Entre páginas e emoções: os benefícios da leitura para a saúde mental

O hábito de ler pode ser complementar à psicoterapia, servindo como um canal de expressão emocional e de autoconhecimento, aponta especialista 11 de maio de 2026 Ana Clara Nunes Freires*

Aos 16 anos, Daniele Batista conheceu a história de Riobaldo e Diadorim ao ler pela primeira vez “Grande Sertão: Veredas”, obra de João Guimarães Rosa, publicada em 1956. Sete anos depois, ao reler as palavras do escritor brasileiro, o livro se tornou um dos escritos que mais marcaram a sua vida. “Parecia que eu estava lendo algo que era meu. As pessoas, o jeito de falar, tudo era muito próximo de mim”, conta.

Daniele, que é mineira, se viu naquela história na qual as aventuras dos personagens se passam na sua terra natal e, por isso, se reconheceu. A minha experiência com a literatura não é diferente. Mais do que uma fonte de aprendizado ou forma de passar o tempo, a leitura é, para mim, um refúgio emocional. Desde criança, sempre busquei ler histórias que me libertasse das “prisões” do mundo real e me permitissem encontrar alegria e conforto nos momentos difíceis.

De acordo com a neuropsicóloga Fernanda Gugé, a leitura tem potencial terapêutico formativo, o que pode ser explicado pelo conceito da “terapia do espelho e janela”. Na psicologia, o espelho simboliza o encontro com nós mesmos e, nos livros, ele aparece quando nos reconhecemos em personagens, nos conflitos e nas emoções apresentadas. É por meio da história que conseguimos perceber sentimentos que, às vezes, nem sabíamos nomear, alcançando assim o autoconhecimento. 

“Esse reconhecimento é terapêutico, valida as nossas emoções, amplia a compreensão da experiência vivida. Então, a leitura pode atuar como uma forma complementar de uma psicoterapia, servindo como um canal de expressão emocional, de autoconhecimento”, complementa Fernanda.

A obra de Guimarães Rosa, “Grande Sertão: Veredas” é uma das leituras preferidas de Daniele.

Já a janela nos leva a olhar para fora. Por meio dela, a leitura nos apresenta outras realidades. Mesmo sem necessariamente nos identificarmos, passamos a enxergar o outro com mais sensibilidade, ampliando nossa visão de mundo e exercitando a empatia. “Quando a gente se expõe a essas diferentes ideias, contextos e modos de vida, conseguimos amadurecer. A leitura transforma não apenas o que pensamos, mas também como pensamos”, afirma a psicóloga.

Para a historiadora Daniele, além da conexão imediata com o enredo e o reconhecimento de si naquela obra, “Grande Sertão: Veredas” a fez refletir sobre moralidade, coragem, afetos e muitos outros aspectos da existência humana. “Não é um livro de filosofia desenhando uma teoria. Mas são reflexões que aparecem na fala de um homem do norte de Minas, no sertão, em um período remoto, sem acesso a grandes coisas, mas vivendo e sabendo da vida. É uma obra que transmite muita sabedoria.”

Leitura como apoio emocional 

Uma pesquisa realizada por neurocientistas da Emory University, publicada em 2014, aponta que o hábito de ler pode provocar mudanças reais na estrutura cerebral, especialmente em áreas ligadas à linguagem, compreensão e à forma como conectamos palavras a sensações. De acordo com o estudo, a leitura aumenta a nossa capacidade de nos solidarizarmos com o outro. Além disso, o contato com a literatura é benéfico para a saúde mental. 

Publicado na Revista Sociedade Científica, em 2024, o artigo dos pesquisadores do Instituto Federal do Espírito Santo avaliou o papel dos clubes de leitura na saúde mental. O levantamento revela que a prática regular de leitura nesses espaços coletivos está associada ao aumento do prazer, contribuindo para reduzir o estresse e proporcionar momentos de relaxamento.

Para a estudante de Jornalismo da Uesb, Luiza Batista, 21, a leitura é esse espaço de imaginação e alívio em meio à rotina. Desde a infância, ela foi motivada pela mãe a ler e, assim, o hábito se tornou um ponto de apoio emocional. “A vida tende a ser caótica, e eu sinto que os livros me trazem de volta. Às vezes, são fantasias sobre princesas que perdem a memória, ou então um livro sobre cartas de um escritor francês. Tudo isso me envolve e me traz de volta para minha própria realidade”, relata.

“A vida tende a ser caótica, e eu sinto que os livros me trazem de volta”, afirma Luiza Batista, 21 anos.

Conforme explica a neuropsicóloga Fernanda Gugé, os livros são motores de consciência crítica e, quando abordam temas como desigualdade, injustiça, amor próprio e liberdade, fazem com que o leitor interprete suas experiências a partir desses contextos sociais. Isso favorece o empoderamento pessoal, a saúde emocional e oferece novos repertórios para enfrentar situações rotineiras.

A experiência emocional proporcionada pelos livros também atua como um meio de liberação das próprias emoções. “Às vezes eu estou vivenciando algo muito amargo na vida, e não consigo elaborar isso, mas sinto a dor de um personagem e consigo chorar por meio da história dele”, conta Luiza.

Ponte entre pessoas 

Assim como Luiza, Péricles da Costa, 31, e Maria Luiza Andrade, 23, são amantes da literatura e veem os livros como uma válvula de escape em meio aos afazeres do dia a dia, especialmente em tempos de consumo frenético de informações nas redes sociais. 

A estudante de Jornalismo da Uesb conta que uma de suas leituras mais recentes foi “Oração para Desaparecer”, de Socorro Acioli, obra de realismo mágico que estabelece conexões entre Brasil e Portugal. A relação de Maria Luiza com o livro se tornou ainda mais especial quando ela o apresentou à mãe, que também se encantou com a história. “A leitura tem muito disso, de aproximar relações e permitir a criação de novos laços.”

A leitura aproximou Maria Luiza de sua mãe ao compartilharem o gosto pela obra “Oração para Desaparecer”.

Para o jornalista e mestre em Letras, Péricles, o hábito de ler é um respiro diante da lógica de consumo de conteúdos rápidos e repetitivos por meio de uma tela. “Hoje as coisas têm que ser sempre rápidas, seja no TikTok ou no Reels. E isso acaba acrescentando uma dificuldade de concentração, inclusive para atividades que antes eram mais naturais, como a leitura de um capítulo mais longo ou a permanência em uma mesma tarefa sem interrupções”, desabafa.

Além de contribuir para a redução do excesso de estímulos, a leitura também molda a forma como Péricles se relaciona com o mundo ao seu redor e com ele próprio.Acho que a leitura me torna um pouco mais humano, mais aberto a aceitar a minha fragilidade”, finaliza.

*Essa reportagem faz parte da disciplina Jornalismo na Internet II, produzida durante o período especial, por alunos do 8º semestre do curso de Jornalismo da Uesb.

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