de mulheres que carregam o peso do trabalho invisível de cuidar do outro.

Foto de capa: Pixabay

*Essa reportagem faz parte da série Narrativas Afetuosas, produzida na disciplina Jornalismo na Internet II, durante o período especial, por alunos do 8º semestre do curso de Jornalismo da Uesb.

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