O remake de “Suspiria”: fazer de novo nem sempre é repetir

Em 2018, o clássico do terror italiano de Dario Argento ganhou uma nova versão que, apesar de ter a mesma premissa do filme original, apresenta uma visão diferente das personagens femininas 16 de dezembro de 2019 Ricardo Santos

Nem sempre um remake é uma perda de tempo, um crime contra a obra original. “Suspiria”, de 1977, é um clássico do terror italiano, do giallo, o filme mais celebrado do mestre Dario Argento. Em 2018, o também italiano Luca Guadagnino, diretor do aclamado “Me chame pelo seu nome, lançou uma nova versão de “Suspiria”. No final das contas, Guadagnino se saiu muito bem da enrascada em que se meteu, justamente por ter sido infiel à obra original.

A premissa é a mesma. Uma estudante de balé americana vai para uma prestigiada academia na Alemanha e coisas bizarras começam a acontecer. O filme de Argento é famoso por sua atmosfera arrepiante e estilosa. Pelo uso de cores primárias, principalmente o vermelho, na direção de arte e fotografia e pela trilha sonora com um rock progressivo, ao mesmo tempo, feérico e macabro. O roteiro é bastante básico e as atuações apenas satisfatórias.

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Suspiria (1977), de Dario Argento, 98 min. Foto: Divulgação

A maior crítica que se pode fazer ao filme (e ao giallo em geral) é o seu sadismo contra as mulheres, pela maneira como morrem, assassinadas violentamente por mãos masculinas, além de mostrá-las como frágeis ou megeras, de maneira bidimensional. Tudo isso mesmo tendo uma protagonista feminina.

Já no remake, há um feminismo muito presente, inclusive, sem a preocupação de mostrar as mulheres como simpáticas. As personagens do novo filme metem medo porque elas têm plena consciência de seu poder. Aqui os homens são os inimigos, os fracos.

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Suspiria (2018), de Luca Guadagnino, 153 min. Foto: Divulgação

Guadagnino foi ambicioso ao ampliar o contexto desse remake. Assim como no original, ele se passa na Alemanha ocidental da década 1970. O diretor procura discutir traumas políticos do passado, relacionados à Segunda Guerra Mundial, e daquele presente, por meio da tensão social causada pelas ações da organização Fração do Exército Vermelho (RAF), mais conhecida como Grupo Baader-Meinhof. Ao invés de tirar o espectador da trama, essas preocupações extras aprofundam a experiência porque o passado das mulheres da academia de balé tem a ver com repressão e perseguição ao longo da história, contra a plena liberdade delas.

Esteticamente, o remake envolve e assusta. Não se parece em nada com a ambientação estilizada do “Suspiria” de Argento, criada em estúdio, e sim com os filmes alemães do período, de cineastas como Fassbinder, Wenders, Herzog, von Trotta e outros. As cores são lavadas e os cenários, sóbrios, realistas.

O “Suspiria” de Argento fascina pelo clima de delírio, pelo simbólico sobre o subterrâneo da condição humana. O remake seduz pelo grotesco mais visceral, uma metáfora da condição da mulher contemporânea. Mostra uma crueldade feminina implacável. Porque, mesmo no grotesco, há sabedoria, beleza e libertação.

*Ricardo Santos é escritor, editor e servidor público. Nasceu em Salvador e é formado em Jornalismo pela Uesb. Ele possui um blog e seus contos foram publicados em sites, coletâneas e revistas, como Somnium e Trasgo. Organizou a coletânea Estranha Bahia (EX! Editora, 2016; 2ª edição 2019), finalista do prêmio Argos. Também é autor do romance juvenil Um Jardim de Maravilhas e Pesadelos (2015) e do livro de viagens Homem com Mochila (2018). Seu mais recente livro é a coletânea Cyberpunk (Draco, 2019). 

Imagem de capa: Pexels

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