Nos cinemas e em casa: que nos seja oferecido mais que o básico

A abertura da "Sala Cult" no cinema Centerplex, em Vitória da Conquista, e a chegada das obras do estúdio de animação japonês, "Studio Ghibli", no catálogo da Netflix, são motivos de comemoração em tempos tão sombrios 7 de fevereiro de 2020

Em meio ao desalento de tantas e tão vergonhosas notícias, eis que chegam até mim duas informações que fizeram meu coração bater um pouco mais sereno e um tantinho mais feliz. São notícias geograficamente muito distantes, mas que habitam uma mesma dimensão: o universo da cultura e do entretenimento, mais especificamente o cinema, a fase da exibição e seus desdobramentos.

A primeira delas foi uma notícia local que diz respeito à abertura de uma sala para exibição dos chamados “filmes de arte”. É a “Sala Cult” da rede de cinemas Centerplex, do Shopping Boulevard. Discussões à parte sobre a aparente antipatia do nome, vale a pena refletirmos sobre a chegada (quase tardia) desse tipo de sala de cinema a Vitória da Conquista.

Para uma cidade do interior do Nordeste brasileiro que tem a feliz marca de possuir aproximadamente dez salas de cinema em operação, é de se lamentar o fato de estarem em cartaz sempre os mesmíssimos títulos nos shoppings que sediam essas salas. Quem nunca passou pelo desespero de consultar os sites das referidas franquias (Centerplex e Moviecom) e se deparar com a mesma programação, composta, às vezes, com no máximo dois ou três títulos, quando sabemos haver um universo infinitamente mais diverso de filmes estreando em todo o país?

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O filme “Parasita”, de Bong Joon Ho, é um dos indicados ao oscar de melhor filme em 2020. A produção será exibida na “Sala Cult” no domingo, 9 de fevereiro, dia da premiação. Foto: Divulgação

Quando pensamos que essa mesma cidade sedia, há dez anos, um curso superior de Bacharelado em Cinema e Audiovisual em uma das mais respeitadas universidades públicas estaduais do Nordeste, é realmente intrigante a falta, até aqui, de um espaço de maior alcance e com melhores estruturas do que os bem-intencionados, mas ainda precários, cine clubes. Um espaço para a exibição de lançamentos ou reapresentação de clássicos nas chamadas “sessões da saudade” que fujam ao padrão da opressora indústria cinematográfica.

A segunda notícia, esta de foro mundial, se assemelha à anterior por se tratar igualmente de uma ação que disponibiliza a um grande público o acesso a filmes cuja exibição é restrita a espaços específicos e de difícil acesso. É a chegada à Netflix de títulos do maior estúdio japonês de animação, o Studio Ghibli. Por que a disponibilização de boa parte dos títulos dos estúdios Ghibli pela Netflix é algo a ser comemorado e, mais do que isso, por que devemos refletir seriamente sobre esse fato aparentemente simples?

Ora, estamos falando de uma das maiores redes mundiais de exibição (e agora também estúdio de produção) de filmes na atualidade, que é o serviço de Streaming da Netflix. A extraordinária performance do serviço mediante o público em geral se deve, indiscutivelmente, por sua acessibilidade alcançada em função de um combinado de estratégias: o valor da mensalidade (relativamente baixo), a funcionalidade de seu aplicativo (fácil de operar, baixo uso de dados de internet, boa qualidade visual das legendas, amplo oferecimento de filmes dublados) e uma considerável variedade em seu catálogo, atendendo aos mais diversos públicos e suas distintas preferências.

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Esse alcance impressionante faz da Netflix um dos mais relevantes espaços de acesso não apenas a títulos de filmes e séries, mas também às discussões suscitadas por eles. Os casos mais recentes são o especial de Natal do “Porta dos Fundos” e a indicação ao Oscar 2020 do documentário da brasileira Petra Costa, “Democracia em Vertigem”, num âmbito nacional, e a série “13 Reasons Why”, cuja polêmica teve alcance global.

Além disso, o Studio Ghibli é uma produção artística de altíssimo valor estético com uma deliberada atuação política e humanista que, em sua incrível trajetória de mais de trinta anos, tem nos oferecido verdadeiros tratados sobre temas como amizade, família, autoconhecimento, o poder da imaginação, os desafios da infância, da adolescência e da juventude, solidão, respeito às diferenças, entre tantos outros. Mais do que isso, estamos falando de filmes de animação cujo espectro de alcance se estende desde inocentes crianças, jovens apreciadores de anime, até adultos um pouco mais desconfiados.

Assim, ter disponível numa plataforma tão poderosa um conjunto de obras de arte que, além da beleza estética, apresentam narrativas que reforçam qualidades nobres da humanidade, é algo com, no mínimo, um grande potencial revolucionário. Ainda que o jogo perverso do algoritmo provavelmente não chegue a indicar esses filmes a espectadores que não apresentem um comportamento similar aos títulos aqui mencionados, a comoção promovida pela disponibilização do acervo já virou notícia.

Muito provavelmente, pessoas que nunca tinham sequer ouvido falar desse estúdio, passaram a saber de sua existência. Daí a realmente chegar a assistir a um dos filmes do estúdio é uma longa trajetória. De assistir a um título a se tornar fã da obra é outra jornada. No entanto, por algum lugar é preciso começar. Um passinho de cada vez.

Obviamente a Netflix não é nenhuma santa e nem deve ter as mais nobres intenções com essa jogada. Há sempre um jogo de ganhos financeiros nessas ações, de ambas as partes envolvidas. No entanto, ter disponível para ver, rever, assistir com amigos, indicar a familiares, alunos, disseminar em grupos de whatsapp esses títulos transformadores que agora podem ser acessados com a mesma facilidade que filmes mais populares é, sem sombra de dúvidas, um ganho imenso.

Sabendo que parte considerável da experiência de fruição e apreciação de toda obra de arte se ancora nas formas de acesso a ela, não podemos deixar de comemorar a chegada dos filmes do Studio Ghibli na Netflix e a abertura da “Sala Cult” em Vitória da Conquista. Sobretudo em tempos tão sombrios. Que a Moviecom siga o exemplo. A nós, público de cinema, resta ocupar esses espaços para que não corram o risco de deixarem de existir, não apenas fazendo uso direto deles, mas divulgando e estimulando outros públicos a se permitirem uma experiência diferenciada de cinema.

Vale a pena ainda promover debates e reflexões supostamente despretensiosas sobre seus temas, seus elementos estéticos, sempre com generosidade e leveza, sem tentar impor nosso gosto pessoal como algo de mais valor do que o gosto alheio. É uma tarefa lenta e que requer não apenas a vontade de fazê-lo, mas uma espécie de vocação. Para quem anseia por uma transformação no comportamento cinematográfico da cidade de Glauber Rocha, vale o esforço.

*Adriana Amorim é Doutora em Artes Cênicas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Professora Adjunta do Curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb). Atriz, Dramaturga e Diretora.

Imagem de capa: Pixabay

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