Professor do IF Baiano é denunciado por doutrinação e recebe manifestação de apoio de alunos

Alunos se mobilizaram na quinta-feira, 11, em prol da liberdade de expressão em sala de aula 15 de outubro de 2018

Gedeval Paiva Silva é professor há seis anos do Instituto Federal Baiano (IF Baiano), campus de Itapetinga, e foi acusado pela tia de uma aluna de praticar em sala de aula doutrinação política e tortura psicólogica, por meio de um blog da cidade. Após a repercussão do caso, os alunos fizeram uma manifestação de apoio ao docente na última quinta-feira, 11, em frente à instituição.

O professor é responsável pelas disciplinas de Geografia, no Ensino Médio, e Educação Ambiental, no curso de Meio Ambiente. Em Geografia, a ementa da disciplina na instituição prevê temas relacionados à política, sendo comum a análise da formação do mundo contemporâneo. “Debatemos as revoluções socialistas no mundo, a Guerra Fria e o mundo bipolar. Nesse contexto, abordam-se em sala os golpes militares na América latina, como forma de incluir essa porção do espaço mundial no conflito entre EUA x URSS, mostrando aos alunos como o nosso país se inseriu nesse processo e quais as implicações do governo militar para o país”, explicou. Para isso, ele realiza debates, seminários, exibição de filmes e documentários. “Tais conteúdos buscam permitir aos alunos uma leitura crítica da realidade, aguçando o olhar geográfico”.

Para permitir uma melhor compreensão do conteúdo sobre Guerra Fria e os golpes militares na América latina, o professor sempre fez a exibição do filme “Batismo de Sangue”, que retrata a relação de um grupo de religiosos contra o regime militar. Dessa vez, ao apresentar a filmografia, surgiu uma polêmica sem precedentes na escola. Uma das alunas fez um comentário com a família sobre o filme e uma tia dela associou Gedeval ao protesto #Elenão feito por alunos de outras turmas nas instalações da instituição. “No dia e horário dessa manifestação, eu estava em sala de aula e ouvi apenas os gritos. Os alunos fizeram uma manifestação, gritando o ‘Ele Não’, filmaram o ato e divulgaram nas redes sociais”.

Porém, apesar de não ter envolvimento com o acontecimento, ele e os alunos foram relacionados à situação. “(Ela) disse que eu estava incitando, fazendo doutrinação e tortura psicológica. No dia seguinte, o tema foi abordado em um blog da cidade e, também, debatido em um programa de rádio”, relatou Gedeval. “Tudo isso se deu sem terem o cuidado de averiguar ou de verificar junto à instituição o que ocorreu de fato”, desabafa o professor, que conta ter sofrido uma crise nervosa e ter ficado bastante chateado com toda a situação.

Diante das denúncias indevidas contra o professor, divulgadas no dia 9, houve uma reunião da direção geral do IF Baiano com os servidores, na quarta-feira, 10, e também foram elaboradas duas notas: uma da instituição, outra, da União dos Estudantes da Bahia (UEB). Em ambas as publicações, apresentam-se os fatos e há uma defesa como também o direito a liberdade de expressão e manifestação do trabalho docente, bem como a autonomia didático-científica da instituição.

 

Manifestação

No dia seguinte às falsas acusações, alguns alunos se reuniram e organizaram um movimento na quinta-feira, 11, em que fecharam os portões da escola e fizeram cartazes e faixas com frases em defesa da liberdade de expressão do professor Gedeval w contra a repressão e a perseguição à autonomia da escola. A intenção do ato, segundo Arthur Neves Sousa Pereira, aluno do 3° ano, foi defender o professor Gedeval da acusação de que estaria fazendo “tortura psicológica” e doutrinação aos alunos” e a “defesa do instituto contra as ‘fake news’ espalhadas na cidade de Itapetinga”.

Arquivo de alunos da manifestação.

Segundo Ludmilla Mota Dias, estudante do 3º ano, que esteve à frente da organização da manifestação, a repercussão do vídeo em que os alunos gritavam “Ele Não” pelos corredores do IF Baiano não teve participação de nenhum docente ou servidor do campus. “A notícia que se espalhou foi que o professor Gedeval Paiva impulsionou o ato e que ele estava praticando tortura psicológica e doutrinação aos estudantes, ao lecionar assuntos como a Ditadura Civil/Militar, o que é um total equívoco. Visto a importância do assunto, que possibilita uma associação e compreensão da sociedade atual, os discentes, de imediato, repudiaram a situação”. Ela diz ainda possuir “autossuficiência para formar um pensamento consolidado sobre a conjuntura política atual, sem intervenção de nenhum docente do campus”.

“Tal fato me lembrou do projeto ‘Escola Sem Partido’, que coloca o professor em situação de vulnerabilidade e fere a liberdade de ensinar, de pesquisar e de expressão do docente, garantidas pelo artigo 206 da Constituição”, argumentou Arthur, que defende a educação como um processo de troca entre alunos e professores. “Com esse processo de troca, criam-se seres críticos, criativos e capazes de desenvolver habilidades cognitivas altíssimas”, complementa. Nesse sentido, para o estudante, é primordial debater política em sala de aula, ainda mais quando o cenário político influencia direta e indiretamente na formação ética e moral dos estudantes. “Vivemos em uma sociedade multiplural, e tais conteúdos devem ser discutidos com respeito à visão alheia e com consciência de que nem sempre há uma “tese” 100% correta”, ressalta.

 

Ser professor

“Sou professor por opção, amo minha profissão, me realizo sendo professor. Faço meu trabalho com a alma, sou muito intenso em tudo. Na sala não é diferente, costumo sempre repetir que o bom professor é aquele que consegue, ‘promover o encantamento de almas’”, afirma Gedeval. Para ele, receber o apoio e amparo dos alunos às vésperas do dia do professor foi gratificante. “Me senti profundamente feliz em ter o apoio deles, o carinho o afeto, o cuidado. Procuro ter uma relação de respeito e afeto por eles, ouvir os seus problemas, acompanhar o crescimento, conheço cada um pelo nome, às vezes aconselho, converso sobre questões pessoais, enfim, temos uma relação legal, franca e aberta”, concluiu.

“O professor Gedeval é querido por muitos ex e atuais estudantes, que admiram a metodologia aplicada pelo docente”, explicou Ludmilla. Isso também evidenciado por Arthur, que afirmou que o professor sempre estimulou o pensamento crítico em suas aulas. “Ele sempre propõe debates, seminários, avaliações em que possa ser expressa a opinião de cada aluno, opiniões estas, distintas, que levam sempre a discussões pacíficas sobre o conteúdo. Suas aulas sempre foram construtivas, críticas e com vista às diversas visões de mundo que existe. Além de ter uma didática legal, o professor Gedeval é um cara conselheiro, brincalhão, inteligente. Ademais a isso, digo a todos os professores, que pela educação, vale a pena a luta”.

Capa: Ilustração do jornalista Gil Brito.