Os perigos dos agrotóxicos à saúde humana, aos animais e ao ecossistema

Entenda quais os riscos dessas substâncias, como é possível reduzir o consumo e as possíveis mudanças sobre seu uso na agricultura que avançam no Congresso Nacional 4 de dezembro de 2018

“Quando vou comprar frutas, eu sempre procuro as mais bonitas, as que chamam mais atenção. Nunca cheguei a perguntar quais têm produtos químicos ou não”, diz o marceneiro Edvaldo Campos. Como ele, boa parte dos consumidores que compram frutas e verduras nas feiras ou supermercados desconhecem o quanto os alimentos podem estar contaminados com agrotóxicos que podem ser um perigo à saúde humana. Além disso, o uso desses produtos pode provocar riscos a fauna e a flora.

Os agrotóxicos são substâncias químicas ou biológicas que servem para controlar quimicamente insetos e ácaros nas plantações, segundo o agrônomo Fábio Lúcio Martins Neto. Com a aplicação desses produtos espera-se que as plantas não morram ou que a produção agrícola reduza. Por outro lado, “são substâncias extremamente perigosas aos seres humanos e à fauna, porque têm sérios riscos de causar impactos negativos no ambiente e por isso são produtos extremamente regulados por órgãos de fiscalização”, explicou Fábio.

O debate sobre o uso de agrotóxicos é longo. De um lado, há os ambientalistas que alertam para os riscos desses produto. Do outro, os latifundiários, os grandes produtores rurais do agronegócio, que defendem a necessidade de acabar com as pragas nas plantações e aumento da produção na defensa do uso desse produtos. Nesse debate, há ainda o ecossistema. Para a professora da Uesb (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia), a bióloga e diretora da Federação Baiana de Apicultura e Meliponicultura (Febamel), Generosa Sousa Ribeiro, é preciso alertar sobre a falta de controle no uso dos agrotóxicos, que vai além da aplicação para matar pragas nas lavoura. “Isso porque os agrotóxicos acabam matando também outros insetos ou outros inimigos naturais que vivem na natureza, interferindo no equilíbrio do ecossistema”, explica.

Generosa Sousa Ribeiro: “Todo agrotóxico deveria, por exemplo, ser vendido com receituário agrônomo”. Foto: Acervo Pessoal.

A “erva daninha”, por exemplo, termo que surge na indústria de tecnologia de agrotóxicos para nomear as plantas espontâneas ou plantas companheiras que nascem nas plantações, têm uma função ecológica. “Se algum animal ou planta, inseto ou outro animal surge mais que outros naquele ecossistema, é porque está havendo um desequilíbrio e o uso do agrotóxico provoca isso. É uma tecnologia viciada para combater pragas. Só que ela também destrói os inimigos naturais das plantas”, explica Generosa.

Outro ponto também questionado pela bióloga Generosa está relacionado à venda de agrotóxicos. “Qualquer pessoa pode ir no mercado e comprar um veneno pra matar um mato. A gente desconhece esse controle, que deveria existir. Todo agrotóxico deveria, por exemplo, ser vendido com receituário agrônomo”. Segundo ela, esses produtos podem ser substituídos por um controle biológico por meio de fungos isolados para o combate de insetos em lavouras. “A agricultura brasileira é reféns desses produtos químicos”, enfatiza.

Alimentos infectados

De acordo com a nutricionista Perla Ferreira Leite, é preciso alertar a população sobre os perigos do consumo de alimentos com agrotóxicos: “os efeitos são cumulativos a longo prazo, como problemas no sistema nervoso ou câncer. Para proteger o organismo devemos higienizar bem os alimentos”. Contudo, muitas pessoas consomem alimentos infectados sem saber e nem sempre é possível detectar os males causados pelo agrotóxico ao corpo humano, pois cada indivíduo reage de uma forma. “Quando a vítima é exposta a altas doses de agrotóxicos, os sintomas são quase imediatos ou levam poucas horas para aparecer. Já em doses menores, por um longo período, as consequências podem ser graves, como aborto, câncer, esterilidade, entre outros, mas nem sempre os malefícios são percebidos imediatamente”.

Informações fornecidas pela nutricionista Perla Ferreira Leite.

Uma alternativa mais saudável ao consumo de alimentos com agrotóxicos é a utilização de alimentos orgânicos. Segundo Perla, os orgânicos são uma boa opção para escolha pelo fato da não utilização de agrotóxicos na produção desses alimentos. Além disso, as frutas típicas da época pela facilidade da produção devido às boas condições sazonais são uma opção de alimentação.

Para a feirante Marinez Santos, é praticamente impossível comprar um produto sem agrotóxico. “Não tem como escolher sem. A gente pega na Central de Abastecimento e, mesmo se a gente perguntar, eles sempre vão dizer que não tem. E, além disso, até os clientes escolhem os produtos pela beleza, a gente acaba fazendo o mesmo para poder vender”, contou.

De acordo com o professor do curso de Agronomia da Uesb, Armínio Santos, o ideal é escolher alimentos em uma relação inversa à estética. “Quanto mais feio, melhor para a saúde. Quanto mais liso, sem pinta, sem manchas, sem nada, isso pode estar – nem sempre acontece – mas sugerindo que este produto foi conseguido à custa de aplicação de agrotóxico”. Assim como a nutricionista, o professor sugere o consumo de frutas e produtos específicos da estação: “para conseguir esses produtos fora da estação, se utiliza muito o agrotóxico”.

 Agricultores e a produção

Já a professora do curso de Agronomia da Uesb, Doaccey Rocha, alerta também para a falta de preocupação em pesquisar como os agrotóxicos atingem o agricultor que têm contato com esses produtos. “A gente entra em discussão sobre os impactos dos agrotóxicos na nossa saúde, mas nós não temos nenhum estudo relacionado a quantas pessoas estão sendo afetadas pelo agrotóxico diretamente. Nós e os agricultores temos levado muita porrada da mídia, baseada em conhecimentos, que muitas vezes são empíricos, ou são estudos regionalizados, especificados, que ainda não contemplam o todo. Eu acho que há essa necessidade da gente fazer um levantamento de qual é o percentual de pessoas e trabalhadores da agricultura que, de fato, entendem a importância do uso de agrotóxicos e de saber usar o produto de forma correta”, opinou.

Para o agrônomo, Fábio Lúcio Martins Neto, há como eliminar a utilização dos agrotóxicos, mas existem medidas que precisam ser tomadas. “Os agricultores precisam de uma boa assistência técnica, um bom serviço de extensão rural, bom serviço de consultoria. É necessário também que as universidades pesquisem esses métodos de substituição de agrotóxicos, porque as pesquisas ainda são poucas para que a gente possa diminuir ou até eliminar, quem sabe, o uso do agrotóxico”, finaliza.

Segundo analista técnico do Instituto do Meio Ambiente, diretor de Vigilância Sanitária da Secretaria de Saúde da Bahia e coordenador adjunto do Fórum Baiano de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos e Transgênicos, Ruy Muricy de Abreu, a Bahia em termos de consumo está entre 6º e 7º, com base nos dados levantados pelo Ministério da Saúde e pelo Ibama. “Para você ter uma ideia, nos dados levantados na safra 2015, a Bahia consumiu cerca de 50 milhões de toneladas de agrotóxicos, ou seja, 50 milhões de quilos foram jogados aí na nossa lavoura”.

Mas Muricy explica que o maior uso desses produtos químicos é feito pelos grandes latifundiários do agronegócio e não pelo pequeno produtor. “E se a gente se perguntar quem é que bota o nosso alimento na mesa? O nosso feijão, o nosso arroz, a nossa verdura, as hortaliças? É a pequena produção. Não é o agronegócio. E esse agronegócio traz divisas para o país, o meio ambiente que está sendo degradado, quem é que paga isso? Isso não entra na conta do país? É a chamada externalidade. Por exemplo, quantos atendimentos são feitos pelo SUS de pessoas afastadas do trabalho, de câncer?  O país está pagando isso. E isso não entra na conta do agronegócio. Entra o dólar que vem através da compra, mas essa conta não se faz, mas é preciso ainda fazer essa conta”.

 

*Em agosto deste ano os cursos de Administração e Engenharia Florestal da Uesb, campus de Vitória da Conquista, realizaram o evento “Debate sobre a nova Lei do Agrotóxico” sob a organização dos professores Maria Madalena Souza e Dalton Longue Júnior. O objetivo era discutir o uso dessa substância no Brasil e as mudanças propostas pelo Projeto de Lei. Você pode conferir a palestra na íntegra na página do Avoador no Facebook.

Foto de capa: Agroplural

 

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