Você já deve ter ouvido que “estamos no pior momento da pandemia”

Em Vitória da Conquista, na última quinta-feira (18/02), a ocupação das UTI's chegou 97% de ocupação. Maior taxa desde o início da pandemia 21 de fevereiro de 2021 Luan Ferreira

Essa, talvez, tenha sido a frase mais dita no último mês. Desde dezembro temos visto os números da covid-19 subirem vertiginosamente em todo país. Poucas são as realidades em que essa não seja a situação de momento.

Lá em meados de março de 2020, poucos eram os casos registrados na Bahia. Vitória da Conquista ainda vivia apreensiva por tudo que o poderia acontecer. Toque de recolher se discutia, fechamento do comércio também. Poucas eram as vozes dissonantes sobre essas possibilidades.

Brumado e Jequié registram, no mesmo dia, os primeiros casos da região. Os infectados teriam pegado o vírus numa viagem ao sudeste do país. Ao regressarem, pousaram de avião em Vitória da Conquista e seguiram seus destinos. Os dias seguintes à confirmação foram de questionamentos: as pessoas que estavam nesse voou estão sendo monitoradas? Se passaram por Vitória da Conquista, podem ter disseminado o vírus por aqui?

Até este período, os boletins diários sobre coronavírus destacavam números de casos notificados, descartados, confirmados para síndrome gripal. Cada número a mais de casos notificados como possíveis casos de covid pareciam soar como casos confirmados, até que no dia 31 de março o primeiro caso confirmado apareceu no boletim.

Silêncio. Medo. Incerteza. E agora?

Quatorze dias depois já eram 16 casos confirmados e, entre eles, o registro da primeira morte. Não foi muito tempo entre o primeiro caso e primeira morte. Quase um ano atrás, a dúvida era de qual teria sido a pior momento: o 31 de março ou o 13 de abril?

A medida para se evitar o aparecimento dos casos em Vitória da Conquista foi um fechamento total do comércio. Um decreto de 22 de março, um domingo, fez com que nada abrisse na segunda. O centro da cidade parecia um deserto. Durou até a terça.

Não tínhamos nenhum caso na cidade, e o pensamento de muita gente na quarta-feira foi de que tudo aquilo era exagero. As lojas continuavam com portas fechadas, mas o centro comercial não estava mais vazio. Em algumas análises, alguns, hoje, podem dizer que foi medida precipitada; outros, dirão que foi essencial para os casos demorassem a aparecer.

Maio foi o mês em que os primeiros dados de ocupação de leitos de enfermaria e de UTI’s para covid-19 começaram a ser divulgados. A nossa experiência ao ver os dados de quantas pessoas estavam internadas foi parecida com a primeira experiencia de ver os casos confirmados aparecerem.

Na TV, rádio, jornal e internet discursos cheios de certezas sobre a doença, outros cheios de dúvidas. Mas, os piores foram os que menosprezaram e minimizaram. Esses leram muitos ao abismo.

Dor. Foram 138 dias entre a primeira e a centésima morte por covid-19 em Conquista. Da centésima primeira até a morte de número duzentos reduzimos o tempo: foram apenas 87 dias. O que mudou da primeira morte para a morte do senhor de 84 anos, morador do bairro Zabelê, que foi a morte de número 295 a ser confirmada na cidade?

Enquanto, de alguma forma, pelas ruas da cidade buscamos sobreviver enquanto dura esse caos, ou, quem sabe, voltar a viver, muitos lutam exaustivamente para ter a possibilidade de estar vivo. Profissionais, dentro de leitos covid-19, lutam para conseguirem oferecer o melhor tratamento possível.

Em julho do ano passado, os leitos de UTI’s covid-19 tinham chegado a 96% de ocupação em Vitória da Conquista. Dia 16 de julho. No mesmo dia, uma morte e mais 79 casos confirmados. Pior momento da pandemia?

O que levar em conta para chegar à conclusão de qual é o pior momento da pandemia? Quem teve que fechar as portas, encerrar o trabalho de uma vida inteira terá um dia para eleger como o pior. O pai e mãe de família que depende de seu salário para por comida na mesa e, agora, por causa da pandemia está sem renda, poderá relatar um outro momento: talvez o da demissão, talvez o do momento que filho pede o que comer e não há nada na dispensa. Para o profissional da saúde que está sobrecarregado, saindo de um plantão para o outro, passando horas, dias, semanas sem ver a família terá alguns dias para escolher como o pior da pandemia.

“Você não imagina o que é ter passado o último ano tendo que dar a notícia de que seu pai, seu filho, avô, avô, mãe, morreu”, ouvi de uma médica intensivista. Antes de começar a entrevista, uma confissão: “não está sendo um dia fácil”, ela disse. No meio de tantas perguntas, com tantas respostas humanas, perguntei por que o dia não estava fácil: “perdi uma paciente hoje”, os olhos marejaram. Ela tinha visto morrer por covid-19 uma mulher de 54 anos que era paciente dela há 18 anos. Era mais do que paciente. Todo esse tempo faz criar laços.

Naquela semana, essa médica tinha perdido muitos pacientes. Alguns jovens, outros nem tanto. Alguns sem nenhuma doença preexistente, outros com doenças que não os impedia de ter uma vida normal. Para as famílias dessas pessoas, talvez o encontro com o médico que vai dar a notícia que elas não esperam receber, seja o pior momento da pandemia.

O toque de recolher iniciado na última sexta-feira (19/02), na Bahia, talvez tenha trazido de volta o sentimento de falta de direção pra muita gente. Para algumas pessoas, é como se a gente estivesse regredindo depois de tanto se preservar. Medidas como essa trazem de volta a sensação de fechar uma porta que a gente não sabe se poderá reabrir.

A medida queria evitar com que a taxa de ocupação das UTI’s no Estado não chegasse a 80%. Mas ela chegou. Um novo decreto, agora, ampliar para fechamento de tudo entre oito da noite e cinco da manhã. Vejo como medidas que tentam evitar o lockdown. Em Vitória da Conquista, na última quinta-feira (18/02), a ocupação das UTI’s chegou 97% de ocupação. Maior taxa desde o início da pandemia. Houve queda entre sexta e sábado, mas aumento neste domingo.

Foto: Ilustrativa/Reprodução

*Luan Ferreira é repórter da TV Sudoeste e colunista do site Avoador. 

 

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