O direito à voz e a institucionalização do silenciamento nas relações de trabalho

Nesse cenário, garantir espaços de escuta e diálogo no trabalho torna-se fundamental para prevenir práticas abusivas 2 de maio de 2026 Rose Aguiar

Neste 2 de maio, Dia Nacional de Combate ao Assédio Moral no Trabalho, a reflexão sobre as relações profissionais torna-se ainda mais necessária. A data nos convoca a reconhecer que o assédio moral nem sempre se manifesta em gritos ou humilhações explícitas; muitas vezes, ele se instala de forma silenciosa, por meio da exclusão, da perseguição velada, da desqualificação constante e da recusa sistemática ao diálogo.

Seja qual for o diálogo, o que se espera é que a fala e a escuta constituam um processo recíproco. No ambiente profissional, isso se torna mais do que uma expectativa: passa a ser um princípio ético. Falar e ser ouvido não são apenas atos de maturidade emocional, mas direitos fundamentais em qualquer relação saudável, sobretudo nas relações trabalhistas entre liderança e liderados.

No entanto, o que se observa em muitos espaços, inclusive naqueles que deveriam ser geridos sob a égide da democracia, é uma forma invisível e corrosiva de violência: o silenciamento institucionalizado. Silenciar alguém não se resume a interromper o som de sua voz; é distorcer palavras, ignorar a presença do outro ou, no exercício mais violento do poder, recusar-se a escutar.

Nas relações de trabalho, a hierarquia jamais deveria conferir à liderança o “poder de veto” sobre a existência intelectual e discursiva do subordinado. Quando um gestor se nega a receber um trabalhador ou ignora tentativas legítimas de diálogo, rompe o contrato básico de respeito e flerta com a arbitrariedade. Na área da educação pública, esse cenário assume, por vezes, contornos de feudo.

No sistema feudal, o poder era absoluto e baseado em laços de fidelidade pessoal, não em leis gerais. Quando o caráter público de uma instituição é abandonado em favor de uma gestão de aliados, o servidor que questiona métodos ou cobra transparência deixa de ser visto como colega para tornar-se um “insurgente” a ser isolado. Essa prática se torna ainda mais perversa contra profissionais em início de carreira, frequentemente vulnerabilizados pelo limbo das avaliações de estágio probatório.

O professor vive da palavra; ela é sua ferramenta de trabalho e também sua dignidade. Quando essa voz é interditada ou distorcida para fazê-lo parecer subversivo, ocorre o que podemos chamar de distorção discursiva. É repulsivo observar discursos verborrágicos e teoricamente democráticos, enquanto a prática se revela autoritária e marcada pela pressão psicológica.

Esse silenciamento possui, não raramente, alvo e recorte de gênero: a mulher. No mercado de trabalho, e até mesmo na administração pública, a intersecção da misoginia ainda tenta calar a voz feminina, especialmente quando ela se levanta contra o erro ou a injustiça. Na educação, normatizada pelo princípio da gestão democrática, o silenciamento impositivo da voz de uma mulher-professora por lideranças incapazes de gerir conflitos de forma madura e profissional constitui uma ferida aberta que adoece toda a equipe. O medo jamais foi um bom método de gestão escolar; ele paralisa a criatividade, destrói a saúde mental e corrói a liberdade de cátedra.

É urgente que as instituições olhem para além das estatísticas e compreendam que a qualidade do serviço público depende diretamente do respeito à voz de cada profissional. Uma voz que se levanta para esclarecer, propor ou educar nunca deveria ser recebida com o silêncio punitivo de quem detém o (micro)poder. Onde a fala honesta é punida, adoece não apenas o trabalhador, mas a própria democracia institucional. Neste 2 de maio, combater o assédio moral também significa defender o direito de cada trabalhador à palavra, à escuta e à dignidade.

Foto: Guia de Carreira

*Rose Aguiar, ou Rosiene Aguiar-Santos no meio acadêmico, é professora, doutora e mestre em Linguística pela Uesb, com graduações em Jornalismo (DRT 7580/BA), Letras e História. Atua na Rede Estadual de Ensino da Bahia e é formadora de professores pelo Instituto Anísio Teixeira (IAT), trabalhando na interface entre comunicação e educação.

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